      VIAGEM AO
    SOBRENATURAL


     ROGER J. MORNEAU

         Ttulo do Original em Ingls:
     "A TRIP INTO THE SUPERNATURAL"
                     1982




               Traduo de:
           Carlos Gama Michel e
           den Thomas Barcelos




         Casa Publicadora Brasileira
             Tatu  So Paulo
                    2004




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        Ttulo do Original em Ingls: "A Trip Into the Supernatural"

    Direitos de traduo e publicao em lngua portuguesa reservados 
                       CASA PUBLICADORA BRASILEIRA
                          Rodovia SP 127  Km 106
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                           Stima Edio. 2008.

              Editorao: Neila D. Oliveira e Abgail R. Liedke
                  Projeto Grfico e Capa: Manoel A. Silva
                       Imagem da Capa: Photodisc



                       Digitao e Produo em PDF:
                            Gilliard Santos de Farias
                            gilliardsf@hotmail.com
                                    2009/2010




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                   VIAGEM AO SOBRENATURAL
         INFORMAES SOBRE A VERSO DIGITAL (COMPACTA)
"Informaes sobre a verso digital"  baseado nos textos "Nota sobre a verso digital", encontrados nas
verses digitais dos livros "Revelando os Mistrios de Daniel" e "Preparao para a Crise Final", cuja autoria
 de Marllington Klabin Will, colaborador da Casa Publicadora Brasileira.

Existem alguns detalhes nesta verso digital que a tornam diferenciada, se comparada 
verso impressa. Uma das diferenas  que, devido  nova formatao aplicada, a
numerao das pginas desta verso no corresponde com a sequncia da obra original.
E, com a inteno de tornar o texto mais claro, utilizamos expresses entre colchetes,
revisamos as pontuaes e melhoramos alguns trechos que dificultavam a interpretao,
tendo o absoluto cuidado de no alterar o contedo.

"Quanto aos direitos autorais, ressaltamos que  permitida a distribuio e reproduo
particular, desde que essa seja gratuita e sem inteno de lucro, pois a proibio que se
faz  apenas em relao  reproduo com finalidades lucrativas, como se pode ver nas
seguintes transcries grifadas":

'Lei de Direitos Autorais' (Lei n 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998):

Art. 104. Quem vender, expuser a venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depsito ou
utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender,
obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para
outrem, ser solidariamente responsvel com o contrafator, nos termos dos artigos
precedentes, respondendo como contrafatores o importador e o distribuidor em caso de
reproduo no exterior.

Art. 184 do Cdigo Penal:

Violar direito autoral
Pena: deteno de 3 meses a 1 ano ou multa.
1 Se a violao consistir em reproduo, por qualquer meio, com intuito de lucro, de
obra intelectual, no todo ou em parte, sem autorizao expressa do autor ou de quem o
represente, ou consistir na reproduo de fonograma ou videofonograma, sem autorizao
do produtor ou de quem o represente.
Pena: Recluso de 1 a 4 anos.

"Portanto, segundo as leis de direitos autorais, desde que a finalidade se mantenha
evangelstica e missionria, esse livro pode ser distribudo livre e gratuitamente".

Para adquirir o livro, acesse o site da Casa Publicadora Brasileira:
www.cpb.com.br
_________________________________________________________________________
Gilliard Santos de Farias
Editor da Verso Digital




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                         VIAGEM AO SOBRENATURAL
                                 PREFCIO




        As experincias e recordaes da infncia e da guerra haviam levado Roger
Morneau para longe de Deus de tal maneira, que ele agora O odiava.
        Depois da guerra, Roger foi levado, atravs de um amigo, a adorar os demnios.
Ento, ele descobriu as boas novas de um Salvador amoroso, e sentiu o desejo de cortar
os laos de adorao aos espritos.
        Neste livro, ele narra sua prpria histria de como o socorro divino o livrou do
terrvel mundo do satanismo.

      Roger J. Morneau faleceu em 22 de setembro de 1998, aos 73 anos de idade.




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                        VIAGEM AO SOBRENATURAL
                            AGRADECIMENTOS


      Tenho satisfao de reconhecer minha dvida de gratido  Sra. June Strong que,
como escritora profissional, emprestou orientao e direo  minha pena, e sem sua
ajuda eu ainda no teria escrito o que sei e sinto a respeito dessa questo da guerra
espiritual.
      Tambm ao Pastor William R. Larson tenho uma palavra de apreciao. Foi ele quem
me convenceu, mesmo antes que eu escrevesse qualquer coisa, a deixar registrada a
minha experincia com os espritos, para que outras pessoas pudessem ser beneficiadas.
      Sou agradecido, tambm, a Ellen e Maynard Cady, que muito me ajudaram durante o
tempo de preparo do manuscrito, forando-me a parar de pensar e de reviver as
memrias do passado, e que me levaram muitas vezes para passar um dia em sua casa de
campo nas montanhas da Pensilvnia.
      Neste livro, foram alterados, em sua maioria, os nomes das pessoas, com o fim de
proteger sua privacidade com relao aos eventos narrados.


                                 DEDICATRIA


      Dedico este livro a uma jovem que h mais de cinco dcadas me deu a mo e o
corao em casamento, disposta a compartilhar sua vida comigo, mesmo que isso pudesse
significar andar pelo vale da sombra da morte.

      MINHA PRECIOSA ESPOSA  HILDA




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                                  CAPTULO 1
                            Molestado Pelos Espritos


        Eu estava pegando um livro para ler quando o papel, com o recado de Roland
pedindo que eu lhe telefonasse, comeou a levitar pelo quarto e bateu no meu livro aberto
com tal fora que o livro caiu das minhas mos e quase do meu colo. Meu primeiro
impulso foi dizer uma ou duas coisas ao esprito, mas eu j havia tomado a deciso de no
me envolver mais em contato verbal com os espritos, custasse o que custasse. Colocando
o pedao de papel entre as pginas do livro, continuei a leitura. Poucos momentos depois,
uma fora invisvel arrancou o livro das minhas mos e o atirou contra a parede do outro
lado da sala.
        No por causa do que os espritos fizeram, mas por respeito ao meu amigo, decidi
ligar para ele. Havia um telefone pblico no corredor, mas neste caso preferi no us-lo;
ento, me dirigi a um restaurante no final da rua. Enquanto me assentava na cabine
telefnica, dei uma olhada no relgio. Era 1:00 da manh. O telefone tocou duas vezes.
         Al! Morneau,  voc?
         Sim, sou eu.
         Morneau, que diabos! ...O que estou falando? No foi isto que eu quis dizer.
Tencionava dizer que voc est brincando com sua vida. Voc perdeu a cabea?
         Voc parece transtornado  repliquei.  Qual  o seu problema?
         Meu problema? Eu no tenho problema. Voc  que est em uma grande
encrenca e fala como se no tivesse uma nica preocupao no mundo. Morneau, sempre
admirei seu esprito ousado, mas agora voc foi longe demais. Voc se voltou contra os
espritos que o tm beneficiado e eles o destruiro. Estou surpreso de que voc ainda
esteja vivo. Rapaz, estou preocupado com voc. Estou sentado ao lado deste telefone a
noite inteira esperando pela sua ligao porque me interesso pelo seu bem-estar. Voc no
tem nada para me dizer?
          claro que tenho algo para lhe dizer. Mas como posso lhe dizer se voc ainda no
me deu uma chance de abrir a boca?
        Imediatamente, ele continuou:
         Morneau, voc no avalia a extenso do problema em que se meteu. Na quarta-
feira  noite, de acordo com o sacerdote satanista, voc esteve em grande dificuldade com
os espritos. Mas agora  tarde, muito tarde.
         Roland,  interrompi  se voc se acalmar, ser muito mais fcil de nos
entendermos. Agora explique melhor sobre quarta-feira  noite.
        Aps alguns momentos, ele recuperou a calma.
         Na ltima quarta-feira, quando entrei em nosso local de culto, fui levado ao
escritrio do sumo sacerdote. Ele me perguntou se eu o havia visto na semana passada.
Sua expresso me deu a entender que algo terrvel havia acontecido. Perguntei se voc
estava morto; imaginei que poderia ter sofrido um acidente. Ele me afirmou que voc
estava em uma situao ainda mais horrvel. Na tera-feira, durante a hora sagrada da
meia-noite, um esprito conselheiro apareceu a ele e disse que voc estava estudando a
Bblia com os guardadores do sbado, os quais so exatamente as pessoas que o mestre
mais odeia na face da Terra. O sacerdote me pediu para tentar encontr-lo a fim de faz-
lo entender acerca do perigo em que se voc se encontrava, mas no pude ach-lo.
         Est tudo sob controle  eu disse.  No estou em perigo to grande assim.


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        Isso  o que voc pensa  novamente, aumentou o volume da voz dele.  Hoje,
s 18:30, o sumo sacerdote me telefonou para informar que, de acordo com os espritos,
voc foi hoje  igreja com aqueles guardadores do sbado, e isto deixou o mestre
enfurecido. O que voc tem a dizer sobre isso?
        Sim, eu tenho estudado a Bblia e fui a uma igreja que observa o sbado. Mas
pouco me importa o que o querubim cado sente a meu respeito. Se voc quiser saber
mais a respeito de minhas atividades desta ltima semana, por que no vem me ver logo
mais, pela manh?
       Ao voltar para casa, orei e fui deitar-me. Vinte minutos depois, as luzes se
acenderam. Eu as apaguei. Quase instantaneamente elas se acenderam de novo. Resolvi
dormir com elas acesas. Poucos minutos depois, quase todas as coisas comearam a sair
dos seus lugares. Um quadro saiu da parede, voando atravs do ar, e se pendurou na
parece oposta. Um abajur ficou parado no meio do espao sem nenhum suporte visvel.
Ao observar as atividades dos espritos, compreendi que minhas oraes os haviam
colocado sob alguma forma de restrio. Eles no podiam conversar comigo, como eu
acreditava que eles gostassem de fazer. Imediatamente, mandei que eles sassem ao
comando de Jesus Cristo. O abajur e os quadros caram no cho. Peguei o abajur e
endireitei a sua cpula, mas deixei os vidros quebrados dos quadros para varrer pela
manh. Agradeci a Jesus pelo Seu amoroso cuidado para comigo e voltei para a cama.
       Fui tomado por uma imensa sensao de prazer ao pensar que poderosos espritos
de demnios haviam sado  meno do nome de Jesus. Esse acontecimento tambm
contribuiu para fortalecer minha convico de que tudo, como eu dissera a meu amigo,
estava sob controle.
       Passou-se aproximadamente uma hora, e os espritos voltaram. Mais uma vez
ordenei que, em nome de Jesus, eles se retirassem. Sem hesitar, eles foram embora, e eu
tentei pegar no sono.
       Para meu espanto, s 4:00 da manh, comearam de novo os irritantes fenmenos.
Assentado na cama, eu tentava decifrar por que o Senhor permitira que eles voltassem.
Minha concluso foi que, talvez, eu devesse ouvir por mim mesmo o que os demnios
sentiam a respeito de minha aceitao de Jesus como meu Senhor e Salvador.
        Ento vocs querem falar comigo. Tudo bem, falem.
        Por que voc se recusa a falar conosco?  perguntou um dos espritos, com uma
voz que parecia falar de vrios pontos diferentes do quarto.
        Encontrei um Mestre melhor.
        Por que voc desistiu de ns, quando tnhamos tanta riqueza reservada para
voc?
        Vocs j me enganaram por tantos anos que no sirvo mais para vocs.
        Nosso trato com voc tem sido correto desde o momento em que voc se
associou com aqueles que conhecem a verdadeira fonte de riqueza e poder  disse ele,
com uma voz que impunha respeito e autoridade.
       Percebi que estava falando com um conselheiro-chefe. O prprio ar parecia estar
carregado de energia e a presena dele era imponente. Compreendendo que eu no tinha
como enfrentar o poder dele, orei silenciosamente: "Senhor Jesus, ajuda-me, por favor!"
Uma passagem da Escritura veio  minha mente; uma passagem que o Pastor Taylor
havia me mostrado naquele mesmo dia: "Veio para o que era Seu, e os Seus no O
receberam. Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de
Deus, a saber, aos que creem no Seu Nome" (Joo 1:11,12). Imediatamente, tive certeza
de que Deus me faria sair vitorioso desse encontro. Uma grande calma tomou conta de

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mim. Somente mais tarde, compreendi o perigo de tentar dialogar com os espritos.
        Enquanto a conversa continuava, pude perceber que ele estava passando por
algum tipo de crise. Aparentemente, ele demonstrava isso. Na realidade, parecia que eu
estava detectando as ondas de desespero se apoderarem dele, pois, nesse momento, ele
percebia que estava desperdiando seus esforos na tentativa de reconquistar minha
lealdade.
         Oua com ateno  disse o esprito.  Estou falando a verdade. O mestre tem
grandes riquezas reservadas para voc, se to-somente voc parar de se associar com o
povo que ele odeia e parar de observar o sbado que ele detesta.
         Esprito, creio que voc est dizendo a verdade, mas eu no quero as suas
riquezas. Elas no so suficientes. Recebi uma oferta melhor por minha lealdade: todo o
ouro que eu quiser, e junto com o ouro vida ilimitada para desfrut-lo. Decidi entregar
minha vida a Jesus Cristo.
         Pare de mencionar esse nome!  o esprito "explodiu".  Eu preciso falar com
voc, mas no mencione este nome. Eu sou um conselheiro-chefe. Meus espritos
associados e eu j fizemos o trabalho de preparar o caminho para que o mestre pudesse
fazer chover riqueza sobre voc. Conseguimos trazer ao George a fama e a honra de que
ele  agora possuidor. E ns fizemos os arranjos para que vocs dois se encontrassem;
para que voc pudesse compreender os nossos maravilhosos planos para a sua vida. Eu
insisto com voc. No deixe passar esta oportunidade.
         Esprito,  disse eu  dez dias atrs eu poderia ter cado na sua conversa, mas
no hoje. Agora eu sou o que voc poderia chamar de um "ex-adorador de demnios
instrudo". Meu Mestre agora  Jesus e, com a ajuda dEle, guardarei os Seus
mandamentos e me unirei aos observadores do sbado que voc odeia. Voc me oferece
ouro se eu desistir da vida eterna. Pode esquecer. Eu posso esperar at  volta do Senhor.
E a terei todo o ouro que quiser na Nova Terra.
        Durante uns dois minutos, o silncio era quebrado apenas pelo tique-taque do meu
relgio-despertador. Evidentemente, o conselheiro-chefe havia se deparado com o
imprevisvel. Como um general vencido no campo de batalha, ele precisava de algum
tempo para arquitetar uma nova estratgia.
         Muito bem  ele disse, finalmente.  Voc est recusando a riqueza e a fama do
mestre. Portanto, a pobreza ser o quinho da sua vida; isto , se voc conseguir
permanecer vivo. De hoje em diante, voc vai andar debaixo da sombra da morte.
        Ouvi, ento, uma gargalhada, como jamais ouvi em minha vida. Ela transmitia um
intenso prazer na crueldade. Imediatamente, pensei que era do tipo da gargalhada de
Nero, quando os lees lanavam suas patas sobre as vtimas crists na arena romana. Um
calafrio subiu-me pelas costas e eu teria ficado provavelmente arrasado, no fora a
certeza da proteo de Deus.
         Esprito,  disse eu  quero que voc saiba que me entreguei aos cuidados do
Cristo do Calvrio e estou preparado para andar debaixo da sombra da morte enquanto
Ele estiver ao meu lado. Agora, em nome dEle, lhe ordeno que se retire de mim e no
volte mais.
        Enquanto ele saa, a porta que dava para a sacada de trs se abriu e bateu contra a
parede do quarto com tanta fora que a maaneta quase atravessou o reboco.




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                                    CAPTULO 2
                                   Minha Infncia


        Fui o quinto em uma famlia de oito filhos e nasci em 18 de abril de 1925, em St.
Jacques, New Brunswick, pequena cidade perto da divisa com a provncia de Quebec, leste
do Canad. Os meus pais eram devotos catlicos franceses. Da parte de meu pai, duas de
suas irms eram freiras e seu irmo mais jovem era padre, que mais tarde se tornou
monsenhor da Igreja Catlica Romana.
        Mesmo agora, no posso deixar de admirar a diligncia com que meus pais seguiam
os ensinos e as exigncias de sua Igreja. Tanto quanto eu possa me lembrar, orvamos
em famlia todos os dias. Lembro-me melhor do perodo de orao da tarde. O rosrio era
o momento principal do ritual, mas ns tambm repetamos a litania dos santos. A litania
consistia em invocar os nomes de uns cem santos, ou mais, para pedir que eles orassem
por ns. Como crianas, nossos joelhos ficavam doendo de tanto ajoelhar. Mas ramos
incentivados a oferecer o sofrimento a Deus que, por Sua vez, poderia us-lo para aliviar
alguma pobre alma do tormento das chamas do purgatrio.
        Nossa famlia, tambm, prestava-se a muitos tipos de humilhao do corpo com o
fim de receber o favor de Deus. Se algum fosse confessar e receber a comunho na
primeira sexta-feira de cada ms, voltava com a certeza de indulgncias que beneficiariam
alguma pobre alma com cinco mil dias a menos no purgatrio. Naquele tempo, isso
significava ficar sem alimento e sem gua desde a vspera, na noite anterior, at depois
da comunho, na manh seguinte. (A Igreja Catlica j alterou esse regulamento).
        Em determinadas pocas do ano, nossa famlia tambm tinha o costume de passar
uma noite inteira em viglia. Fazamos rodzio para que cada um de ns se ajoelhasse
durante uma hora diante de uma esttua para repetir o rosrio e outras rezas. A
Quaresma, antes da Pscoa, tambm era um perodo de intensa auto-mortificao. Meus
pais amavam a Deus e todas as suas atividades giravam em torno de Deus. Agradar a
Deus era o principal objetivo deles.
        Aos trs anos de idade, fiquei muito doente e os mdicos suspeitaram que eu no
ficaria bom. Na realidade, meu pai chegou a fazer arranjos para o meu funeral. Minha me
prometeu a Deus que, se eu ficasse bom, ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance
para que me tornasse um padre; pois, assim, eu viveria para glorificar o nome dEle e para
levar os outros a servi-Lo. Ela conta que eu comecei a melhorar imediatamente e minha
recuperao foi rpida e completa.
        Chegou o momento da minha primeira comunho. No entanto, quanto mais eu
memorizava o catecismo (os ensinos e mandamentos da Igreja Catlica), mais difcil me
era harmonizar os seus ensinos com o que eu conhecia do evangelho de Cristo. Antes do
sermo, no domingo, o padre lia um captulo de um dos quatro evangelhos ou de uma das
epstolas. Essa parte, eu apreciava muito.
        Certa vez, quando eu tinha sete anos de idade, estvamos voltando da igreja para a
casa num lindo dia de inverno. O sol brilhava e cerca de vinte trens puxados a cavalo
seguiam um ao outro. O barulho de todos aqueles sinos dos trens no permitia muita
conversa. Todos ns viajvamos em silncio. Foi quando eu quebrei tal silncio
perguntando a minha me por que Jesus foi to bom para as pessoas quando andou na
Terra e Se tornou to mau depois que subiu ao Cu?
         Por que voc faz essa pergunta?  indagou ela.


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         Por que um Deus bom queimaria as pessoas no purgatrio por centenas de anos,
s por causa de pequenas ofensas?  eu perguntei, novamente.  Certamente, Ele no
pratica o que ensinou. Voc e o papai praticam aquilo que nos ensinam e por que Ele no?
Vocs nos ensinam a perdoar as ofensas uns dos outros. Deus tambm deveria perdoar
completamente, no acha?
        Ao olhar bem para o rosto dela, pude perceber que esse raciocnio a deixou meio
confusa. Meu pai tentou socorr-la apelando para as autoridades superiores.
         Sabe, meu filho,  como o seu tio Flix, o padre, j disse: Deus odeia tanto o
pecado, que teve que associ-lo com uma pesada penalidade para ensinar as pessoas a se
apartarem dele (do pecado). Alm disso, o Santo Papa conhece outras boas razes para
que Deus use o purgatrio, e ns no devemos questionar a autoridade do Papa.
        Tambm aprendi e aceitei a doutrina da transubstanciao como qualquer outra
criana de minha idade; crendo que, na Eucaristia, o padre transformava o po e o vinho
no corpo e sangue de Cristo literalmente. Mas, no domingo de Pscoa de 1937, ano em
que minha me faleceu, ouvi algo que me levou a pensar de outra maneira.
        O padre lia em um dos evangelhos a respeito da ressurreio de Cristo. O que me
fascinava era o fato de que Jesus teve dificuldade em convencer os discpulos de que Ele
havia ressuscitado realmente; que Ele era um Ser real, de carne e ossos, e no um
esprito. Algumas perguntas interessantes surgiram em minha mente. Ser que o Cu
poderia ser um lugar real como a Terra, onde pessoas, de carne e osso, podem viver vidas
reais, em vez de serem espritos a flutuar nas nuvens? Por outro lado, se Jesus no  um
esprito, como pode fazer parte da hstia?
        Para algumas pessoas, pode ser difcil compreender como uma pequena criana
poderia perder sua f em Deus e se voltar contra a religio da maneira como eu fiz.
Talvez, eu consiga explicar, narrando alguns incidentes.
        Como juvenil, eu ficava profundamente impressionado com o que ouvia e via na
vida dos adultos. Nosso lar era um lugar de paz e alegria. Nossos pais nos deram um bom
exemplo de como as pessoas devem relacionar-se. Eles praticavam a bondade e a
considerao para com os outros e, com isso, esperavam que fssemos bondosos e
perdossemos as faltas de uns dos outros. Nossos pais estavam sempre ajudando aos
pobres e necessitados. Na minha maneira de ver, eu achava que Deus deveria ser, pelo
menos, bondoso e compassivo para com os seres humanos da mesma forma que Ele
esperava que ns fssemos uns para com os outros.
        Uma experincia em particular deixou minha mente muito perplexa. Naquele
tempo, as pessoas no usavam seus carros durante os meses do inverno e, s vezes, dava
muito trabalho fazer um automvel funcionar bem quando chegava a estao mais
quente.
        Meu pai resolveu trazer um mecnico que morava em Edmundston para vir passar
alguns dias conosco a fim de consertar o nosso carro. Antes de sair para ver o homem,
papai disse: "O homem  protestante, mas  um timo cidado e um excelente mecnico.
Agora, filhos, prestem ateno. Pode ser que, ao recitarmos a saudao anglica antes de
comearmos a almoar, ele no participe de nossas devoes. Por favor, no fiquem
olhando para ele e, acima de tudo, no faam perguntas embaraosas com relao 
religio dele. Entendido?" Enquanto falava, papai olhava diretamente para mim. Todos ns
respondemos em unssono: "Sim, senhor".
        Por trs dias, o homem trabalhou no carro, e eu gostava de ficar olhando. Ele era
tudo que o papai havia dito e muito mais. Era bondoso, parecia gostar de conversar
comigo e no usava vocabulrio profano.

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        Meu pai era o proprietrio e gerente de trs fazendas, e, naturalmente, tinha
muitos empregados. Muitas vezes, ao admitir um novo empregado, eu ouvia dizer:
"Amigo, sei que ns vamos nos entender muito bem. No  difcil me agradar. Mas quero
que voc nunca se esquea de uma coisa: minha esposa e eu no permitimos que as
pessoas que trabalham para ns blasfemem de Deus ou dos santos. Ns temos filhos que
estamos tentando criar para reverenciar a Deus. Portanto, cuide de suas palavras". Apesar
desse pedido, eles se esqueciam durante o trabalho e, por suas palavras profanas, "faziam
baixar todos os santos do cu" [expresso figurativa utilizada pelo autor].
        Mas o mecnico protestante, quando machucava o dedo ou esfolava a pele, apenas
dizia: "Ai! Como di!"
        Quanto  saudao anglica, descobri que o mecnico era mais reverente do que
ns. Quando papai dizia "Oremos", o mecnico inclinava a cabea, fechava os olhos e
juntava as mos. Ns nunca fechvamos os olhos e recitvamos a saudao o mais rpido
que podamos.
        Depois que o homem foi embora, algo me perturbava e eu no conseguia tirar da
cabea. Era uma frase que eu havia decorado do catecismo: "Hors de L'eglise Catholique
Apostolique et Romaine il n'y a point de salut". Traduzindo do francs, quer dizer: "Fora da
Igreja Catlica Apostlica Romana, no h salvao".
        Minha me percebeu que algo me preocupava, e procurou descobrir o que era.
         Mame, para onde vo os protestantes bons quando morrem?  perguntei.
         Esta  uma boa pergunta, filho. Por que voc pergunta?
        Repeti o que havia memorizado do catecismo. Ela admitiu que no sabia, e sugeriu
que perguntssemos ao meu tio, quando ele viesse nos visitar. Ela deve ter ficado
perturbada com minha pergunta, pois na hora do jantar contou ao papai e pediu a opinio
dele sobre o assunto.
        Ele no teve muito a dizer, mas comentou que achava que Deus no deixaria uma
boa pessoa fora do Cu, fosse ela catlica ou protestante. "Provavelmente", sugeriu ele,
"quando um protestante bom morre, os anjos o levam pela porta de trs". E disse mais:
         Os protestantes no tm a glria de receber as boas-vindas de So Pedro
pessoalmente, mas eles no devem se preocupar, contanto que consigam entrar. Eles no
devem esperar receber o tratamento reservado s celebridades. Afinal, os seus
antepassados cometeram um grave erro quando deixaram a Igreja Catlica, e todos os
seus descendentes podem esperar por sofrimentos como consequncia.
        Conclu que seu raciocnio devia estar provavelmente certo, mas aquelas solenes
palavras no saam de minha mente: "Fora da Igreja Catlica Apostlica Romana, no h
salvao".
        Alguns meses se passaram e, finalmente, ouvimos que o meu tio, o padre, estaria
visitando todos os parentes. Pedi que papai perguntasse ao tio Flix, quando houvesse
uma oportunidade, sobre o destino dos bons protestantes.
        Depois de todos terem conversado bastante, papai se virou para o meu tio e
perguntou:
         Flix, diga-me por favor, para onde vo os protestantes bons quando morrem?
         Por que voc pergunta?  respondeu ele.
        Papai, ento, explicou o meu questionamento  luz do que estava escrito no
catecismo.
         O que Roger mencionou do catecismo est correto  disse o tio Flix.  No h
salvao fora da Igreja Catlica, seja l quem for a pessoa.
        Sua afirmao abriu espao para um demorado debate sobre o assunto. Meu pai

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dizia que no seria justo da parte de Deus impedir a entrada de um bom protestante no
Cu. Enquanto isso, meu tio procurava esfriar o calor da discusso, sugerindo que, quando
um bom protestante morre, sua alma provavelmente vai para o limbo. Supe-se que este
seja o lugar para onde se dirigem as almas das crianas no batizadas, quando morrem.
Ento, tio Flix concluiu:
        Uma coisa, eu sei: de acordo com a Igreja, nenhum protestante, bom ou mau, ir
para o Cu, nem jamais ver a Deus. E lembrem-se, eu no fui o inventor das regras, eu
apenas as ensino. Se houvesse qualquer possibilidade de um protestante ir para o Cu,
nosso Santo Padre, o Papa, certamente nos teria dito.
       Essa experincia deixou gravado em minha mente um grande ponto de
interrogao sobre a justia de Deus.
       O tempo foi passando e, uns dois anos depois, a questo da justia de Deus veio
novamente  tona.
       Numa linda tarde de julho, algum passou em minha casa para contar aos meus
pais que um vizinho havia morrido de repente, enquanto trabalhava a oito quilmetros de
sua casa, aproximadamente. Uma afirmao chocou a todos os que estavam presentes:
"Ele morreu sem ter, ao seu lado, um sacerdote que lhe ministrasse o ltimo sacramento
da Igreja". Depois de dizer que o irmo do falecido estava trazendo o corpo para casa, o
homem saiu meneando a cabea e dizendo: " triste, triste, triste".
       Posso me lembrar desse incidente como se fosse ontem.
       No demorou muito, e ns vimos uma velha carruagem puxada a cavalos movendo-
se lentamente pela estrada. Um cobertor cobria o corpo, e o condutor estava sentado na
frente, com as pernas penduradas, e a face refletindo o seu desespero.
       Alguns vizinhos, que vieram  nossa casa para usar o nosso telefone (minha famlia
possua um dos dois nicos aparelhos telefnicos por muitos quilmetros ao redor),
estavam assentados conosco, na varanda da frente. Depois de o fretro ter passado pela
frente de nossa casa, minha me comentou:
        Se pelo menos ele tivesse um padre ao seu lado para lhe perdoar os pecados
mortais, no teria que ir para o fogo do inferno. Nossa esperana  que a alma dele tenha
somente pecados veniais [perdoveis]. S isso, no entanto, j representa muitos anos nas
chamas do purgatrio.
        Vamos ter que ajuntar dinheiro para mandar celebrar missas pela paz da alma
dele,  disse papai  pois penso que a esposa e os filhos no tero condies de fazer
isso.
       Um dos vizinhos tomou a palavra:
        Preciso dizer-lhe que pode guardar o seu dinheiro. Estou inclinado a pensar que
ele est, agora mesmo,  no fogo do inferno. Vejam, Senhor e Senhora Morneau, esse
homem era conhecido por ter os dedos pegadios. O que quero dizer  que ele, s vezes,
se apropriava de objetos que no eram dele.
        Essa acusao  grave  papai respondeu.  E a menos que o senhor tenha
provas, eu gostaria que no falasse mais nada.
        Sinto muito, mas o senhor se lembra de que no ano passado, mais ou menos
nesta mesma poca, o senhor no conseguiu encontrar uma corrente de puxar toras, que
havia comprado poucos dias antes? Se o senhor fosse ao galpo dele e procurasse em um
determinado lugar, encontraria a sua corrente. Eu a vi ali, poucos dias atrs. Cheguei at a
comentar com o falecido sobre isso. Ele disse que a tinha tomado emprestada do senhor,
mas que o senhor no sabia.
       Por alguns momentos, papai pareceu chocado. Mas logo recuperou a compostura e

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disse:
        Para mim, isto  uma revelao. Ouam todos! Quero que todos saibam que,
diante de Deus, estou dando ao falecido a corrente que ele tomou emprestada de mim,
mesmo que ele no tenha tido a inteno de me devolver. Alm disso, caso ele tenha
levado qualquer outra coisa de que eu no tenha conhecimento, tambm dou a ele. Desta
forma, a alma dele est livre de qualquer condenao que ele possa trazer sobre si
mesmo  vista de Deus.
        No quero ser irreverente para com Deus,  respondeu o vizinho  mas agora
estou achando que o senhor  muito mais bondoso do que Deus. Tenho de admitir que
esse  o gesto mais lindo que j vi ou de que j ouvi falar. Na verdade, o senhor deve ser
o primeiro ser humano a forar Deus a tirar uma alma do fogo do inferno e coloc-la no
purgatrio, at que esteja plenamente purificada para entrar no Cu.
       Esse episdio teve um grande impacto sobre mim. Por muitos dias, esse incidente
voltava  minha mente e, ao meditar sobre isso, eu concordava com o vizinho  meu pai
tinha um carter mais nobre do que o de Deus, a quem ele servia. Cheguei  concluso de
que Deus era demasiado injusto ao obrigar as almas a sofrerem no purgatrio quando
seus parentes no tivessem dinheiro para mandar celebrar missas.
       A experincia que mais contribuiu para que eu me voltasse completamente contra
Deus, porm, foi o falecimento de minha me. Na primavera de 1937, ela foi ao hospital
para ser submetida a uma cirurgia. Aps duas semanas, ela recebeu alta, mas para passar
seus ltimos dias em casa. Com apenas doze anos de idade, eu tinha a mente muito
impressionvel.
       Certo dia, ao chegar da escola, fui ao quarto dela para beij-la na testa, como fazia
todos os dias.
        Por favor, sente-se  disse ela.  Gostaria de dizer algo que  muito importante
para ns dois. Como voc sabe, no me resta muito tempo para viver junto de voc e
quero que voc se lembre deste pequeno conselho. Ao ir abrindo o seu caminho atravs
da vida, demonstre a sua apreciao pela bondade dos outros para com voc. Agradea
sempre, mesmo que seja apenas um copo de gua. As pessoas que expressam sua
apreciao por pequenos favores, recebem benefcios muito maiores.
       Naquele tempo era costume fazer o velrio em casa, em vez de numa capela
funerria. Por trs dias, os amigos, parentes e vizinhos vieram para prestar suas
homenagens e orar pela alma de minha me. No dia do sepultamento, muitas pessoas
pensaram que mame j estava no Cu, ao lado de Deus, devido aos muitos rosrios
[teros] que foram rezados em favor dela. Mas, o que mais bem nos fez, foi o fato de que
papai mandou celebrar missas gregorianas em favor da alma dela.
       Como o nosso tio Flix nos explicou, missas gregorianas devem ser a coisa mais
maravilhosa que pode acontecer para alma de um ente querido falecido. Ele disse que foi
o Papa Gregrio I quem as planejou, devido  especial preocupao que tinha para com
as almas no purgatrio. A famlia faz os preparativos para que se celebrem trezentas
missas simultaneamente em vrias parquias, conventos, mosteiros e em outros lugares,
no mesmo dia. De acordo com ele, essas missas tm um poder redentor suficiente para
levar uma alma diretamente para o Cu, sem passar pelas chamas do purgatrio.
       Naquele mesmo dia, ouvi um parente dizer que as missas gregorianas custavam um
dlar cada uma ou, em outras palavras, trezentos dlares por todo o plano. Na minha
mente, veio o pensamento de que ns ramos verdadeiramente privilegiados, porque o
meu pai tinha condies de ajudar minha me a ir para o Cu de uma maneira to bonita.
Foi ento que me lembrei de uma mulher de nossa parquia que havia morrido seis meses

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antes. A famlia era muito pobre para mandar celebrar qualquer missa e, por isso, ela teria
que sofrer no purgatrio. Os arranjos para o sepultamento dela tinham deixado meu pai
muito revoltado, pois ele era membro da comisso de servio social de nossa parquia.
        Naquela noite, j assentado  mesa para a ceia, ele decidiu ficar sem comer.
Detectando o seu mau humor, mame perguntou qual era o seu problema.
         Talvez seja mesmo melhor contar  disse ele.  Passei a melhor parte da tarde no
presbitrio da igreja, com outros membros da comisso, discutindo os problemas dos
pobres de nossa parquia. O principal item de interesse foi a compra de um caixo para a
idosa Annie. Eu no era contra a economia de despesas, mas quando o Padre Paquin
perguntou ao diretor da funerria quanto seria possvel economizar se retirssemos do
caixo o crucifixo e as alas antes do enterro, fiquei revoltado e tive vontade de dar ao
bom padre uma parte de meu vocabulrio. Entretanto, me contive por respeito ao seu
ofcio. Para colocar um ponto final  discusso, eu disse que pagaria a diferena. Coisas
desse tipo, de alguma forma me irritam.  triste.  triste ser pobre hoje em dia.
Especialmente quando chega a hora de morrer.
        Ao lembrar-me desses dois incidentes, eu no conseguia deixar de pensar que Deus
era tremendamente injusto ao permitir que a misria continuasse no mundo. Com o
passar do tempo, perdi a confiana em Deus e na Igreja, e resolvi que, to logo tivesse
idade suficiente para me manter, no teria nada a ver nem com Deus, nem com a Igreja.
No outono de 1937, meu irmo Edgar e eu, fomos colocados pelo meu pai num internato
administrado por freiras de L'Hotel Dieu, de St. Basile. A grande quantidade de instrues
religiosas que recebi nesse lugar serviram apenas para endurecer ainda mais o meu
corao. Pelas aparncias exteriores, ningum seria capaz de imaginar o que estava
acontecendo em minha mente. Passo a passo, afastei-me de Deus, com desgosto e dio.
Alguns anos se passaram, chegou a Segunda Guerra Mundial, e com ela o chamado para
servir a minha ptria.




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                                  CAPTULO 3
                             Viagem ao Sobrenatural


        Senti-me atrado pela Marinha Mercante Canadense porque um amigo meu havia
servido e me contara como havia gostado. Com a Marinha Real e a Fora Area Real para
nos dar proteo (os navios mercantes eram a linha de sustentao das foras armadas),
ns parecamos ter uma maior sensao de segurana.
        Durante dois anos e meio, trabalhei na sala das mquinas dos vrios navios aos
quais fui designado, trabalhando a maior parte do tempo como foguista [eram navios com
caldeiras a vapor]. Lembro-me bem de que, ao comear o meu turno, eu dizia para mim
mesmo: "Espero que nenhum torpedo acerte estas caldeiras enquanto eu estiver aqui".
Muitos homens que conheci pereceram no mar. Minha experincia na Marinha Mercante
serviu para endurecer-me ainda mais contra Deus e os homens.
        Terminada a guerra, era difcil encontrar ocupao em Montreal, porque milhares de
jovens que haviam recebido dispensa do servio militar fervilhavam pelas ruas da cidade
em busca de emprego. Decidi aprender um ofcio, algo que eu pudesse apreciar e que
envolvesse alguma criatividade. Eu no queria trabalhar s para o meu sustento. Por isso,
decidi gastar mais tempo procurando emprego, para ter certeza de que, ao optar por um,
eu ficaria realmente satisfeito.
        Enquanto isso, para me manter ocupado, aceitei um trabalho no 'Windsor Bowling'
[clube de boliche], na Rua St. Catherine West. Naquela poca, era um dos melhores
lugares de Montreal para esse tipo de diverso. Eu era auxiliar do gerente do salo de
bilhar. O trabalho no era duro, eu ficava conhecendo muita gente, e era um bom
passatempo.
        No estava nesse trabalho por muito tempo, quando entrou um velho amigo que
havia servido comigo no incio de minha experincia na Marinha Mercante. Felizes em
saber que ns dois ainda estvamos vivos, jantamos juntos naquela noite e conversamos
sobre muitas coisas.
        Um assunto sobre o qual meu amigo Roland falava com muito entusiasmo era o seu
novo interesse pelo sobrenatural. Contou-me de quo contente estava por ter conhecido
um grupo de pessoas que se comunicava com os os mortos. O mdium esprita havia
colocado Roland em contato com seu pai, falecido quando ele tinha apenas dez anos de
idade. O esprito de seu pai j lhe havia dado muitos conselhos concernentes ao futuro.
        Embora fosse interessante ouvir as experincias de Roland com o sobrenatural,
aquilo me parecia misterioso. No demorou muito e ele perguntou se eu estaria
interessado em assistir a uma dessas sesses.
         Pode ser que o mdium esprita consiga fazer com que voc fale com o esprito
de sua falecida me. Voc gostaria disso, no ?
        O entusiasmo dele diminuiu, quando ele percebeu que eu estava to agitado que
nem podia responder. Aps alguns segundos de silncio, ele continuou:
         Voc no teria medo de falar com a alma de sua falecida me, teria?
        De alguma forma, consegui responder que no, mas gostaria de ter um pouco mais
de tempo para pensar, pois jamais havia cogitado sobre isso.
        Ele me olhou direto nos olhos e disse:
         Morneau, voc est com medo, eu sei s pelo jeito do seu olhar. Est escrito no
seu rosto. Puxa, voc mudou muito desde a ltima vez que o vi. O Roger Morneau que eu


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conheci no tinha medo de nada. Lembro-me do tempo em que voc e eu, e outro seis
novatos, ramos marinheiros e o primeiro-oficial aproximou-se de ns, dizendo que
precisava de um voluntrio para subir ao topo do mastro principal do navio, no dia
seguinte, para pintar a parte mais alta. "Qual de vocs vai subir?", perguntou ele. "No 
muito alto, tem apenas 22 metros. Mas, a pessoa que subir, necessitar de muita calma
quando estiver l em cima. Vai ter que sair da tbua em que se sentou enquanto era iado
com uma corda, e deitar de barriga sobre o topo do mastro [que tinha 60 centmetros de
largura] para poder pintar a parte de trs". Estvamos todos morrendo de medo de subir,
e ficamos aliviados quando voc disse ao primeiro-oficial que subiria. Falar em coragem,
companheiro, era com voc. Agora, no me diga que vai ficar fora dessa, de vir comigo 
nossa prxima sesso, vai?
       Depois de um discurso como esse, eu no poderia recusar. De repente, eu tinha
que manter aquela imagem de que Roger Morneau no tinha medo de nada. Estava
fisgado.
       Foi assim que, certo sbado, ao anoitecer, me encontrei com Roland em uma casa
em que um mdium visitante seria o hspede de honra. Fomos apresentados a alguns dos
presentes, e nos sentimos honrados ao sermos apresentados a um casal muito distinto. O
homem era um profissional de espetculos, lder de uma banda de 'jazz' que estava
fazendo grande sucesso. Sua banda tocava nos mais elegantes clubes noturnos.
       Terminada a sesso, algumas das visitas se preparavam para sair, quando o lder da
banda virou-se para sua esposa e disse:
        Querida, o que voc acha de irmos embora? J est ficando tarde.
       A esposa estava, nesse momento, conversando com o mdium. Ela o achou muito
interessante.
        George, por que voc no vai para casa primeiro, a fim de descansar? 
respondeu ela  Quero ficar aqui mais um pouco, e depois pego uma carona com os
Belanger [outra famlia].
       Ele concordou com a ideia e saiu da casa exatamente no momento em que Roland
e eu estvamos saindo. J do lado de fora, George aproximou-se de ns e perguntou:
        Companheiros, vocs tm carro?
        No,  disse eu  ns vamos pegar o bonde, a duas quadras daqui.
        Ser um prazer dar-lhes uma carona. Entrem.
       Durante a sesso daquela noite, Roland e eu dissemos, em nossas conversas
informais, que havamos servido na Marinha Mercante durante a guerra. O mdium
evocou o (suposto) esprito de um dos companheiros de trabalho de Roland, que morrera
quando o navio deles afundou.
       Ao entrarmos no carro de George, ele comeou a fazer perguntas a respeito dos
perigos do nosso trabalho durante a guerra. Mas no demorou quase nada e j estvamos
em nosso endereo. Ele fez, ento, uma sugesto:
        Que tal irmos a um restaurante para comermos alguma coisa? Vocs poderiam,
ao mesmo tempo, contar mais um pouco das suas aventuras durante a guerra. Isto me
fascina. As despesas correm por minha conta e depois lhes dou uma carona at s suas
casas.
       George nos levou  Rua St. Catherine West, parte da cidade de Montreal conhecida
por seus restaurantes de alto nvel. De repente, ele manobrou seu 'Lincoln Deluxe' atravs
de uma via estreita que dava nos fundos de um de seus restaurantes prediletos, e o
estacionou atrs de um 'Cadillac' preto, dizendo:
        Joe est aqui. Ele  o proprietrio, e uma tima pessoa.

16
        Ao entrarmos, uma recepcionista informou que teramos de aguardar na sala de
espera at que uma mesa se tornasse disponvel. Enquanto nos dirigamos para l, Joe
avistou George de longe e veio para cumpriment-lo.
        Informado de que estvamos aguardando uma mesa, Joe disse que no era
necessrio. Poucos minutos antes, algum havia telefonado para cancelar uma reserva. A
mesa era nossa. Ele nos conduziu at ela, retirou o sinal de "reservado" e nos fez tomar
os nossos assentos.
        Uma garonete aproximou-se e tomou nossos pedidos de bebidas. Ela disse que
poderamos ter que esperar um pouco mais do que o normal pela nossa comida, pois o
lugar estava superlotado. George pediu uma dose dupla de sua bebida alcolica favorita
para passar o tempo. Ento, respondemos s suas perguntas com respeito  Marinha
Mercante, e falamos de nosso interesse e de nossas atividades relacionadas ao
sobrenatural.
        Nossa comida demorou para chegar, e pedimos mais uma rodada de bebidas.
George ficou tagarela e se ps a contar muitas coisas que, sob circunstncias normais,
no teria contado. Por exemplo, perguntei se ele se importava de nos falar um pouco
sobre como havia alcanado tanta fama em sua profisso.
         Com muito prazer  disse ele. Na verdade, vou contar-lhes o real e verdadeiro
motivo do meu sucesso, algo que nem minha esposa sabe. Mas vocs tm que prometer
que guardaro isto em segredo absoluto.
        Garantimos que tudo o que ele mencionasse seria mantido em sigilo.
         Vocs sabem alguma coisa a respeito do culto aos demnios?
         Eu no  respondi.  Por que voc quer saber?
        Sem dar resposta  minha pergunta, ele indagou:
         H quanto tempo vocs esto envolvidos com a feitiaria?
         George, eu no sei em que ponto voc est querendo chegar. O que voc est
tentando dizer?
         O que quero dizer : h quanto tempo vocs esto pretendendo entrar em
comunicao com os mortos?
         Quanto a mim, faz pouco tempo  respondi.
         Vejo que vocs dois tm muito a aprender com respeito ao sobrenatural. Vocs
esto perdendo tempo em irem a essas sesses espritas. No me entendam mal, essas
sesses tm seu lugar. So um bom passatempo para as mulheres, no sentido de que elas
se sentem confortadas ao pensarem que esto recebendo orientao para suas vidas
atravs de alguma pessoa amada falecida. Vejam bem, hoje eu fui  sesso s para fazer
minha mulher feliz. Vou com ela umas duas vezes por ano para faz-la sentir que me
preocupo com os seus interesses. Essa  a nica razo. O que ela no sabe  que eu
aprendi a ir  prpria fonte desse poder, onde uma pessoa pode encontrar a ao real 
isto , adorao aos demnios.
        De tudo o que ele nos disse, uma frase ficou gravada em minha mente.
         George, voc poderia esclarecer a pergunta que nos fez, poucos momentos atrs:
"H quanto tempo vocs esto pretendendo entrar em comunicao com os mortos?" O
que quis dizer com o verbo "pretender"?
        Ele sorriu, olhou para o seu relgio e disse:
          muito tarde para explicar isso hoje, mas deixem-me dizer o seguinte: vocs no
tm mantido conversa com os mortos.
        E voltou a falar de seu sucesso pessoal.
         Vejam bem, por muitos anos, eu parecia ser um fracasso, tentando organizar e

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manter a minha prpria banda de 'jazz'. Ento, tive a sorte de conhecer o culto aos
demnios e, atravs desse grande poder, tenho obtido tudo o que sempre desejei.  claro
que tive que aprender a fazer certos rituais antes que os espritos comeassem a trabalhar
em meu favor.
       Seu rosto se iluminou com um grande sorriso.
        Daquele dia em diante, o sucesso foi instantneo para mim e para minha banda.
O reconhecimento veio da noite para o dia. Sem nenhum esforo de nossa parte, ns
fomos descobertos (apesar de termos estado ali o tempo todo) e aclamados como uma
das grandes bandas em nosso gnero musical. Por alguma razo, todos os reprteres
ficaram entusiasmados conosco. Ns nos tornamos o assunto da cidade. As mais
importantes personalidades do mundo do rdio comentavam a nosso respeito e, em pouco
tempo, ns alcanamos o topo.
       George tomou mais um gole de seu copo, puxou mais uma tragada de seu cigarro e
continuou:
        Ns temos estado em constante demanda desde ento. O dinheiro s vai
entrando. Nossos preos so os mais altos na indstria fonogrfica. As pessoas gostam de
danar ao som da nossa msica. Na realidade, os espritos tomam conta de ns; em
outras palavras, eles se apossam de ns e nos do energia, e ns repassamos essa
influncia para o pblico. Eles gostam do que recebem e sempre voltam para buscar mais
da mesma coisa.
       Reclinando-se e acendendo mais um cigarro, ele comeou a rir e disse:
        Vocs vo gostar desta. H um ms, fui entrevistado num programa de rdio e
me diverti muito. Seis das mais altas personalidades do mundo do rdio de Montreal e de
Toronto, conversavam comigo. Tudo o que eu dizia parecia fascin-los. At eu ficava
admirado com as minhas respostas improvisadas. Eu nunca havia sido to sagaz. Gostei
muito da ateno que me deram. Quase chegou a um estado de adorao. E mais,
estavam o tempo todo tentando me decifrar. E quando nos despedimos, ainda no haviam
conseguido.
       Olhando mais uma vez para o relgio, ele disse:
        Companheiros, est ficando muito tarde. Que tal irmos para casa?
       Enquanto esperava pela conta, George comentou:
        Esse meu sucesso  fcil de entender, uma vez que a pessoa compreenda o
enorme poder dos espritos e o processo envolvido em fazer com que esse poder funcione
em favor de si mesmo.
       Admirados com tudo o que ele nos contou, Roland e eu, pedimos que ele nos
contasse mais a caminho de casa.
        Sinto-me at na obrigao de lhes contar minha experincia, pois acredito que
vocs esto procurando alguma coisa mais poderosa para o benefcio de suas vidas. E sei
que no iro encontrar isso frequentando sesses espritas, como a que viram nesta noite.
Ou, expressando-me de outra forma: por que vocs iriam querer jogar em times
inexpressivos quando poderiam estar nos melhores e maiores times?
       Meu amigo pediu, ento, que ele nos dissesse como entrar nos grandes times do
mundo dos espritos.
        Vocs dois so jovens muito corajosos  disse George  e j fizeram muito pela
nossa ptria. Agora, vou fazer algo grande por vocs. Farei os arranjos para que ambos
possam assistir ao nosso prximo culto aos espritos.
       George, ento, deu uma olhada para um lado e depois para o outro, meio indeciso,
e finalmente disse:

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         S quero ter certeza de uma coisa. Presumo que vocs no tm nenhuma
reverncia por Cristo, estou certo? S estou perguntando porque nesse culto no pode
haver ningum leal ao Deus cristo. Isso poderia ser desastroso.
        Ns lhe asseguramos que j havamos blasfemado de Deus e que j havamos
ultrapassado o ponto de retorno.
         Percebi isso, esta noite,  ele continuou  quando os espritos evocados pareciam
favorecer a vocs dois acima das demais pessoas ali presentes. Espero que minha
pergunta no tenha ofendido vocs. Tive que perguntar para ter dupla certeza de que est
tudo bem com vocs.
        Embora eu estivesse um pouco relutante em assistir a uma reunio de adoradores
de demnios, meu amigo Roland no manifestou nenhuma hesitao em faz-lo. Ele
raciocinava que, j que amos para o inferno, para sermos queimados por toda a
eternidade, poderamos pelo menos ir familiarizando-nos com o pessoal antes de
chegarmos l.
        Achei que George nunca mais faria contato conosco, pois estava bbado quando fez
o convite; e na manh seguinte, provavelmente, no se lembraria da metade do que tinha
falado na noite anterior. Mas, passados alguns dias, ambos recebemos telefonemas
instruindo-nos a estarmos prontos para as oito da noite, quando ele passaria para nos
levar.
        Essa noite inesquecvel comeou com George nos ensinando os muitos detalhes da
sociedade secreta que ele pertencia. Ele no era um motorista rpido e parecia relutante
em ultrapassar os bondes em movimento. Fizemos, provavelmente, mais de cem paradas
antes de chegarmos ao nosso destino, e isso nos deu bastante tempo para conversar.
        George disse que no deveramos ficar surpresos se encontrssemos algumas das
pessoas mais ricas e influentes de Montreal, e mencionou pelo menos uma meia dzia dos
nomes mais notveis. Isso me surpreendeu, pois j imaginava encontrar alguns tipos de
aparncia rude. Pelo contrrio, porm, todos eram muito gentis, vestiam-se
impecavelmente e tinham personalidade muito agradvel. Eles nos fizeram sentir como se
nos conhecessem por muito tempo e como se j fssemos parte do grupo.
        A reunio comeou quinze minutos aps a nossa chegada. Foi bastante informal. As
pessoas passaram duas horas contando as fantsticas realizaes que haviam conseguido
atravs da ao dos espritos, especialmente transaes comerciais que haviam resultado
em grandes lucros pessoais, como consequncia de suas habilidades em usar a
clarividncia e a telepatia mental (com a ajuda dos espritos) para influenciar as pessoas
em suas decises.
        Um homem contou como, pelo uso da astrologia e da adivinhao, ele havia se
tornado conselheiro de vrias pessoas ricas em seus investimentos, e estava, por sua vez,
tornando-se rico tambm. Ele explicou como um esprito demonaco pairava ao lado dele
durante cada consulta e lhe dava informaes precisas  audveis a ele, mas no aos
clientes  sobre como e quando investir.
         Essas pessoas ricas tm o capital para investir,  disse ele  e eu tenho o 'know-
how' [experincia] para ajud-las a multiplicar os seus rendimentos.
        Muito impressionado, meu amigo Roland perguntou a este homem se ele no tinha
medo de ser roubado nas transaes. Ento, ele disse:
         Eu dou conselhos e recebo uma porcentagem do lucro da transao. Como voc
bem sabe, a astrologia funciona apenas como uma fachada. Eu no me preocupo. Meu
esprito familiar me protege. Deixem-me ilustrar: um casal tentou privar-me da
porcentagem combinada em uma rentvel transao imobiliria-industrial. Eles me deram

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um cheque que representava uma vultosa quantia e eu fiquei satisfeito, at que o meu
esprito familiar mandou que lhes perguntasse onde estavam os 1700 dlares adicionais
que faziam parte da minha correta comisso naquele investimento. A esposa desmaiou e o
esposo ficou aterrorizado. Rapidamente, ele explicou que eles no tinham nenhuma
inteno de me enganar e que o restante do dinheiro estaria em minhas mos dentro de
24 horas.
        Aps cada histria de sucesso, a pessoa sempre louvava ou dava crdito a um
esprito especfico, citando o seu nome e, muitas vezes, se referia ao esprito como senhor
de sua vida.
        Durante o tempo em que estive envolvido com os adoradores de demnios,
observei que, ao testemunharem de como os espritos lhes favoreciam, eles
frequentemente se referiam ao esprito como "senhor deus". Por exemplo, algum dizia:
"Foi maravilhoso ver o poder do senhor deus Belzebu manifestar-se em meu favor no dia
tal". Ou algum perguntava: "Fulano, como tem passado desde a ltima vez que o vi?" A
resposta seria: "Muito bem, obrigado, os deuses tm realmente beneficiado a minha vida
de maneiras maravilhosas".
        Naquela noite, algum me impressionou muito. Ele era mdico, e explicou como os
espritos lhe haviam dado grandes poderes de curar e hipnotizar, incluindo a habilidade de
tirar a dor e estancar a hemorragia em feridas e cortes profundos.
        Aps contar algumas fascinantes histrias de cura de pacientes seus, ele afirmou
que precisava descer  sala de culto. Disse ele: "Com licena, meus amigos, preciso fazer
atos de devoo a fim de ser revigorado pelo senhor deus Nehustan. Dependo de seu
poder vivificador para reviver e curar meus pacientes".
        Uma hora aps o incio da reunio, chegou algum atrasado. Vrias pessoas o
cumprimentaram, referindo-se a ele como 'Charmer' [encantador]. J tarde, naquela
noite, ao voltarmos para casa, perguntei ao George:
         O que voc tem a dizer sobre aquele cavalheiro de boa aparncia? Alguns
chamaram-no de 'Charmer'. Esse nome tem algum significado especial?
         Sim, o nome tem um significado especial, mas no posso falar-lhes nada sobre
ele agora. Depois que vocs tiverem frequentado vrias de nossas reunies, faam-me
lembrar e lhes falarei sobre ele.  uma pessoa fascinante. Na verdade, ns acreditamos
que ele  o maior 'charmer', ou hipnotizador, que j andou pelas ruas de Montreal. A
propsito, companheiros, fiquei contente em ver como vocs foram bem aceitos por todos
nesta noite. Isso me fez sentir bem. Entendam, somos um grupo muito unido. Na
realidade, no foi fcil obter permisso para traz-los comigo a esta reunio. De incio,
esse privilgio me foi negado. Mas, atravs da ao de um esprito conselheiro, que
apareceu ao nosso lder, que estava de frias nos EUA, recebi um telefonema dando a
autorizao. Ento, abriu-se o caminho para que vocs pudessem associar-se conosco e
tornar-se, eventualmente, membros de nossa sociedade. Futuramente, falarei mais sobre
isso.
        Senti-me um tanto desconcertado quando ouvi George assumindo que me tornaria
um deles. Roland, no entanto, estava encantado com a coisa toda.
         Aps algumas visitas,  disse George  vocs podero descer e ver a nossa sala
de culto. Creio que vocs ficaro bastante impressionados. S no ser possvel vocs
entrarem na sala de adorao aos deuses, porque  necessrio que o sacerdote satanista
esteja presente, e isto s depois de receber a permisso dos espritos.
        Essa reunio ocorreu em uma casa particular, uma luxuosa residncia de Montreal.
Enquanto andvamos pelo andar principal, podamos escutar, vindo do andar de baixo,

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sons muito semelhantes aos da msica religiosa e dos cnticos usados pelo povo da ndia.
Vez por outra, algumas pessoas iam ao andar de baixo e, aps uns trinta minutos,
retornavam. Toda essa atividade fez com que George se inclinasse para mim, enquanto
estvamos sentados no sof, para dizer em voz baixa: "Nossa sala de culto fica no andar
de baixo. Falarei mais sobre isso ainda esta noite, depois que formos embora".
        Umas seis semanas depois de termos conhecido o homem chamado 'Charmer',
perguntei certa noite, ao voltarmos para casa, se George poderia falar-nos mais a respeito
dele. Ento, ele disse:
         Claro, vocs precisam ouvir mais a respeito dessa fascinante pessoa. Mas,
primeiro, quero que vocs lembrem que ns somos, de um modo geral, um grupo de
cidados leais s leis. No conheo um de ns que no tiraria a sua camisa para ajudar o
prximo. E ns, realmente, nunca tiramos vantagem das pessoas com os poderes que os
espritos nos tm passado. Mas, no caso do 'Charmer', bem, ele  um pouco diferente de
todos ns. Aparentemente, ele tem uma fraqueza de carter e, por causa disso, usou o
seu poder hipntico ou o seu dom, de uma maneira indevida. Eu diria que ele perdeu o
senso de direo por algum tempo. Ele  um homem de negcios muito capaz.  dono de
dois clubes noturnos, e tem tido muito sucesso. Como j disse, ele  um poderoso
hipnotizador. Ele pode colocar uma pessoa sob o seu encantamento, ou transe hipntico,
em menos de dez segundos, se esta pessoa concordar em olhar diretamente para os seus
olhos. Sendo dono de dois clubes noturnos, ele tem muito contato com pessoas que
trabalham nos meios artsticos. Os conjuntos e grupos trabalham, em sua maioria, por um
contrato mdio de quatro a seis semanas, e depois seguem para outra rea. Ficamos
sabendo que alguns grupos estavam se desintegrando ou perdendo um de seus membros
depois de se haverem apresentado em um de seus clubes. E o artista desistente, era
sempre do sexo feminino. H uns seis meses, o 'Esquadro Anti-Vcios' da Polcia de
Montreal fez uma 'blitz' numa casa de prostituio de alto luxo. Todas as moas que l
estavam, eram artistas de grupos e conjuntos que haviam se apresentado nos clubes dele.
Vejam, essas moas jamais teriam entrado nessa situao se no tivessem concordado
com em deixar que algum as hipnotizasse. Quem faz isso, nunca poder, da em diante,
resistir ao hipnotizador.




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                                 CAPTULO 4
                        A Sala de Adorao aos Deuses


       Quando Roland e eu fizemos nossa terceira visita  assembleia de adoradores de
demnios, George nos informou que o sacerdote satanista estaria presente, tendo
recentemente retornado de uma viagem aos EUA. Ele estava bastante confiante de que o
sacerdote nos olharia com simpatia e que, sem dvida, nos permitiria o acesso  sala de
adorao aos deuses.
       Ao entrarmos, fomos apresentados a algumas pessoas que ainda no conhecamos,
e logo comeamos a conversar com os que vieram desejar-nos uma boa noite. Pouco
depois, o sacerdote entrou. Apertando as mos das pessoas e dirigindo-lhes algumas
palavras, ele veio se aproximando de ns. Quando chegou at ns, George disse:
        Reverendo, gostaria que conhecesse estes dois finos cavalheiros.
       Conversamos com ele por uns momentos, e ele nos surpreendeu com algumas
coisas que disse. Por exemplo, quando George comentou que ns tnhamos servido na
Marinha Mercante, o sacerdote mencionou os nomes dos navios em que estivramos, bem
como alguns detalhes dos quais ningum tinha conhecimento. Tenho que admitir que isto
nos impressionou bastante. Ele, ento, pediu licena e disse que gostaria de ter uma
breve conversa conosco em algum outro momento durante aquela noite.
       No s as suas palavras, mas tambm a sua prpria presena, refletiam um ar
secreto e misterioso. Seu olhar era penetrante, sua cabea calva e, ao falar, sua voz grave
e profunda se fazia acompanhar por um pequeno sorriso. Sua estatura, por si s, era
imponente. Eu diria que era a mesma do General Charles de Gaulle [militar renomado e
ex-presidente da Frana, que tinha uma estatura elevada].
       Depois de uma demorada sesso de testemunhos aos deuses, o sacerdote
novamente se juntou a ns, numa conversa agradvel. Ele disse que os espritos lhe
haviam dado muitas informaes a nosso respeito e tinham manifestado o desejo de
beneficiar a nossa vida e de conceder-nos grandes ddivas.
       Quando a maioria das pessoas j havia sado, ele nos convidou para visitarmos a
sala de adorao aos deuses.
       Para se compreender melhor quo perturbadoras e quase chocantes seriam para
mim as revelaes que logo iria receber, devo descrever as imagens mentais que a minha
criao catlica havia incutido em minha mente a respeito do diabo e de seus anjos
cados. Em minha infncia, os adultos me haviam ensinado que o diabo e seus anjos esto
no fogo do inferno, no centro da Terra, cuidando da infindvel tarefa de impor vrios tipos
de tortura s almas daqueles que morreram em estado de pecado mortal. Os adultos
descreviam os demnios para ns, crianas, como um tipo de criatura, meio animal, tendo
chifres, cascos e cuspindo fogo. Ao entrar em minha adolescncia, conclu que essa coisa
toda era ridcula, e que provavelmente era inveno de alguma mente muito frtil, que
durante os sculos passados quis se aproveitar dos supersticiosos e ignorantes.
Posteriormente, questionei a prpria existncia do diabo e seus anjos.
       Descemos as escadas com o sacerdote, que parecia estar se deleitando em nos
mostrar o seu santurio. Enquanto amos andando, ele ia nos contando como um esprito
havia desenhado o projeto e a arquitetura do local.
       Ele apontou para os complexos detalhes de delicada beleza ao longo da escadaria.
Posso lembrar-me ainda hoje dos entalhes que ornavam o seu macio balastre, das


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esplndidas decoraes nas paredes e do enorme candelabro sobre o primeiro patamar.
        O espaoso santurio me encheu de admirao. Um ar de segredo e mistrio
enchia o local, dando a impresso de que uma grande influncia tinha trabalhado ali para
fascinar a mente humana, a fim de que esta respondesse em reverncia e submisso, sem
fazer perguntas.
        As salas eram luxuosas e magnficas. Havia ouro por toda parte. As lmpadas e
muitos outros objetos eram laminados ou enfeitados com esse metal. O sacerdote disse
que alguns dos objetos eram de ouro macio. Embora o lugar no estivesse intensamente
iluminado, os objetos de ouro pareciam brilhar com grande resplendor.
        Creio que foi a abundncia de lindas pinturas a leo que mais prenderam a minha
ateno. Cerca de 75 pinturas de 120 por 80 centmetros estavam penduradas nas
paredes. O sacerdote satanista disse que, se tivssemos perguntas, ele ficaria feliz em
poder respond-las.
         Quem so as pessoas de nobre aparncia retratadas nessas pinturas? 
perguntei.
         So os deuses dos quais vocs ouviram falar durante as sesses de testemunho.
Como conselheiros-chefes, eles tm domnio sobre legies de espritos. Depois que eles se
materializaram para que ns pudssemos fotograf-los, ns mandamos fazer estas
pinturas. Por serem merecedores das maiores honras, ns colocamos embaixo de cada
pintura um pequeno altar para que as pessoas possam, em suas devoes, acender velas,
queimar incenso e cumprir os rituais solicitados pelos espritos.
        Ao andarmos um pouco mais, chegamos a um altar no qual estava uma vara com
uma serpente de bronze enrolada ao seu redor. O sacerdote mencionou que o altar era
dedicado ao deus Nehustan, cujo poder o mdico, que ns ouvimos em nossa primeira
visita, tinha utilizado de maneira maravilhosa. Comentou a respeito dos grandes milagres
que o deus de bronze efetuou para os filhos de Israel, quando eles queimaram incenso
diante da serpente de bronze feita por Moiss sculos antes (ver Nmeros 21:4-9; II Reis
18:4; Joo 3:14).
        No extremo da sala havia um grande altar, acima do qual havia uma pintura, em
tamanho real, de um indivduo de aparncia majestosa.  pergunta de meu amigo, o
sacerdote respondeu:
         Este altar  dedicado ao mestre de todos ns.
         Como se chama ele?  perguntei.
        O seu rosto se revestiu de uma expresso de orgulho.
         "Deus conosco".
        Hoje, ao me lembrar dessa pintura e de como a admirei muitas vezes, devo dizer
que o indivduo ali pintado tinha feies que denotavam um intelecto superior. Tinha a
testa alta, o olhar penetrante, e uma postura que dava a impresso de que fosse uma
pessoa de ao e de grande dignidade.
        Eu no esperava por essa resposta do sacerdote e ela no foi realmente clara.
Certamente, ele no podia estar se referindo a Jesus Cristo. No, no podia estar. Mas,
ser que estava... ?
         Quer dizer que este  o verdadeiro retrato de Satans?  consegui perguntar,
afinal.
         Sim, . E voc, provavelmente, deve estar se perguntando: onde foram parar
suas medonhas e animalescas caractersticas?  Ele riu e acrescentou:  Perdoe-me por
rir, mas, acredite, no estou rindo de voc neste estado mental desconcertado. Na
realidade, acho divertido perceber que os espritos de demnios conseguiram ser to

23
habilidosos em esconderem a sua verdadeira identidade que, mesmo nesta poca de
avano cientfico e grande cultura, a grande maioria dos cristos ainda acredita na teoria
dos chifres e cascos.
        Ento, sua expresso facial mudou e passou a refletir um ar de profunda
preocupao ao dizer:
         Hoje  solenissimamente importante que as geraes vindouras sejam levadas a
crer que o mestre e seus espritos associados no existem. Somente desta maneira
podero governar com xito os habitantes deste planeta nas dcadas que esto pela
frente.
        Seu rosto tomou uma expresso de confiana.
         Nada  mais importante para os espritos do que desenvolver formas de
transformar os seres humanos em membros do reino vindouro de Satans.
        Enquanto olhvamos os vrios altares e pinturas, o sumo sacerdote explicou que os
espritos de demnios so, na realidade, especialistas em vrias reas de atividade. Tendo
sua experincia medida em milnios, eles esto engajados em uma luta feroz pelo
controle da mente dos homens, uma luta contra as foras de cima.
        Quando Roland perguntou por que os espritos estavam gastando tanto tempo para
enganar a humanidade, o sacerdote respondeu que cada um que eles conseguissem levar
a se desqualificar para ser um membro do reino de Cristo, automaticamente se tornava
um membro do reino de Satans, a ser estabelecido em breve aqui na Terra. Aqueles que
desceram  sepultura sob a liderana de Satans, seriam um dia restaurados  vida por
ele. Cristo e Seus seguidores, continuou ele, elaboraram um plano para dar fim ao grande
conflito entre as duas foras, fazendo chover fogo do cu sobre os seguidores de Satans,
mas isto no lhes faria dano, porque os espritos demonacos j podem, agora, dominar o
fogo, de maneira que o fogo no tem poder para queimar os seres humanos. E
acrescentou que, caso eu duvidasse do que ele estava dizendo, eu poderia ir  ndia, ou
outras reas do mundo em que a magia negra houvesse evoludo para transformar-se em
uma cincia, e eu poderia ver pessoas andando sobre brasas vivas sem queimar um nico
fio do pelo de suas pernas.
        Ao sairmos da sala de culto, mencionei que estava um tanto confuso a respeito de
Satans e seus anjos. Com minha criao catlica, eu havia aprendido que Satans e seus
anjos estavam no fogo do inferno com as almas daqueles que haviam morrido no estado
de pecado mortal. Onde estava a verdade?
        O sacerdote satanista concordou em dedicar tempo para nos dar o que ele chamou
de "uma viso real das coisas":
         Senhores, entendo que a visita  nossa sala de culto suscitou algumas
interrogaes na mente de vocs. Primeiramente, deixem-me dizer-lhes que ns,
membros de nossa sociedade secreta, aqui em Montreal, somos a elite dos adoradores de
espritos. Quando a luta entre as foras de cima e as do nosso grande mestre chegar ao
fim, e ele permanentemente estabelecer o seu reino aqui na Terra, receberemos elevadas
posies de autoridade e honra. Seremos ricamente recompensados por termos tomado
partido do lado que agora parece ser o mais fraco  entendem o que estou dizendo?
        [Sacerdote]. H muitos milnios, o nosso grande mestre tinha jurisdio sobre
inumerveis hostes de seres em um vasto Universo. Mas, sendo mal-interpretado, ele foi
forado a fugir do seu domnio, juntamente com outros espritos que simpatizaram com
ele. Os habitantes deste planeta o receberam bondosamente. Como resultado de seu
superior intelecto, ele se tornou o proprietrio legal do planeta, ao levar os proprietrios
originais a cederem seus direitos quando creram que alguma coisa que ele lhes disse era

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realmente verdade. Alguns podem chamar isso de engano, mas ele estava simplesmente
seguindo a lei da auto-sobrevivncia, um instinto natural em todos os grandes lderes.
        [Sacerdote]. Quando ficaram sabendo que o seu rival  Cristo  viria ao mundo
aps assumir a natureza humana, de forma a atrair a humanidade para Si mesmo, o nosso
mestre e seus conselheiros-chefes decidiram seguir uma estratgia semelhante  que
originalmente os capacitou a tomarem posse deste seu novo domnio.
        [Sacerdote]. Este plano de ao requereria que todos os espritos de demnios
cuidadosamente aconselhassem os humanos a viverem de tal maneira que se
desqualificariam para se tornarem membros do reino de Cristo. Os espritos estimulariam
as pessoas a darem mais ateno aos seus sentimentos do que  Palavra de Cristo e Seus
profetas. No poderia haver melhor maneira de os espritos assumirem o controle da vida
das pessoas, sem que estas percebessem o que estava ocorrendo. Os espritos sugeririam
todos os tipos de doutrinas e ideias errneas e a humanidade as aceitaria prontamente
por ter um forte sentimento com relao a elas.
        O sumo sacerdote, com o rosto radiante de fascinao pelo que acabara de nos
contar, pediu permisso para tomar mais uns pouco minutos de nosso tempo para ilustrar
o que tinha dito. Quando reafirmamos nosso profundo interesse e desejo de saber mais a
respeito das atividades dos espritos, ele continuou:
         Se os cavalheiros se recordam, Salomo, rei de Israel, foi dotado com grande
sabedoria e atraiu a ateno de um grande nmero de poderosos governantes [ver I Reis
4:29-34]. Ao mesmo tempo, o nosso grande mestre ficou preocupado em ver Salomo
recebendo toda essa ateno e decidiu fazer um esforo supremo para controlar o mundo
inteiro. At esse ponto, o nosso mestre havia conseguido estabelecer a idolatria em todas
as partes de Israel. Foi, ento, decidido que certos conselheiros-chefes levariam Salomo
a sentir orgulho de si mesmo. Em segundo lugar, eles o levariam a sentir-se fortemente
impressionado, em nome dos melhores interesses da nao, a estabelecer alianas com as
naes ao seu redor, embora muitos de seus conselheiros tivessem insistido para que ele
no as fizesse. O plano do nosso mestre tornou-se um enorme sucesso. Quando chegou o
dia em que, pelo exemplo de Salomo, o povo de Israel adorou a Astarote, deusa dos
sidnios; Camos [ou Quemos], deus dos moabitas; e Milcom, deus dos filhos de Amom
[ver I Reis 11:33]  quando o povo se prostrou diante de dolos que representavam
espritos de demnios  o nosso grande mestre sentiu que o seu triunfo foi completo. Seu
grande objetivo fora alcanado. Na realidade, o mundo inteiro estava sob seu comando.
        [Sacerdote]. Cavalheiros, creio que a essa altura vocs j perceberam a grande
sabedoria e destreza do nosso mestre em ocultar a sua verdadeira identidade. Assegura
aos seus dedicados agentes que a sua diligncia ser um dia recompensada, quando eles
virem as geraes da Terra de p diante deles em humilde obedincia, reconhecendo que
o seu mestre  realmente um grande deus. O grande mestre no deixa nada ao lu da
sorte. Com planos bem amadurecidos e grande cuidado, ele coloca as suas armadilhas a
fim de cativar a mente de milhes dos mais sbios mortais, obtendo assim a lealdade
destes na vida presente e por toda a eternidade.
        Vibrando de entusiasmo pela causa de Satans, o homem continuou a contar-nos a
respeito do que ele chama de "a mais respeitvel assembleia de espritos j reunidos em
um nico lugar na face deste planeta":
         No incio do sculo dezoito, Satans e seus espritos-conselheiros realizaram um
grande conclio geral de preparo para a revoluo industrial que logo chegaria ao mundo.
Satans previu que essa revoluo seria imediatamente seguida de uma era de
descobertas cientficas e de iluminao intelectual. Introduziria tambm os tempos do fim,

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e o encerramento do conflito entre as foras do bem e do mal. Sendo que Satans
estivera a estudar as profecias da Bblia, ele entendeu o significado de Daniel 12:4, que
descreve o tempo do fim, como "muitos correro de uma parte a outra, e a cincia se
multiplicar". Percebeu que esse seria o tempo ideal para separar os seres humanos de
seu Criador, desta forma levando multides  perdio. Esse momento oferecia a melhor
maneira de expandir o seu reino vindouro to extensamente que restariam poucas
pessoas para deixarem este planeta quando Cristo as viesse buscar, no final da era crist.
        Fazendo uma pausa, o sacerdote gabou-se de que Cristo, na realidade, no voltaria
 Terra em poder e glria, mas renunciaria a todas as Suas reivindicaes ao planeta,
reconhecendo que este, de direito, e legalmente, pertence a Satans.
         Ento, o grande mestre ressuscitar nosso povo de suas sepulturas, estabelecer
aqui o seu reino eterno. Aps demoradas deliberaes  disse ele, voltando ao assunto do
conclio geral de Satans  o conclio terminou, tendo produzido planos para estratgias
que desqualificariam grandes multides para o reino de Cristo. Estes, automaticamente, se
tornariam parte do reino de Satans. O comit executivo adotou um plano de trs partes.
A primeira parte seria convencer os seres humanos de que Satans e seus anjos, na
realidade, no existem. A segunda parte procuraria obter controle total sobre as pessoas
pela introduo do hipnotismo como uma cincia nova e benfica. Homens de grande
cultura  explicou o sacerdote  perpetuariam, sob a direo de espritos amigos, a
doutrina da imortalidade da alma, levando pessoas sob seu encanto hipntico a fazerem
uma suposta regresso temporal a suas vidas passadas. Esses indivduos fariam, ento,
vvidas descries de eventos histricos desconhecidos para eles, a no ser sob o encanto
hipntico. Para dar ainda mais poder  iluso,  continuou o sacerdote esprita  algumas
vezes os espritos fariam com que a pessoa hipnotizada falasse fluentemente alguma
lngua estrangeira da qual no tivesse nenhum conhecimento prvio. Isto ajudaria Satans
a descristianizar o mundo ocidental, atravs da avenida do misticismo. A terceira parte do
plano de Satans seria destruir a Bblia sem, na realidade, dar fim a ela. Satans
expulsaria a crena em Deus da mente de milhes de pessoas atravs da teoria da
evoluo.
        O sacerdote afirmou que Satans havia selecionado indivduos de grande intelecto
para levar avante o seu plano.
         Ele escolheu um mdico austraco, chamado Franz Mesmer, para transformar o
hipnotismo, de um brinquedo do oculto em uma nova cincia. Mesmer deu origem  teoria
chamada "magnetismo animal" [mais tarde chamada de "Mesmerismo"]. Os espritos o
levaram a crer que um misterioso fluido penetra o corpo humano, permitindo que certas
pessoas tenham uma poderosa influncia sobre outras. Por ocasio de sua morte em
1815, o hipnotismo, como forma de anestesia, j havia comeado a adquirir uma certa
aura de respeitabilidade entre muitos mdicos europeus. Eles descobriram que a sua
prtica mdica parecia mais eficaz do que nunca antes.
        Fazendo uma pausa, com um grande sorriso no rosto, o sacerdote satanista
continuou:
         Eles nem faziam ideia de que, na realidade, estavam sendo energizados pelos
espritos amigos. O plano de Satans, de destruir a Bblia sem, na realidade, acabar com
ela,  a coisa mais sagaz da qual j ouvi falar  ele riu.  Charles Darwin, nascido em
1809, e Thomas Huxley, nascido em 1825, foram ambos submetidos  influncia dos
espritos quando ainda eram bem jovens, pois os mdicos usaram o hipnotismo como
anestsico. Os espritos decidiram que, quando os dois meninos se tornassem adultos,
seriam os instrumentos para levar avante a religio que ns conhecemos como a teoria de

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evoluo. Vinculando essa teoria  revoluo cientfica, que estava se espalhando por todo
o mundo, a maioria das pessoas nem a reconheceram como uma religio  uma religio
que atravessou todas as fronteiras denominacionais e arrebanhou at os no-religiosos.
        Para minha admirao e surpresa, o sacerdote afirmou ento que "os espritos
consideram qualquer um que ensine a teoria da evoluo como sendo um ministro
daquele grande sistema religioso, e que tal indivduo receber uma uno especial do
prprio Satans. Ele lhe dar grande poder para induzir  cegueira espiritual, convencer e
converter. Na realidade, ele tem essas pessoas em to elevada estima que ele nomeia
uma comitiva especial de anjos para acompanh-las pelo resto da vida. Esta  a maior
honra que Satans pode dar a uma pessoa perante a galxia".
        O sacerdote explicou que Satans e seus conselheiros chegaram  concluso de
que poderiam usar a teoria da evoluo para destruir o prprio alicerce da Bblia.
         Poderiam coloc-la contra a semana da criao, a queda do homem e o plano da
redeno. O que estava em jogo aqui era de to grande vulto que, o prprio Satans,
colocou-se como tutor de Charles Darwin na montagem dos princpios de seus conceitos
cientficos.
        Com evidente orgulho, o sacerdote explicou como os espritos podem tomar uma
pessoa aparentemente sem nenhuma importncia e elev-la a posies de honra e
respeito. O nome dessa pessoa pode tornar-se at imortal.
         Um bom exemplo  Thomas Henry Huxley que, at a interveno dos espritos,
era apenas um cirurgio na Marinha Britnica. Os espritos o capacitaram a tornar-se
famoso como zologo, conferencista e escritor. Ele operou maravilhas em tornar a teoria
de Darwin aceitvel ao pblico, mesmo introduzindo a ideia de que o homem  um
descendente do macaco. Tendo sido um sacerdote catlico,  o nosso guia concluiu 
posso dizer que  impossvel que algum creia na semana da criao, queda e plano da
redeno, e seja ao mesmo tempo um adepto do evolucionismo. Uma to grande mistura
de ideias tem que ser a maior forma de blasfmia ao Criador.
        (A propsito, devo mencionar que esta sociedade de espritas nunca se referia a
Deus por este nome, mas sempre O chamava de Criador. Somente Satans e seus anjos
eram tratados como deuses).
        A essa altura, algo me perturbava.
         Como pode algum considerar a teoria da evoluo como uma doutrina religiosa?
 perguntei.  Todos sabem que  apenas uma teoria, algo que se assume por parecer ser
a melhor forma de explicar como a vida aparentemente surgiu na Terra.
        Os olhos do sacerdote brilhavam com novo entusiasmo, ao responder:
         Uma doutrina religiosa  qualquer coisa que aproxime algum para mais perto de
seu deus. Pode ser um conceito, uma atividade, ou at alguma coisa aparentemente no
relacionada com religio. Mas, se serve para promover os ideais de Satans, o grande
deus deste mundo, ento  uma doutrina religiosa no mais completo significado da
palavra. Na realidade, eu recebi esta definio diretamente de um esprito conselheiro.
        Depois de ter aceitado Jesus como meu Salvador, comecei a estudar a Bblia para
ver como a crena na teoria da evoluo poderia desqualificar uma pessoa para o reino de
Deus. Comecei a entender como isto era possvel ao considerar as palavras de Jesus com
respeito  blasfmia contra o Esprito Santo (ver Mateus 12:31-32).
        Veja bem, quando algum declara que no pode mais acreditar na criao de Deus,
que no pode mais levar a srio o conceito da queda da raa humana, e que os seres
humanos no passam de animais altamente evoludos, esse indivduo est, de uma forma
muito real, acusando o Esprito Santo de ser um esprito mentiroso. Considerando que a

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Bblia foi escrita sob a inspirao direta do Esprito Santo, esse indivduo est dizendo que
o Esprito Santo no  digno de confiana.
        Depois de termos conversado mais um pouco com o lder esprita, ele nos
perguntou:
         Vocs tm mais alguma pergunta que gostariam de fosse respondida?
        Enquanto estivramos a observar as pinturas, eu havia notado que o altar de
Satans parecia ser de mrmore macio, medindo aproximadamente 2,80 metros de
comprimento por 80 centmetros de largura.
         O altar do mestre parece ser um bloco macio  eu observei.  Como colocaram
um objeto to pesado aqui embaixo?
        O sacerdote sorriu.
         Voc  um bom observador, Sr. Morneau. Ou, poderia ser que o mestre imprimiu
esta observao na sua mente para que ele lhe pudesse revelar o grande poder dele? E,
por falar nisso, meus jovens, um dos espritos conselheiros me disse que o mestre tem um
propsito muito especial para a vida de vocs dois. Deixem-me, ento, falar-lhes a
respeito do poder dos espritos. Mas, primeiro, vocs se importam se eu acender meu
charuto?
        Estvamos, nesse momento, sentados nos sofs perto de uma janela panormica,
que nos dava uma linda vista da cidade banhada em um mar de luz. Tive a impresso de
que o sacerdote tinha imenso prazer de falar do maior interesse de sua vida  as
atividades dos espritos demonacos. E ns tnhamos todo o tempo para ouvir. Disse ele:
         O altar do mestre foi colocado em sua atual localizao atravs do mesmo poder
que os sacerdotes druidas usaram para erguer as enormes esttuas de Stonehenge  o
poder dos espritos ou, em outras palavras, o processo de levitao. Os espritos me
revelaram as grandes realizaes dos sacerdotes druidas, entre os antigos celtas na
Frana, Inglaterra e Irlanda, h mais de 28 sculos. Foi-me mostrado que ao meio-dia e 
meia-noite, na fase da lua cheia, os druidas levitavam blocos de rochas pesando at 28
toneladas, e os colocavam em sua exata posio, na construo de seus lugares de
adorao.
        Fumou umas duas tragadas de seu charuto, inclinou-se para trs e continuou:
         J conhecedor de suas realizaes, senti que poderia ter o mesmo privilgio para
exercer e usufruir. Por isso, notifiquei minha gente com respeito s minhas intenes de
dar ao mestre um sinal de nossa afeio na forma de um lindo altar. Eles acharam que, se
eu tinha f para crer que os espritos o colocariam no seu lugar designado, eles se
responsabilizariam pelo custo e pelo transporte at a entrada dos fundos do nosso lugar
de culto. Sem hesitao, mandei encomendar um altar feito de mrmore branco de
'Carrara'. Nada  demais quando  para o mestre.
        [Sacerdote]. Sei por experincia que o poder dos espritos no tem limite, quando
se trata de trabalhar em favor daqueles que creem na palavra do mestre. Minha f foi
grandemente recompensada quando, durante o nosso servio devocional da meia-noite,
eles levitaram o altar de mrmore at o seu presente lugar.
        [Sacerdote]. Casualmente, cavalheiros, os senhores foram grandemente honrados
nesta noite, embora no tenham percebido. Enquanto estvamos perto do altar do
mestre, contemplando aquela linda pintura que , na realidade, apenas uma sombra de
sua beleza e glria, o mestre apareceu e permaneceu de p, junto ao extremo do altar,
durante uns trs minutos, e prestou ateno  nossa conversa. Foi por isso que sugeri que
nos ajoelhssemos daquela forma. Como pude perceber, o consentimento de vocs ao
meu pedido trouxe grande alegria ao corao do mestre.

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       [Sacerdote]. Talvez seja do interesse de vocs saberem que no temos sentido a
presena do mestre em nosso meio j por quase trs meses, como resultado do fato de
que a Organizao das Naes Unidas tem estado a elaborar planos de paz. Isto tem
requerido a total ateno do mestre, pois  um trabalho que ele no ousa delegar a
ningum mais. Paz na Terra no est nos melhores interesses de seu reino. Por isso, ele
tem a gigantesca tarefa de delegar s legies de agentes espirituais aquilo que eles
necessitam fazer para confundir e manter os sentimentos pessoais agitados entre os
lderes da humanidade. Os problemas que esses espritos causarem mantero esses
lderes sempre ocupados com a busca de solues, de tal forma que nunca encontrem
tempo de se reunirem.
       De tudo que eu havia ouvido, um ponto se destacava: a afirmao de que o quadro
da pintura de Satans era uma vaga expresso de sua beleza e glria. Decidi trazer o
assunto  tona mais uma vez. Usando a terminologia que julguei apropriada para a
ocasio, perguntei:
        Reverendo, poderia esclarecer, por favor, alguma coisa que o senhor disse h
pouco? No estou seguro de haver captado muito bem.
       Reiterei o que era e aguardei a resposta. Disse ele:
        Sim, amigos, a pintura do mestre no passa de uma plida revelao dele.
Quando um esprito se materializa, geralmente esconde a beleza e glria de seu estado
natural de existncia. Se um esprito se fizesse visvel a ns aqui, agora, sem nos proteger
de seu brilho, ns no poderamos olhar para ele sem lesar os nossos olhos. Por exemplo,
durante minha ltima viagem aos EUA, um conselheiro-chefe me apareceu no quarto do
hotel, em Chicago. Ele veio com a mensagem urgente de que a pessoa que eu havia
deixado encarregada aqui, estava para estragar todo o trabalho que os espritos haviam
feito para que vocs entrassem em contato com a nossa sociedade. Eu lhes falo mais
sobre isso num futuro prximo. De qualquer forma, o brilho dele ofuscava tanto que eu
no podia olhar para ele. Depois de dar-me alguns conselhos, ele saiu. Mas o impacto
daquela luz foi to grande que eu fiquei parcialmente cego por cerca de trinta minutos.
Alguns minutos depois, tentei fazer uma ligao pelo telefone, mas, como no conseguia
achar os nmeros no aparelho, tive que pedir auxlio da telefonista.
       Conversamos um pouco mais com o sacerdote e ele nos deu muitas outras
informaes a respeito da adorao aos demnios. Ento, naquela noite, antes de
sairmos, ele nos fez jurar que guardaramos em segredo tudo o que havamos visto e
ouvido.
       O sumo sacerdote recitou, ento, um encantamento, que ns amos repetindo aps
ele e, para selarmos o nosso pacto, depositamos um pouco de p de incenso lentamente
sobre a chama da vela preta, fazendo com que ela queimasse intensamente, enchendo a
sala com um agradvel aroma.
       Aps voltar para a minha residncia, descobri que era impossvel dormir naquela
noite, pois no conseguia parar de pensar na visita  sala de culto. Era difcil assimilar a
ideia de que Satans e seus anjos realmente existem e so seres lindos  e no criaturas
medonhas. Pela minha criao catlica, minha mente havia sido desviada da realidade a
tal ponto que era difcil aceitar a nova ideia. Foram necessrios dois meses de
manifestaes sobrenaturais para que eu aceitasse os anjos cados pelo que so  seres
lindos e extremamente inteligentes.




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                                  CAPTULO 5
                                Espritos em Ao


        Cerca de duas ou trs semanas depois da visita  sala de adorao, tive mais uma
oportunidade de discutir acerca de Satans e seus anjos com o sumo sacerdote. Quando
mencionei que eu pensara encontrar pessoas de aparncia rude, ele caiu em risos.
         Os adoradores de espritos, bem como os membros de qualquer sociedade,
variam muito. Frequentemente, refletem a cultura local. Ao viajar, voc poder notar que,
onde  maior o ndice de analfabetismo, a superstio prevalece. Essas pessoas faro uso
das mais degradantes formas de culto. Em tais casos, os espritos se deleitam em induzir
as pessoas a agirem assim porque sabem que isto entristece o seu grande rival, Cristo 
que disse que atrairia todos os homens a Si. Mas, inmeras vezes atravs dos sculos, os
espritos tm demonstrado que Ele estava errado. Milhes e milhes j desceram 
sepultura sem jamais terem ouvido falar de Seu nome e, menos ainda, crido nEle.
        Enquanto falava, o sacerdote satanista levantou-se de sua cadeira e comeou a
andar pela sala. Com as mos para trs, cruzadas, ele olhava para o cho e, vez por
outra, olhava para mim.
         Quanto a ns, aqui em Montreal, estamos, por assim dizer, no extremo mais
brilhante desse espectro. A natureza nos dotou de faculdades mentais muito superiores s
da maioria que vive nesta rea.  por isso que o mestre tem at se desviado de sua rotina
para nos mostrar a realidade das coisas no mundo dos espritos. Ele tem um trabalho
especial para cada um de ns... e pare de olhar para mim como se no acreditasse no que
estou lhe dizendo!
        Sem dvida, o meu rosto deve ter aparentado o meu choque com o que ele havia
dito at ali.
         Por favor, perdoe-me se de alguma forma eu o ofendi  eu disse.  Acredito no
que me falou, mas ainda tenho muito a aprender a respeito da vontade do mestre. Tudo o
que j presenciei aqui na sua casa de culto  muito novo e diferente daquilo em que fui
criado.
         No quis maltrat-lo, acredite  respondeu ele.  E voc no me ofendeu.  que,
s vezes, eu levo as coisas, provavelmente, de uma maneira muito sria. Mas eu no
estava me gabando quando falei a respeito da nossa gente aqui em Montreal. Foi o mestre
que me explicou tudo aquilo pessoalmente.
        A essa altura, ele voltou  cadeira de sua escrivaninha, assentou-se, acendeu um
charuto e comeou a fumar. Ento, continuou:
         Quanto a voc e seu amigo Roland, foi-me mostrado, h um ano, que eu os
encontraria aqui em nossa casa de culto, mas eu j havia me esquecido. Como j contei a
vocs, eu estava num hotel, em Chicago, quando um conselheiro-chefe me apareceu, me
deu informaes a respeito de vocs e me orientou a telefonar com urgncia para a
pessoa que eu havia deixado encarregada durante a minha ausncia. Ele j estava por
arruinar todo o trabalho que os espritos haviam feito para colocar vocs em contato
conosco. Telefonei para o homem imediatamente e, antes que eu tivesse a chance de
dizer qualquer coisa, ele contou como George havia pedido permisso para trazer voc e
seu amigo a uma sesso de louvor, e como ele lhe havia negado esse privilgio.  claro
que transmiti a ele os desejos do conselheiro-chefe. Em seguida, fiz uma ligao a George
para dizer que seria um prazer ter vocs conosco. Como pode ver, o mestre tem grande


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apreciao por cada um de ns. Por isso, pare de se subestimar.
        Ao voltar para casa naquela noite, passei mais uma noite quase sem dormir. A
conversa com o sacerdote no parava de passar pela minha mente.
        Certa noite, meu amigo Roland teve que trabalhar algumas horas extras e no teve
tempo de me telefonar antes de eu sair para a reunio. No bonde, enquanto ele ia para
casa, teve a ideia de que, se ele fosse direto para a reunio, no chegaria muito atrasado.
Decidiu fazer uma conexo na esquina da Rua St. Catherine com o Boulevard St. Laurent,
e dali fazer uma ligao telefnica para mim na casa de culto. Mas ele havia esquecido em
casa o nmero do telefone. Se pelo menos pudesse se lembrar do endereo, poderia pedir
o auxlio da telefonista. Tirou do bolso uma caderneta e uma caneta, mas, por mais que
se esforasse, no conseguia visualizar o nmero do edifcio que ele j havia visto tantas
vezes. Qual no foi sua surpresa quando, ao murmurar para si mesmo, dizendo: "Gostaria
que os espritos me ajudassem", uma fora invisvel moveu a caneta em sua mo,
escrevendo no s o nmero do prdio, mas tambm o nome da rua em linda caligrafia.
        Ele ficou deleitado com essa faanha, at que a telefonista informou que o nmero
no constava na lista telefnica.
        Ao mesmo tempo, George e eu estvamos nos perguntando o que teria acontecido
ao nosso amigo. Ento, George teve uma ideia:
         Vamos pedir que Gerard, o vidente, localize Roland.
        Aps algumas palavras de encantamento, Gerard, fechando os olhos e colocando os
dedos na sua fonte, disse:
         Vejo Roland, que acaba de entrar na loja de charutos 'United', na esquina da Rua
St. Catherine com o Boulevard St. Laurent. Agora, ele est falando com a telefonista. Ele
quer o nosso nmero, mas foi informado de que no consta na lista. Com a ajuda do meu
esprito familiar, vou transmitir a ele um pensamento. Ah! Ele j recebeu. George, ele est
ligando. Fique perto para atender, pois ele vai pedir para falar com voc.
        George dirigiu-se para o aparelho do outro lado da sala. Logo que tocou, algum
atendeu e disse que a ligao era para George.
        Quando Roland chegou, estava deleitado com sua experincia com os espritos.
Mostrou-nos aquele pedao de papel com a linda escrita e disse:
         Vou coloc-lo num quadro. Nunca vi uma caligrafia mais linda.
        Ento, virando-se para o sacerdote, perguntou:
         Por que o esprito no me deu o nmero do telefone junto com o endereo?
         Voc no pediu  respondeu ele.  Faa-se de acordo com a sua f. A experincia
que voc teve esta noite  um brinquedo de criana em comparao com aquilo que os
deuses tm em mente para vocs dois. Mas vocs tm que exercer f nos espritos e
esperar grandes coisas deles. Vocs precisam  testemunhar, algumas vezes, o poder e a
inteligncia dos espritos em ao e, assim, creio que podero exercer uma quantidade de
f suficiente para que eles possam ajud-los de maneiras mais grandiosas.
        Talvez duas ou trs semanas depois, quando Roland e eu entramos naquela linda
casa, o sacerdote satanista nos cumprimentou e acrescentou:
         Nesta noite, vocs testemunharo uma das mais interessantes sesses. Um
antigo conhecido meu est visitando a cidade. Ele  um preeminente professor de
Histria, historiador no mais completo sentido do termo, e tem se associado com algumas
das mais destacadas universidades francesas. Seu conhecimento de fascinantes detalhes
da Histria tem feito com que ele se sobressaia em sua rea. Ou, diria melhor, os espritos
o tm tornado grande. Eles lhe tm fornecido muitos fatos desconhecidos da Histria.
Nesta noite, atravs de um mdium, sero revelados muitos detalhes das campanhas

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militares de Napoleo Bonaparte. Neste momento, o professor est fazendo suas devoes
na sala de culto. Enquanto isso, deixem-me dizer o que vai acontecer.
        Acomodando-nos, ouvimos com ateno a explicao do sacerdote sobre o que
deveria ser uma "sesso muito interessante":
         Um mdium em transe permite que um esprito entre em seu corpo, tomando
total controle de suas faculdades fsicas e mentais, e, torna-se assim, um meio para que o
esprito se comunique com os seres humanos. No passado, cerca de seis a doze espritos
entravam no corpo do mdium em transe, em ocasies diferentes. Um esprito pode
conhecer os detalhes de alguns pontos da Histria, mas pode carecer de informaes de
outros aspectos. Um outro, que estava presente e envolvido com os acontecimentos de
um momento especfico, pode, ento, tomar o lugar do primeiro. Os espritos so to
precisos que podem reproduzir no apenas as palavras, mas as tonalidades e qualidades
da voz da pessoa que eles estiverem citando.
        Alguns momentos depois, o sacerdote satanista saiu para verificar se seu amigo j
havia concludo suas devoes. No demorou muito e voltou para anunciar que todos os
interessados em testemunhar a sesso deveriam dirigir-se  sala de culto.
        O sacerdote apresentou o historiador visitante  assembleia e pediu que seis
voluntrios viessem  frente. Os espritos escolheriam um deles para servir como o seu
canal de comunicao para aquela noite. Os seis indivduos se colocaram em p diante do
sacerdote. Este, por sua vez, invocou os deuses para que manifestassem seus grandes
poderes a ns, fazendo com que os espritos que haviam dirigido e dado assistncia a
Napoleo Bonaparte em suas campanhas militares revelassem os detalhes solicitados pelo
historiador visitante. Enquanto o sacerdote fazia um pequeno ritual, um esprito entrou no
corpo de um dos homens e comeou a falar. A voz tinha um sotaque de francs parisiense
e uma tonalidade que comandava ateno.
        O esprito nos informou que ele era um conselheiro-chefe especializado em
assuntos militares, com jurisdio sobre legies de espritos. Considerando que o assunto
era muito complexo, ele ia precisar de mais dois dos cinco homens restantes para
servirem de canais para os espritos.
        Os dois homens tremeram um pouco, seus olhos se fecharam e os espritos
sugeriram que fossem chamados de Remi e Alphonse. Os olhos do homem possesso pelo
conselheiro-chefe permaneceram abertos, mas no se mexeram; e suas plpebras no
piscaram durante uns 45 minutos.
        O sacerdote virou-se para o historiador e disse: "Os deuses esto honrando os seus
pedidos". O visitante levantou-se com prancheta e caneta nas mos. Primeiro, ele elogiou
os espritos, reconhecendo que, no passado, eles lhe haviam dado informaes que o
ajudaram a tornar-se um dos maiores em seu campo de conhecimento. Por alguns
minutos, ele conversou com os espritos, dirigindo-se a eles como Sr. Remi, Sr. Alphonse e
Sr. Conselheiro. Ento, ele fez pergunta aps pergunta, e as respostas vinham sem
hesitao.
        A certa altura, a entrevista referiu-se a uma conversa que houve entre Napoleo e
um de seus comandantes. O conselheiro-chefe afirmou que seria prefervel que Remi e
Alphonse reproduzissem o dilogo ocorrido entre os dois homens, com o fim de serem
mais precisos. As vozes mudaram por completo, como se duas pessoas distintas
estivessem falando.
        Virando-me para George, eu disse:
         Isso  fantstico!
        Com um sorriso, George respondeu:

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         Se voc acha isso impressionante, espere at que voc possa ouvir os espritos
reproduzindo as vozes de pessoas que voc conheceu e sabe que esto mortas h muito
tempo. Isso, sim, mexe com a cabea de qualquer um!
        O historiador, aps ter obtido respostas para todas as suas perguntas acerca das
proezas militares de Napoleo Bonaparte, disse ao conselheiro-chefe que necessitava de
informao adicional sobre um discurso pronunciado pelo Prefeito Camillien Houde sobre
as escadas que do acesso ao Pao Municipal de Montreal, pouco antes do Canad entrar
na Segunda Guerra Mundial.
        O conselheiro-chefe comentou que ele e seus auxiliares no poderiam ajud-lo, pois
todas as suas atividades haviam sido realizadas na Europa. Mas, logo que sassem, um
outro conselheiro-chefe tomaria o seu lugar e forneceria toda a informao que ele
desejasse solicitar.
        Os corpos dos dois ltimos homens escolhidos como mdiuns tremeram, seus olhos
se abriram e, em suas prprias vozes, perguntaram por quanto tempo haviam sido parte
das comunicaes dos espritos. Quanto ao homem que havia sido ocupado pelo
conselheiro-chefe, o seu corpo tremeu um pouco, seus olhos se fecharam e abriram de
novo, e um outro esprito disse:
          um prazer dar-lhe assistncia na revelao do desconhecido. Eu estava
presente quando o Prefeito Camillien Houde fez o seu discurso contra o servio militar
compulsrio dos franco-canadenses nas foras armadas. O que gostaria de saber?
        O historiador reiterou sua apreciao ao conselheiro-chefe pela contnua liderana
dos espritos em sua vida.
         Devido ao fato de que no havia ningum presente que pudesse taquigrafar o
discurso, circulam hoje vrias verses. O nobre conselheiro tem algum modo de esclarecer
o assunto para ns?
         Tenho prazer de dar uma reproduo, palavra por palavra, do discurso do Sr.
Houde.
        Seguiu-se, ento, algo que me deixou maravilhado alm de minha capacidade de
explicar. Eu nem podia acreditar. Ali estava uma voz que ouvira pelo rdio, provavelmente,
centenas de vezes atravs dos anos. Camillien Houde era um poltico veemente e
controvertido. Ele nunca hesitava em dar a sua opinio a respeito de algum ou de
alguma coisa.
        No final da dcada de 1930, Camillien era assunto quente para os meios noticiosos
de lngua francesa. Suas atividades, como prefeito de Montreal, constantemente se
transformavam em notcias. As estaes de rdio gravavam seus discursos e comentrios,
e os transmitiam repetidas vezes, de forma que era fcil reconhecer sua voz. E, agora, eu
estava ouvindo aquela voz familiar, mas desta vez reproduzida atravs da agncia de um
esprito demonaco. Ns o ouvimos por uns vinte minutos.
        H algum tempo, contei essa experincia para algum, e esta pessoa me disse que
poderia ter sido o esprito, ou a alma do falecido Camillien que estivesse fazendo o
discurso. Naquela ocasio, porm, Camillien estava vivo e com sade. Ele no morreu
seno em 12 de setembro de 1958 [cerda de doze anos depois]. Como disse o esprito
demonaco, era uma reproduo da voz e das palavras do Sr. Houde.
        Naquela noite, enquanto nos levava para casa, George mencionou sua crena de
quando uma pessoa morre, ela morre. E, quando as pessoas afirmam manter
comunicao com os espritos dos mortos, na realidade, so os espritos demonacos que
esto personificando os seus entes queridos falecidos.
        Naquela ocasio, achei essa informao interessante, mas no voltei a dar-lhe

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muita considerao. George no quis ampliar o assunto, e sugeriu que ns pedssemos
que o sacerdote nos desse mais explicaes quando houvesse uma oportunidade.
        Aconteceu que, na noite do domingo seguinte, ns discutimos esse assunto com o
sacerdote. Ele deu a Roland e a mim um interessante relato de como os espritos
demonacos personificam os mortos, e disse que via nisso uma ilustrao da astcia deles
com o fim de desencaminhar os seres humanos. Tive a impresso de que o homem sentia
grande deleite e satisfao em relatar exemplos especficos de como os espritos j haviam
enganados grandes lderes.
        O sacerdote tambm fez aluso a trs ou quatro relatos bblicos, mas, como eu no
tinha conhecimento da Bblia nessa ocasio, no fiquei muito impressionado, exceto
quando ele mencionou, como obra-prima, a experincia de Saul, rei de Israel, com a
feiticeira de En-Dor (ver I Samuel 28). Ele contou como os espritos haviam levado Saul a
viver sua vida dando ouvidos aos seus sentimentos, em vez de  palavra de Deus. E como
eles o separaram completamente de seu Criador, fazendo-o cometer uma grande
abominao aos olhos do Deus dos hebreus, conseguindo, dessa maneira, sua destruio.
         Naquele momento da Histria, nosso mestre no poderia ter obtido glria maior
do que esta para si mesmo: fazer com que o executivo maior da nao de Israel se
ajoelhasse perante um esprito demonaco diante de todos os habitantes das galxias.
        O homem disse que os espritos demonacos tm trabalhado atravs dos sculos
para convencer as pessoas a aceitarem o conceito de que os seres humanos tm uma
alma inerentemente imortal. Ele explicou como os espritos tm imenso deleite em
personificar entes queridos falecidos ou pessoas famosas falecidas  tudo na tentativa de
convencer a humanidade de que a personalidade humana no perece juntamente com o
corpo.
        Ao explicar por que os humanos aceitam to facilmente o conceito de que eles
continuam a viver aps a morte, ele disse que uma tremenda mudana ocorreu no
intelecto do homem aps Ado e Eva terem acreditado no engano de Satans (ver
Gnesis 3).
         Desconfiana e incredulidade para com o Criador tornou-se parte da natureza
humana  disse ele.  Por outro lado, tornou-se parte de sua fibra mental responder  voz
de nosso mestre e seus espritos associados.
        Roland e eu, fomos surpreendidos pelo sacerdote quando ele declarou que a crena
na vida aps a morte  uma forma de idolatria atravs da necromancia. Na realidade, eu
quase ca de minha cadeira quando ele afirmou que os espritos demonacos esto
constantemente profanando as igrejas crists por atrarem milhes de cristos a uma
forma de adorao aos espritos, que os leva  idolatria sem que disso se deem conta.
         Contrariando a opinio popular,  continuou ele  a necromancia no consiste
apenas em invocar os espritos dos mortos para se comunicar com eles. Em razo de os
seres humanos serem completamente mortais e no possurem uma alma imortal, a
necromancia tem a ideia inerente de que os mortos, na realidade, entram em uma esfera
de existncia mais elevada do que a que tinham quando estavam vivos. De acordo com o
grande mestre,  explicou o sacerdote esprita  as pessoas nem precisam buscar a ajuda
dos supostos espritos dos mortos para serem enredadas pela necromancia. A prpria
crena na vida aps a morte  argumentou ele  constitui necromancia, porque d aos
espritos demonacos a oportunidade de personificarem os mortos. Quando as pessoas
acreditam em suas prprias mentiras, o mestre recebe o respeito e a reverncia devidos
ao seu grande e glorioso nome. Ademais, os espritos se divertem e se comprazem por
terem levado as pessoas  idolatria.

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        Enquanto o sacerdote satanista continuava a exaltar Satans e sua sabedoria, fui
invadido por uma grande tristeza. Meu corao chegou a doer ao lembrar-me da devoo
de meus pais e avs  memria de seus familiares falecidos. Eles se haviam sacrificado e
se negado em muitas coisas com a finalidade de ajuntar o dinheiro necessrio para
mandar celebrar missas, na inteno de encurtar o perodo de tempo que essas almas
teriam que passar no purgatrio antes de entrarem no gozo celestial. Quando compreendi
que todo aquele sacrifcio havia sido em vo, o choque foi quase to grande como o que
senti quando minha me faleceu.
        No domingo seguinte, o sacerdote esprita fez uma preleo, sob o ttulo de "A
Idolatria Crist". Tratava de maneira muito mais detalhada a condio do homem na
morte, e explicava como os espritos de demnios conseguiram estabelecer e manter a
crena no purgatrio com o objetivo de desviar de Cristo a mente de milhes de pessoas.
O sacerdote se gabava da vantagem que os espritos levam sobre o Criador quando se
trata de fazer as pessoas acreditarem em alguma coisa.
         O Criador  disse ele  no pode mentir, nem tampouco induzir os sentimentos
das pessoas para que creiam na Sua palavra. Ao invs disso, Ele quer que aceitem Sua
palavra simplesmente porque confiam que Ele sempre fala a verdade. Em contrapartida,
os espritos podem mentir e tirar vantagem do fato de que os seres humanos do ouvidos
aos seus sentimentos quando a questo  decidir o rumo de suas vidas. Os espritos
exploram essa fraqueza ao mximo, fazendo com que as pessoas tenham fortes
sentimentos com relao s coisas que os espritos querem que elas creiam. Eles enchem
a mente humana com pensamentos errneos. As pessoas aceitam tais ideias naturalmente
e sempre faro isso.
        O grupo de adoradores de espritos estava maravilhado com a habilidade de
Satans para enganar as pessoas e, quando o orador mencionou que Satans e seus
anjos tm, na realidade, milhes de cristos envolvidos com a idolatria sem nem mesmo o
saberem, a plateia ficou em p para aplaudi-lo.
        Mais uma vez, o sacerdote gabou-se de que o mestre enganou o mundo inteiro
com a crena na imortalidade da alma, a despeito do esclarecimento e conhecimento
cientfico de nossa era. Nesse momento, aconteceu algo maravilhoso que posteriormente
me ajudou a aceitar a Cristo e a unir-me, eventualmente, a Igreja Adventista do Stimo
Dia. Foi uma pergunta levantada por algum:
         E quanto aos adventistas? Voc no pode consider-los enganados como o resto
do mundo. Por que eles resistem ao grande engano?
         Voc est correto  respondeu o sacerdote.  Os adventistas ainda no foram
enganados. Primeiro, deixem-me explicar por que eu os ignorei. Existem to poucos deles
em comparao com o restante da populao mundial, que nem passou pela minha mente
mencion-los. Em segundo lugar, a razo pela qual eles ainda no caram no engano  que
eles no so pessoas comuns. Permitam-me explicar. O que vou dizer pode chocar algum
de vocs, mas  verdade, quer queiram, quer no. O fato de os adventistas celebrarem o
sbado bblico da criao, torna impossvel que os espritos os enganem. O Criador d
ajuda especial a eles, bem como grande entendimento espiritual. E assim, nesse sentido,
eles no so pessoas comuns.
        Esta experincia singular serviu para me ajudar a tomar minha deciso por Cristo.
Depois de ter aceitado a Jesus como meu Senhor e Salvador, tornei-me um vido
estudante da Bblia. Como um ex-esprita, senti a necessidade de conhecer bem a Palavra
de Deus para poder ajudar outros na questo do espiritismo.
        Serviu tambm para registrar uma profunda impresso de que a Bblia declara que

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a necromancia  crena de que os seres humanos tm uma existncia consciente aps a
morte e pode se comunicar com os vivos   uma abominao diante de Deus. Agora, eu
percebia que ela , na realidade, uma forma de idolatria blasfema, que rouba de Deus a
glria devida ao Seu Santo Nome.  exatamente isto que ns fazemos quando atribumos
aos mortos faculdades que pertencem ao Criador, tais como a imortalidade. Em I Timteo
6:16 est escrito que Deus  "o nico que possui imortalidade, que habita em luz
inacessvel, a quem homem algum jamais viu, nem  capaz de ver".
        Meu encontro com o espiritismo deixou-me extremamente consciente de que a
crena na vida aps a morte faz parte de uma lista de nove atividades que expem as
pessoas ao mundo sobrenatural dos espritos. Todas elas so chamadas abominaes, nas
Escrituras.
        Atravs de Moiss, Deus disse a Seu povo: "No se achar entre ti quem faa
passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem
agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mgico, nem quem
consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa  abominao ao SENHOR; e por
estas abominaes o SENHOR, teu Deus, os lana de diante de ti" (Deuteronmio 18:10-
12). Deus considerava to perigosas as prticas do ocultismo que qualquer pessoa
encontrada em Israel envolvendo-se nelas devia ser apedrejada (ver Levtico 20:26,27).
        Ao realmente estudar a Bblia pela primeira vez em minha vida foi uma surpresa ver
como o Senhor  claro ao afirmar que os mortos no tm conscincia. Em Eclesiastes 9:5
e 6, li esta esmagadora revelao: "Os vivos sabem que ho de morrer, mas os mortos
no sabem coisa nenhuma... porque a sua memria jaz no esquecimento. Amor, dio e
inveja para eles j pereceram; para sempre no tm parte em coisa alguma do que se faz
debaixo do Sol".
        As passagens, porm, que mais me impressionaram aparecem no livro de J: "O
homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietao. Nasce como a flor e
murcha; foge como a sombra e no permanece. ...Os seus filhos recebem honras e ele
no o sabe; so humilhados, e ele no o percebe" (J 14:1,2 e 21).

                                Espritos demonacos amigos

       J usei, vrias vezes, o termo "espritos amigos" [ou "familiares"]. Talvez eu
devesse explicar explicar melhor. O sumo sacerdote do grupo esprita deixou bem claro
que os espritos das hostes de Satans so bem organizados e ele lhes confia tarefas de
acordo com as habilidades inerentes de cada um. O sacerdote afirmou que os anjos cados
so divididos em trs grupos distintos.
       Ele definiu os espritos amigos como possuidores de grande intelecto que tm
habilidade de personificar os mortos. Na realidade, eles tm imenso prazer de aparecer
como supostos espritos de entes queridos falecidos. Sua especialidade  trabalhar no
mundo religioso. Eles perpetuam os antigos erros que tm funcionado to bem para
Satans atravs dos sculos e esto sempre dispostos a introduzir novos erros  medida
que se tornem necessrios.
       "J os guerreiros"  segundo ele  "se concentram em semear a discrdia nas
famlias e desentendimentos entre os amigos, parentes e vizinhos. Tais espritos adoram
criar atrito entre as raas e os diferentes segmentos da sociedade. E, queles que tm a
melhor folha de servios em provocar a separao entre as pessoas, enchendo-as de dio.
Satans delega a tarefa de provocar guerras abertas entre as naes".
       "Os opressores"  continuou o sacerdote  "so um grupo peculiar, pois s

36
encontram prazer em produzir misria e destruio entre os seres humanos. Eles sofreram
algum tipo de esgotamento mental quando o mestre e seus espritos associados foram mal
compreendidos e banidos para este planeta, jamais tendo se recuperado dessa angstia.
Odeiam amargamente o Criador e acham que a nica forma de se vingar dEle 
destruindo a vida dos que foram criados  Sua imagem".
       O que ele revelou a mim e a Roland, naquela noite, influiu muito, alguns meses
depois, na minha deciso de afastar-me do culto aos demnios.




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                               CAPTULO 6
                  Pressionado a Assumir um Compromisso


       Certa noite, enquanto Roland e eu conversvamos com o sacerdote satanista, ele
mencionou que havia chegado o momento para ns dois exercitarmos nossa f no poder
dos espritos, pois o mestre o havia instrudo a esse respeito.
        Vocs podem pedir um dom, entre muitos,  disse ele  se to-somente
estiverem dispostos a professar abertamente f no mestre.
       Isso consistiria em participarmos de um ritual, no qual afirmaramos perante a
assembleia que reconhecamos que Satans era um grande deus, o supremo soberano do
planeta Terra, disposto a conceder maravilhosos dons aos crentes. Ento poderamos pedir
para ns qualquer dom que desejssemos. Finalmente, selaramos nossa confisso de f,
depositando um pouquinho de incenso em cima das brasas vivas do altar de Satans e
ajoelhando-se diante dele.
       O meu amigo nem hesitou. Embora eu sentisse vontade de pensar um pouco mais
antes de tomar uma deciso, Roland apresentou muitas razes por que aquela era a noite
ideal para eu tomar esse importante passo em minha vida. Embora eu tenha, agora,
vergonha de admiti-lo, acabei cedendo e me submetendo  coisa toda. Pedi o dom de
adivinhar e pretendia us-lo da seguinte forma: enquanto eu estivesse dormindo, durante
a noite, sonharia com os nomes e os nmeros dos cavalos vencedores da prxima corrida
a ser realizada em determinado hipdromo. Ento, eu iria at  bilheteria e apostaria
neles. Naquela mesma noite, tive um sonho desses. Vi claramente os vencedores de trs
corridas do sbado seguinte, com trs dias de antecedncia!
       No dia designado, fui  bilheteria e l estavam os nomes que eu havia visto em
meu sonho. Como no tinha muito dinheiro, apostei uma pequena quantia nas duas
primeiras corridas e ganhei cerca de 60 dlares. O terceiro cavalo pagava 21 a 1, pois
estava longe de ser um dos favoritos. Mas, considerando que os espritos me haviam
informado corretamente at ali, resolvi investir 20 dlares. O cavalo chegou em primeiro
lugar e eu fui o nico a me dirigir  banca de apostas para receber. Peguei os 420 dlares,
disse "Muito obrigado", e sa. Caminhando confiante, de posse de minha nova sorte, dirigi-
me a uma das muitas lojas finas de roupas masculinas da Rua St. Catherine e comprei um
excelente terno, feito sob medida, no valor de 200 dlares.
       Experincias semelhantes ocorreram nos sbados subsequentes. No demorou
muito e o proprietrio das bancas de apostas pediu que o seu gerente me conduzisse ao
seu escritrio. Ele queria ter uma conversa comigo. Aps falarmos por alguns minutos, ele
percebeu que eu no entendia muito sobre corridas de cavalos.
        Estou surpreso  disse ele  com fato de voc saber to pouco sobre o assunto
de corridas de cavalos e mesmo assim conseguir escolher to bem os vencedores. Voc se
incomoda de me contar quem lhe fornece as informaes?
       Quando percebeu que comigo no dava para chegar a lugar nenhum, ele disse:
        Sai muito caro ter voc frequentando o nosso estabelecimento. Gostaria que se
retirasse e no voltasse mais. Se desejar o endereo de outras bancas de apostas em
Montreal, posso at lhe fornecer uma lista.
       Era gostoso aproveitar a minha sbita prosperidade, mas ela no me fazia
realmente feliz. Roland, por outro lado, dizia estar vivendo a melhor fase de sua vida,
enquanto os espritos trabalhavam de maneira fantstica para ele.


38
       Certa noite, aconteceu algo que, realmente, me perturbou. Aps vrias pessoas
terem dado seu testemunho sobre o que os espritos haviam feito por elas, o sacerdote
satanista sugeriu que descssemos  sala de culto para uma sesso de louvor aos deuses.
        Ns falaremos a lngua do Cu  disse ele.  Isto traz muita felicidade ao nosso
mestre e aos conselheiros-chefes.
       Sua afirmativa me intrigou, mas senti que, talvez, aquele no era o melhor
momento para perguntar como os adoradores de demnios podiam falar a lngua do Cu.
       J assentados na sala de culto, cada um recebeu um hinrio (refiro-me a um
hinrio cristo). Na verdade, o sacerdote mencionou trs denominaes crists que
usavam aquele hinrio. Aps executar um breve ritual diante do altar, ele pediu 
assembleia que abrissem os hinrios em certo hino e que cantasse juntamente com ele.
Os cnticos continuaram durante uns vinte minutos. Sem pronunciar uma nica palavra,
permaneci sentado, quase em estado de choque.
       Mais tarde, ao voltarmos para cima, o sacerdote dirigiu-se a mim e, sorrindo,
comentou:
        Notei que voc no tomou parte em nossa sesso de louvor aos deuses. Importa-
se em dizer-me por qu?
        Eu simplesmente no poderia profanar aqueles hinos cristos da forma como
vocs fizeram. O fato de eu no gostar de Algum no  razo para se cantar
profanidades contra Seu nome.
        Entendo como se sente, mas aps algum tempo voc se ajustar.  como uma
pessoa que, pela primeira vez, testemunha o sacrifcio de um animal vivo. No princpio, 
chocante, mas depois de testemunhar algumas vezes, a pessoa se acostuma. A propsito,
estamos contando com voc e Roland para juntos celebrarmos nossa grande festa aos
deuses, num retiro que temos nas Montanhas Laurentianas. Como voc sabe, o dia
primeiro de novembro  uma data muito sagrada para o nosso povo. Falarei mais sobre
isso quando nos encontrarmos na prxima semana.
       Ao voltarmos para casa naquela noite, pedi que George esclarecesse alguma coisa
que eu havia observado durante a sesso de louvor. Aps haverem cantado por algum
tempo, algumas pessoas comearam a usar uma outra lngua diferente do francs, mas a
melodia continuava a mesma do hino cristo.
       Ele explicou que os espritos tomaram o controle da mente deles, levando-os a
louvarem a Satans e seus conselheiros-chefes na lngua dos espritos, capacitando assim
seres humanos a lhes darem culto em uma forma mais elevada de adorao. Essa
cerimnia, ele explicou, tivera um duplo propsito. Em primeiro lugar, s o fato em si, de
adoradores de demnios cantarem hinos cristos, j ridicularizara o nome de Cristo. Em
segundo lugar, quando os espritos de demnios assumiram o controle da mente de alguns
que estavam cantando, levando-os a louvarem a Satans e seus conselheiros-chefes na
lngua dos espritos com a melodia de hinos cristos, isto se constitura na mais alta forma
de blasfmia contra o Deus do Cu e isto agradara a Satans sobremaneira.
       Vrias referncias a sacrifcios de animais vivos haviam chamado minha ateno e
pedi que George nos falasse a respeito deles. Ele explicou que esses rituais eram
oferecidos por eles no dia primeiro de novembro, em um determinado lugar nas
Montanhas Laurentianas, mas ele preferia que o sacerdote nos explicasse essas coisas. As
circunstncias, porm, acabaram impedindo que eu obtivesse informao.
       Naquela ocasio, eu desconhecia que os anjos cados eram sabedores de que Deus
estava trabalhando para trazer-me em breve ao lugar em que eu teria a oportunidade de
ouvir a respeito do Seu grande amor para com os indignos seres humanos, de Seu plano

39
de redeno, e de Sua justia no trato com a raa humana. Os espritos decidiram, ento,
pressionar-me rapidamente para que eu assumisse um profundo compromisso com a
adorao aos demnios. Eles queriam que eu ultrapassasse o ponto sem retorno, como
explicarei logo adiante.
        Ao entrar em nosso local de culto, numa quarta-feira  noite, eu jamais poderia
imaginar que o fazia pela ltima vez. Ao cumprimentar aqueles amveis indivduos que
haviam feito tudo para que ns nos sentssemos parte de seu grupo, com o fim de agradar
os espritos, ter-me-ia sido impossvel imaginar que apenas dez dias depois as mesmas
pessoas seriam inimigos maldosos, planejando a minha destruio e dispondo-se a gastar
uma enorme quantia de dinheiro para colocar um prmio pela minha vida.
        A sesso de testemunhos foi realmente impressionante e, quando terminou, o
sacerdote conversou rapidamente com Roland e comigo, dizendo-nos que os espritos
estavam ansiosos por beneficiarem nossa vida de uma maneira muito especial. No dia
primeiro de novembro, dali a duas semanas, se ns to-somente assumssemos, num
ritual de iniciao, um compromisso definitivo para com essa sociedade secreta, os
espritos nos revelariam, ento, os seus planos para as nossas vidas.
        Quando perguntei ao sacerdote por que tnhamos que passar pelo ritual de
iniciao antes de conhecermos os planos deles para conosco, ele respondeu que era uma
questo de exercer f nos espritos. Sem f, era impossvel agradar ao mestre; agrad-lo,
porm, resultaria em muitos benefcios para ns.
         Senhores, venham comigo, por favor. Quero mostrar-lhes como o mestre
recompensa as pessoas.
        Ns o acompanhamos a uma sala, de onde eu ouvira sair, mais cedo naquela noite,
ao passar diante da porta fechada, o fantstico rudo de mquinas de escrever. Ele bateu 
porta e algum respondeu: "Entrem, por favor". Ao entrarmos, encontramos um homem
preenchendo vrios envelopes comerciais, com muitas folhas tamanho ofcio,
datilografadas.
         Julien, voc j conhece estes homens  disse o sacerdote.  Mas duvido que eles
saibam qual  sua ocupao, ou como os espritos melhoraram sua vida depois que voc
comeou a fazer o bem aos outros. Foi por isso que eu os trouxe aqui, para que pudessem
ouvir voc mesmo contar a sua experincia com os espritos, depois de ter sido iniciado
em nossa sociedade.
        O homem nos contou que, como um jovem advogado, ele pensava estar destinado
a passar a vida pesquisando materiais de referncia ou casos de julgamento dirigidos por
uma grande firma de advocacia. Mas a boa sorte lhe veio quando, pela orientao dos
espritos, ele conheceu a adorao aos demnios. Sua vida mudou da noite para o dia.
        Aps a sua iniciao, os espritos informaram que tinham uma tarefa especial para
ele. Ele ajudaria as pessoas que haviam cometido crimes contra a sociedade, mas que no
estavam recebendo a assistncia legal to necessria para evitar a cadeia.
        Os espritos queriam que ele iniciasse o seu prprio negcio imediatamente. Ele
ofereceria aos advogados o servio exclusivo de preparao de sumrios de defesa para
os seus casos de justia criminal. Os espritos fariam a maior parte do trabalho.
        Informaram tambm que j haviam sido enviadas cartas a certos advogados de
lngua francesa de todo o Canad, dizendo que ele forneceria aos advogados todos os
materiais necessrios para defender e ganhar causas que, no passado, haviam perdido por
no terem tido tempo necessrio para o preparo. Em pouco tempo, as respostas
comearam a chegar.
        Em seguida, os espritos lhe disseram que tudo o que precisava fazer era trabalhar

40
na casa de culto em qualquer quarta-feira que precisasse da ajuda deles. O esforo dele
consistiria em ir alimentando as trs mquinas de escrever com todo o papel necessrio,
at que os espritos terminassem o preparo de cada sumrio, em sua totalidade.
        Na mesa  sua frente, estavam trs mquinas de escrever e cinquenta pilhas de
papis. Essas pilhas tinham uma espessura que variava entre um e seis centmetros. Ele
explicou que todo material havia sido datilografado to rpido quanto ele conseguia
colocar papel nas mquinas. Continha todos os procedimentos a serem seguidos durante
os julgamentos, bem como antecedentes histricos de casos semelhantes julgados no
passado, e outros detalhes.
        Quando o sacerdote perguntou como era a aceitao dos seus servios entre os
advogados, ele declarou que eles simplesmente se deleitavam em fazer uso de seus
servios, devido aos excelentes resultados obtidos. E quando o sacerdote perguntou
quanto dinheiro o seu trabalho representava, Julien respondeu que envolvia vrios
milhares de dlares. Ao fazermos meno de sair, ele nos convidou para voltarmos e ver
os espritos trabalhando, sempre que estivssemos no prdio e ele estivesse ocupado com
o seu projeto.
        O sacerdote repetiu o seu pedido para que ns concordssemos em ser iniciados no
culto deles. Meu amigo Roland concordou, mas eu no podia.
         Sinto muito, mas no posso lhe dar essa resposta imediatamente  eu disse. 
Daqui a uma semana, lhe darei uma resposta definitiva.
        Sem que eu soubesse naquele momento, aquela foi a ltima vez que me despedi do
sacerdote satanista e, ento, fui para casa. Ao me deitar, naquela noite, no conseguia
dormir. O pensamento de ser iniciado no culto satnico ficava girando em minha mente.
Deveria prosseguir com aquilo ou no?
        As experincias dos poucos meses anteriores desfilavam diante de mim e enchiam
minha mente com muitas perguntas sem respostas, relacionadas com as foras do bem e
do mal. Mesmo tendo descoberto fatos incrveis a respeito do sobrenatural, eu tinha o
pressentimento de que muito mais do que eu j havia visto devia estar envolvido nisso.
Percebi que no se podia confiar em tudo o que os espritos de demnios haviam
declarado a respeito das injustias de Deus em Seu trato para com eles. Onde seria
possvel encontrar a verdade? "Certamente no nas igrejas crists", pensei, "ou eu j teria
ouvido algo a respeito".
        Em minha perplexidade, senti que, de alguma forma, eu precisava de ajuda para
tomar uma deciso inteligente, e uma sensao quase esmagadora de incapacidade fez-
me exclamar em alta voz: "Se h um Deus no Cu que Se importa comigo, me ajude!"
Pouco depois de falar essas palavras, virei-me para um lado e peguei no sono. A prxima
coisa de que me lembro  que o despertador tocou. Naquela quinta-feira de manh, fui
trabalhar envolto em meus pensamentos.
        Pouco depois de ter encontrado Roland e ter comeado a frequentar as sesses
espritas, comecei um novo emprego, para o qual havia feito minha inscrio algum tempo
antes. Isto quer dizer que tive de aprender um ofcio, o de bordador, em uma firma
especializada nesse tipo de servio s indstrias de roupas de Montreal.
        Enquanto trabalhava na minha mquina de bordar, eu no conseguia parar de
pensar a respeito da deciso que teria que tomar dentro de uma semana. Sexta-feira, ao
meio-dia, eu j havia chegado a uma concluso. Eu no tinha outra opo seno ir adiante
com a iniciao.




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                              CAPTULO 7
              Da Adorao aos Demnios ao Estudo da Bblia


       s trs horas da tarde, a sirene tocou como de costume, para dar incio ao intervalo
de quinze minutos de descanso. Ao passar em frente ao escritrio, enquanto me dirigia
para fora do prdio, Harry, um dos proprietrios, pediu que eu desse uma passada pelo
escritrio dele quando voltasse do intervalo. Ele precisava falar comigo.
       Quando voltei e entrei em seu escritrio, ele me ofereceu um cigarro e disse:
        Roger, gostaria de pedir-lhe um favor. Com certeza, voc me viu hoje de manh
andando pela fbrica com um certo senhor, mostrando a ele nossa empresa. Bem, eu o
contratei para trabalhar aqui. Ele comea na segunda-feira de manh.
        Patro, isso  muito interessante, mas o que tem a ver comigo?
        Oua bem o que vou dizer. Isso  muito importante para mim. Depois que ele
saiu, no pude pensar em mais nada a no ser no problema dele. Ele  um cristo, mas
guarda o sbado. Antes de aceitar o emprego, ele mencionou que, por causa de suas
convices religiosas, ele gostaria de sair do trabalho s 15:30 nas sextas-feiras e que
compensaria as horas nos outros dias da semana, para que pudesse, dessa maneira,
preparar-se para a observncia do sbado.
        Harry, estou ouvindo, mas no sei onde voc quer chegar.
        Estou vendo que voc no est familiarizado com o fato de que o sbado bblico
comea no pr-do-sol sexta-feira e termina no pr-do-sol do sbado. Como judeu, entendi
perfeitamente o que ele queria dizer e prometi que faramos os arranjos necessrios para
a satisfao dele. Mas tive vergonha de perguntar qual  a religio dele. Aqui est o que
eu gostaria que voc fizesse. Vou colocar Cyril para trabalhar na mquina prxima a sua e,
 medida que vocs forem fazendo amizade, procure descobrir qual o nome da Igreja dele
e qual a natureza das suas crenas religiosas. No d a menor impresso de que lhe
contei qualquer coisa. Use muito tato, tome todo o tempo necessrio, ainda que tenha
que esperar uma semana, ou duas, para tocar no assunto. Isso realmente me intriga. Um
cristo que guarda o sbado bblico. Nunca ouvi uma coisa dessas, seno hoje.
       Sentindo uma urgente necessidade de corrigir Harry, com respeito ao sbado e ao
correto dia da semana a ser observado, eu disse:
        Voc no sabe que o domingo  o stimo dia da semana? Aprendi isso quando
era menino na escola. As freiras nos explicaram que Deus criou o mundo em seis dias e
descansou no stimo. Mas deve ter havido um erro no calendrio gregoriano. Com efeito,
o domingo deveria estar, no calendrio, no lugar em que se l "sbado".
       Com um sorriso, Harry abriu uma das gavetas de sua escrivaninha, pegou um
dicionrio, folheou-o at achar o verbete "sbado", e pediu que eu mesmo lesse: "Sbado
 o stimo e ltimo dia da semana". Em seguida, explicou que os judeus nunca haviam
perdido de vista o ciclo semanal e que o sbado bblico , na realidade, o stimo dia da
semana, ou o sbado, tal qual indicado no calendrio.
       Quanto ao calendrio gregoriano, ele disse que este, embora tenha envolvido uma
correo cronolgica, no afetou e nem alterou o ciclo semanal de forma alguma. Foi
apenas uma compensao pelo fato de que o calendrio e o movimento do Sol haviam
deixado de ser sincrnicos, num total de dez dias atravs de um perodo de 1600 anos.
Sugeriu ainda que eu pesquisasse sobre o assunto em uma boa enciclopdia e lhe
passasse os meus achados no domingo  tarde, j que havamos combinado jogar bilhar


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juntos nesse dia.
        Admiti ao patro que eu no tinha muita cultura em se tratando de religio,
agradeci pelo fato histrico interessante, e voltei ao meu posto de trabalho, tendo
concordado em obter a informao que ele queria acerca das crenas religiosas de Cyril.
        Enquanto trabalhava, no conseguia pensar em outra coisa seno no que Harry e
eu havamos conversado, e mal podia esperar pelo final do expediente para poder ir a
biblioteca pblica para pesquisar um pouco. Ento, pensei: "Por que me preocupar com
religio? Que bem me far?  uma perda de tempo". Mas, novamente, senti um forte
desejo de investigar o assunto.
        Terminado o expediente, dirigi-me  biblioteca municipal e, em poucos minutos,
tinha todos os fatos relacionados com o calendrio gregoriano. Descobri que meu patro
estava correto sobre o assunto.
        O Papa Gregrio XIII decretou que o dia seguinte  quinta-feira, 4 de outubro de
1582, seria a sexta-feira, 15 de outubro de 1582, com o fim de trazer a celebrao da
Pscoa de volta ao tempo estabelecido pelo Conclio de Niceia. Este Conclio havia
regulamentado que a Igreja Catlica deveria observar a Pscoa no primeiro domingo aps
a primeira lua cheia que ocorre aps o equincio vernal [da primavera].
        Na manh da segunda-feira, Harry apresentou o novo empregado a todos ns na
fbrica. "Ele se chama Cyril Gross, e  um exmio bordador. Cyril  bem-vindo  nossa
empresa, e sua presena aqui, com certeza, h de contribuir para o prestgio da nossa
firma".
        Harry conduziu, ento, Cyril  mquina prxima da minha, dizendo-lhe que deveria
ser fcil, para ele, trabalhar com a mquina nova. Ento, virou-se para mim, dizendo:
         Cyril, apresento-lhe Roger. Vocs dois devero tornar-se bons amigos, pois vo
trabalhar juntos nos mesmos projetos. Roger, procure responder qualquer pergunta que
Cyril venha ter a respeito de qualquer projeto de trabalho. E, se vocs necessitarem de
qualquer coisa,  s me chamar.
        Passados uns 45 minutos, comecei a ter dificuldades com minha mquina de
bordar. Entre outras coisas, ela saltava alguns pontos. Isto quer dizer que eu tinha que
desmanchar uma parte do trabalho e comear de novo. Depois de ter acontecido isso
algumas vezes, minha pacincia se esgotou e comecei a condescender com um velho
hbito, ao qual eu dava o nome de "fazer os santos descerem do Cu" [falar palavras
obscenas].
        Posteriormente, chamei meu patro para checar os ajustes de minha mquina. Ele
veio, reajustou a tenso das bobinas, e examinou vrias outras peas que poderiam estar
causando o problema, mas no adiantou muita coisa.
        No intervalo da dez horas da manh, Cyril e eu nos dirigimos ao lado de fora do
prdio para respirarmos um pouco de ar fresco, e conversamos a respeito das minhas
dificuldades. Perguntei se ele sabia de qualquer coisa que eu pudesse fazer para resolver
o meu problema. Ele coou o queixo um pouco e, ento, disse:
         J que voc pediu minha opinio, eu creio que sim. Roger, por favor, tenha mais
cuidado com o nome de Deus. Eu podia ouvir a sua voz acima do barulho das mquinas e
podia notar que no estava orando para pedir ajuda.
        A resposta dele me surpreendeu um pouco, mas ele o fez de tal modo que
conseguiu expressar-se sem me ofender. Ao mesmo tempo, vi nisso a oportunidade de
descobrir aquilo que Harry queria saber.
         Cyril, perdoe-me se falei qualquer coisa que o tenha ofendido  respondi,
imediatamente.  No foi essa a minha inteno. A propsito, entendo que voc  uma

43
pessoa muito religiosa. Importa-se de dizer-me a Igreja pertence?
        Sou adventista do stimo dia  respondeu ele.
        Poderia, rapidamente, dizer em que cr e por qu?
       Cyril explicou que o nome de sua Igreja explica a razo de sua existncia.
        Os adventistas do stimo dia dedicam-se  proclamao de dois grandes
fundamentos bblicos. Primeiro, a observncia do sbado como o memorial da criao,
chamando todas as pessoas a adorarem Aquele que criou o cu, a terra, o mar e as fontes
das guas [Apocalipse 14:6,7]. Segundo, os adventistas aguardam a breve volta de Cristo,
em cumprimento da Sua promessa de ressuscitar os justos mortos e trasladar os justos
vivos. Possuindo corpos imortalizados, eles viajaro atravs do espao com o Senhor at
ao reino de Deus, onde Ele est agora, preparando lares para todos os que esperam por
esse maravilhoso acontecimento.
       Nesse momento, nosso intervalo j estava quase acabando e ns voltamos aos
nossos postos de trabalho. Mencionei a Cyril que, embora eu no tivesse nenhum
interesse em tornar-me frequentador de igreja, gostaria de ouvir mais a respeito de suas
convices religiosas.
        Roger, ser um prazer responder a qualquer pergunta que voc tiver acerca de
minhas crenas.
       Aquele dia de outubro estava especialmente lindo, e um pensamento invadiu a
minha mente.
        Cyril, que tal almoarmos juntos ao ar livre? Poderamos nos assentar na
plataforma de carregamento atrs do prdio. Eu gostaria que voc me contasse mais a
respeito de sua religio.
        Parece-me uma boa ideia  disse ele.
       J dentro da fbrica, descobri, para surpresa minha, que a mquina em que eu
trabalhava estava funcionando perfeitamente bem.
       Comecei a pensar acerca de tudo que acabara de ouvir. O Criador da humanidade
chamando as pessoas para se lembrarem dEle como o Doador da vida e, ento,
demonstrarem sua gratido atravs da observncia de um memorial. Muito interessante,
eu pensei. O retorno de Cristo  Terra e a ressurreio. Pessoas possuindo corpos
imortalizados, viajando atravs do espao para um Cu real. A forma com que Cyril falava
dessas coisas fazia com que tudo parecesse real.
       O horrio do almoo pareceu-me o mais breve que j experimentei. Tivemos os
mesmos 60 minutos de sempre, mas a forma com que a Palavra de Deus se abriu diante
de mim para solucionar os mistrios de minha vida, fez com que a hora parecesse 15
minutos apenas.
        Cyril, o que voc falou me interessa muito, mas suscitou vrias interrogaes em
minha mente. Importa-se de responder algumas delas?  disse eu.
         claro que no. Diga-me o que voc tem em mente. Espero poder ser til. 
respondeu ele, ficando  vontade.
       Para ter certeza de que eu o havia compreendido corretamente, comecei com um
resumo do que ele havia dito.
        Voc mencionou a ressurreio dos mortos por ocasio da volta de Cristo, e
pessoas com corpos imortalizados indo para um Cu real. Voc afirmou que isto
aconteceria em cumprimento da promessa de Jesus aos Seus discpulos. Agora, diga-me:
o que acontece com as almas imortais das pessoas quando morrem, e o que fazem elas
entre a morte e a ressurreio?
       Encostei-me contra a parede do prdio, dei uma mordida grande em meu

44
sanduche, e imaginei que ele levaria um bom tempo para se sair dessa. Mas ele me
perguntou, imediatamente:
         Roger, voc ficaria muito desapontado se eu lhe dissesse que voc no tem uma
alma imortal?
         Eu mesmo no, mas sei de muita gente que ficaria. Como voc explica isso?
         A palavra "imortal" aparece apenas uma vez na Bblia [I Timteo 1:17], e as
escrituras aplicam o termo a Deus. Agora, com toda honestidade, voc acha que seria
certo voc e eu afirmarmos que temos uma alma imortal quando a Bblia declara que
apenas Deus tem a imortalidade? [I Timteo 6:15,16].
        Quando ouvi essa resposta, quase deixei cair o meu sanduche. Eu no contava
com esse tipo de resposta, mas o que ele disse fazia muito sentido.
         Voc quer dizer que, quando uma pessoa morre, ela morre completamente? Que
no tem mais conscincia de nada?  continuei.
         Exatamente. Na verdade, o apstolo Paulo, em sua Epstola aos Romanos,
incentiva todos os cristos a buscarem a imortalidade [Romanos 2:7].  bvio que ele no
sugeriria que ns a buscssemos se ns j a tivssemos.
        Seu modo de raciocinar causou um grande impacto sobre minha mente,
especialmente porque eu nunca ouvira um cristo falar assim. Dei-lhe corda para que
falasse mais.
        Ele explicou que Jesus, durante o Seu ministrio na Terra, referiu-se  morte como
um sono. "Nosso amigo Lzaro adormeceu, mas vou para despert-lo. Disseram-Lhe, pois,
os discpulos: Senhor, se dorme estar salvo. Jesus, porm, falara com respeito  morte de
Lzaro; mas eles supunham que tivesse falado do repouso do sono. Ento, Jesus lhes
disse claramente: Lzaro morreu" (Joo 11:11-14).
        E ele ainda reforou sua posio com o texto de II Timteo 1:10, que diz que o
nosso Salvador Jesus Cristo destruiu a morte, trazendo a luz  vida e a imortalidade
atravs do evangelho.
        Quando pedi que ele esclarecesse essa afirmao, Cyril disse que Satans e seus
espritos demonacos tm imenso prazer em confundir e desencaminhar a raa humana.
Desde o dia em que levaram nossos primeiros pais a abrir a porta da misria para si
mesmos e seus descendentes atravs da desobedincia, esses espritos maus tm
elaborado cuidadosos planos para levar os mortais a focalizarem sua ateno em filosofias
e ideias humanas. Dessa forma, a humanidade perderia de vista as grandes bnos
prometidas por Deus.
          lamentvel admiti-lo, mas os planos do inimigo tm tido um sucesso enorme 
disse ele.
        "Aqui est um homem que entende a estratgia de guerra do inimigo", pensei
comigo mesmo. Mais uma vez, pedi que ele continuasse.
         A maior bno deveria cumprir-se na vinda do Messias. Novamente, 
lamentvel dizer: os israelitas, aqueles a quem foram confiados os orculos de Deus,
tornaram-se to confusos com respeito ao Messias que, quando andou entre eles, a
maioria O rejeitou e, um dia, gritou "crucifica-O!" Uma das mais preciosas promessas de
Deus havia sido a ressurreio dos mortos e a esperana da vida eterna. Nos dias dos
apstolos, porm, os saduceus (uma classe de judeus cultos), acreditava e ensinava ao
povo comum que no havia ressurreio [Atos 23:8]. Em contraste, muitas das naes
vizinhas mantinham a filosofia de que, quando as pessoas morrem, entram num mais
elevado nvel de existncia. Devemos entender, de acordo com II Timteo 1:10, que os
ensinamentos do Senhor, bem como o Seu grande sacrifcio no Calvrio, aboliram a morte

45
e deitaram abaixo todos os ensinamentos errneos sobre o assunto. O evangelho de
Cristo indica, claramente, que a vida eterna e a imortalidade sero concedidas, ou doadas,
aos justos por ocasio da ressurreio deles na segunda vinda de Cristo, e no antes. E
que, quando uma pessoa morre, no tem noo do tempo, mas dorme o sono da morte.
        Ento, disse eu:
         Cyril, foi o Esprito de Deus que tornou possvel que vocs, todos os adventistas
do stimo dia, escapassem do engodo da doutrina da alma imortal. Estou chegando 
concluso de que esse  o engano mais devastador que os espritos demonacos
perpetraram contra ns, seres humanos. Voc tem muito por que agradecer.
        Senti-me inclinado a falar sobre a minha ligao com os espritos, mas achei que,
se o fizesse, isso poderia custar a minha vida. Ao invs disso, fiz mais uma pergunta:
         Espero que voc no se aborrea comigo, mas poderia contar-me um pouco mais
sobre a volta de Jesus e a ressurreio?
        Meu jovem companheiro de trabalho tentou sintetizar a resposta, citando I
Tessalonicenses 4:13, 14 e 16-18. "No queremos, porm, irmos, que sejais ignorantes
com respeito aos que dormem, para no vos entristecerdes como os demais, que no tm
esperana. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim tambm Deus,
mediante Jesus, trar, em Sua companhia, os que dormem... Porquanto o Senhor mesmo,
dada a Sua palavra de ordem, ouvida a voz do Arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus,
descer dos Cus, e os mortos em Cristo ressuscitaro primeiro; depois ns, os vivos, os
que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro
do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois,
uns aos outros com essas palavras".
        Ao voltarmos para os nossos postos de trabalho, comentei com Cyril:
         Voc tem o mais maravilhoso conceito da vida. Qualquer pessoa que tem essa
esperana, realmente possui alguma coisa de grande valor.
        Naquela tarde, enquanto trabalhava em minha mquina de bordar, minha mente se
transformou, sem que ningum soubesse, em um campo de batalha para um feroz conflito
entre o Esprito de Deus e os espritos mpios de Satans. Primeiro, comecei a entender
por que os demnios devotam um dio to intenso ao Redentor do mundo. Compreendi,
tambm, por que eles tm inventado centenas de teorias para confundir e desencaminhar
os seres humanos, especialmente a ideia de que os homens so imortais. E, para dar fora
a essa doutrina diablica, os demnios  como eu j havia descoberto  aparecem s
pessoas fazendo-se passar por espritos dos entes queridos falecidos.
        Pela primeira vez na vida, discerni um Deus de amor. Ao mesmo tempo tambm,
tornei-me consciente de que era um homem perdido. Tal como vejo agora, experimentei,
at certo ponto, aquilo que ho de experimentar as pessoas abaixo dos muros, e fora, da
Nova Jerusalm: olhando para cima e vendo os remidos dentro da cidade, os mpios
gritaro: "Tarde demais!"
        Percebendo que estava espiritualmente perdido, comecei a suar muito, mesmo
estando a temperatura razoavelmente fresca dentro do prdio. Abri meu colarinho,
arregacei as mangas da minha camisa, mas no adiantou muita coisa. Lembro-me bem,
resolvi ir ao sanitrio masculino. Ao entrar ali, tranquei a porta e, com o corao
angustiado, agarrei-me  tampa da caixa de descarga, querendo firmar-me, pois estava
com muita tontura. Pesadas gotas de suor escorriam pelo meu rosto e caam com
regularidade dentro da gua do vaso.
        " tarde demais", parecia gritar a minha mente repetidamente. "Tarde demais!" Eu
queria gritar com todo o volume da minha voz, mas no emiti nenhum som. Agora, se

46
desvanecera meu dio a Deus, e minha vida mpia se estendia diante de mim. Ao mesmo
tempo, eu compreendia que era vtima de perseguio satnica.
        Os espritos demonacos me oprimiam, agora, com uma sensao de desnimo que
eu nunca havia sentido  e, que desde ento, nunca mais senti. Eu sentia a presena
deles fisicamente, a ponto de ter dificuldade para respirar. Era como se alguma coisa
estivesse a me privar de oxignio.
        Silenciosamente, em meu desespero, e quase sem flego, falei: "Que Deus tenha
piedade de mim". No foi a minha inteno fazer uma orao, mas, para minha surpresa,
a condio de sufoco deixou-me imediatamente, bem como a sensao de desespero.
        Depois de lavar o rosto com gua fria, voltei  minha mquina. Enquanto
trabalhava, minha mente foi invadida pelo pensamento de que, talvez, o Doador da vida
ouvira meu grito, expulsando os espritos maus. Mas, por que teria feito isso? Eu havia
devotado dio a Deus e blasfemado o Seu nome. Ele nunca poderia perdoar-me. No
obstante, ningum, exceto o Deus do Cu, poderia ter me livrado da forma como eu
acabava de sentir.
        Outra ideia que me passou pela cabea foi a seguinte: embora eu mesmo no
pudesse ser perdoado, nem esperar a vida eterna do modo que Cyril havia explicado,
talvez, fosse a inteno do Criador usar algum to indigno como eu para trazer uma
bno  vida daqueles a quem Ele amava e queria ter na Terra renovada.
        Eu no podia pensar em outra coisa, seno que Deus havia feito com que eu
conhecesse Cyril, que tinha tanto conhecimento acerca das realidades eternas. Todavia,
seria possvel que o Deus do Cu tivesse ouvido o meu grito por socorro alguns dias antes
quando, na minha casa, eu dissera: "Se h um Deus no Cu que Se importa comigo, que
Ele me ajude!"
        "Ele Se importa, sim, Ele Se importa!" Eu quase gritei essas palavras, com todo o
volume de minha voz, para que todos na fbrica pudessem ouvir, mas me contive. Vendo,
agora, que Deus tinha real interesse em mim, decidi pedir que Cyril me falasse mais a
respeito do que ele havia encontrado na Bblia. Se Deus tinha considerao por mim (uma
pessoa to indigna como eu), Ele deveria interessar-Se por muitas outras pessoas. Estas
seriam boas pessoas, mas que ainda so desconhecedoras do desejo de Deus para com
elas.
        Talvez, se eu me envolvesse com o bem-estar eterno dos outros, Deus poderia me
livrar do poder dos espritos demonacos e eu poderia viver o resto da minha vida feliz,
com o pensamento de que, mesmo no podendo ser salvo, eu poderia informar muitas
pessoas deste mundo sobre o terrvel conflito que se tem arrastado nos bastidores, tendo
o objetivo de lev-los a tomarem decises inteligentes por Cristo.
        No demorou muito, e comecei a sentir grande indignao pelo fato de os
demnios terem desencaminhado a raa humana. Ali, naquele momento, eu decidi romper
com eles.
        Naquele dia, aps o encerramento do expediente, disse a Cyril que gostaria de ir
caminhando com ele at a parada do bonde para conversar um pouco mais. Enquanto
amos andando, perguntei s ele estaria disposto a estudar a Bblia comigo. Ele disse que
seria um prazer. Ento, perguntou:
         Voc gostaria de comear no prximo final de semana? A partir da, poderamos
estudar a Bblia uma ou duas vezes por semana.
         Cyril, por motivos que agora no posso revelar,  muito importante para mim que
comecemos esta noite. Teremos nosso encontro na minha casa ou na sua?
        Ento, ele me convidou para o estudo na casa dele, s 19:00. Ao nos despedirmos,

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ele ainda parecia surpreso com a minha insistncia em comearmos naquela noite.
Naquele momento, nenhum de ns sabia que, dali a uma exata semana, teramos
concludo uma srie de 28 estudos bblicos.




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                                  CAPTULO 8
                           O Estudo da Segunda-Feira


        Fui apresentado  sua esposa e, depois de conversarmos alguns minutos, Cyril
mencionou que ele queria explicar seu vnculo com a Igreja Adventista do Stimo Dia. O
tempo no havia permitido que ele entrasse nesses detalhes, l no local de trabalho. Na
realidade, ele ainda no era membro da denominao, mas estava frequentando
regularmente a igreja, e j tinha feito os preparativos para ser batizado no sbado
seguinte.
        Sem que sua esposa soubesse, ele estivera lendo todas as publicaes da Igreja
que Cynthia tinha em casa e, fazendo isso, ele se havia tornado um fervoroso estudante
da Bblia. Havia obtido, tambm, uma compreenso mais profunda das Escrituras ao
estud-las com o Pastor L.W. Taylor e, por isso, j havia tomado a deciso de unir-se 
Igreja.
        Cyril sugeriu que Cynthia dirigisse os estudos. Concordei com a ideia e curvei minha
fronte juntamente com meus novos amigos, enquanto ele fez uma breve orao.
        Sua esposa sugeriu que segussemos um plano de estudos intitulado "28 Estudos
Bblicos Para Pessoas Muito Ocupadas". Cada tema consistia de quinze a vinte perguntas e
necessitaria, aproximadamente, de uma hora de estudo. O plano me pareceu bom e
comeamos com o primeiro, cujo ttulo era "A Palavra de Deus".
        Em pouco tempo, j havamos concludo o primeiro tema. Fiquei encantado com o
que aprendi sobre as revelaes de Deus para os homens. A lio nmero dois tinha que
ver com o segundo captulo do livro de Daniel, examinando a ascenso e queda dos
grandes imprios mundiais, e a segunda vinda de Cristo ao nosso mundo. Cyril sugeriu,
ento, que marcssemos um horrio para examinarmos juntos as profecias de Daniel.
Imediatamente, perguntei se poderamos ter tal estudo ali mesmo, naquele momento.
Eles concordaram e, ento, continuamos.
        De todos os textos lidos, o que mais me impressionou foi este: "Mas, nos dias
destes reis, o Deus do Cu suscitar um reino que no ser jamais destrudo; este reino
no passar a outro povo; esmiuar e consumir todos estes reinos, mas ele mesmo
subsistir para sempre" (Daniel 2:44).
        Depois de ler esse texto, eu queria saber o que mais Daniel tinha aprendido acerca
do estabelecimento do reino de Cristo na Terra. Cynthia chamou minha ateno ao
captulo sete: "O reino, e o domnio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o cu
sero dados ao povo dos santos do Altssimo; o Seu reino ser reino eterno, e todos os
domnios O serviro e Lhe obedecero" (Daniel 7:27).
        Ela disse, tambm, que as palavras de Jesus, em Mateus 5:5, cumpririam-se,
ento: "Bem-aventurados os mansos, porque herdaro a Terra". Descobri, tambm, que as
pessoas que habitaro a Terra sero os ressuscitados e os trasladados por ocasio da volta
de Jesus.
        J havamos completado o terceiro estudo, e eu nem percebera o tempo passar.
Nunca antes eu ouvira tais coisas. Elas me prenderam o corao e eu queria mais. "Qual 
o assunto do prximo estudo?" No momento, no me lembro do ttulo, mas recordo que
despertou em mim um desejo to intenso de ouvir o que a Palavra de Deus tinha a dizer
sobre aquele tema especfico, que senti a necessidade de convenc-los a estudar mais
aquele tema naquela noite.


49
        Acendendo mais um cigarro e aspirando duas tragadas profundas, comentei que, se
Cyril fizesse a gentileza de esvaziar o cinzeiro para mim, eu poderia aguentar mais uma
hora de estudo. Ele o esvaziou e, com cortesia, o trouxe de volta. Ento, eu disse:
         No devemos perder tempo algum, para que vocs no tenham que ir para a
cama muito tarde.
        Eles responderam que, geralmente, se recolhiam para dormir por volta das 23:00.
         timo,  disse eu  so nove e pouco da noite. Estamos indo bem em nossos
estudos, no desperdicemos nenhum tempo.
        Lembro-me da reao deles, como se fosse ontem. Cynthia deu uma olhada para o
esposo, tenho um grande ponto de interrogao em seus olhos. Cyril indicou que
deveramos continuar. Enquanto isso, eu j estava fumando meu ltimo cigarro, e a
metade dele j havia sido queimada. Ento, perguntei se eles se importavam se eu
fumasse um charuto. Alm do mais, eu tinha o costume me gratificar toda vez que sentia
estar realizando alguma coisa de valor. Estudar a Bblia com eles estava sendo, na minha
opinio, a coisa mais proveitosa que eu j havia feito na vida.
        Sem hesitar, Cyril respondeu:
         Queremos que voc se sinta em casa, enquanto est aqui conosco. Fique 
vontade.
        E eu fiquei, da nica maneira que eu sabia. O ar da sala ficou azulado com tanta
fumaa. Tenho a firme convico de que o Esprito de Deus havia ido antes de mim para
ajud-los a compreenderem a fora com que o fumo me dominava, e a aceitarem minha
inconvenincia com o fim de me conduzirem a Jesus.
        Atravs dos anos, tenho agradecido muitas vezes a Deus pela maneira com que
eles enfrentaram essa situao delicada. Por sete dias consecutivos, estudamos a Bblia 
foram quatro horas por noite. Somente quando chegamos ao tema da sade  que
entendi o que o fumo estava me causando, e o quanto eles fizeram para me suportar. E
esse assunto no foi seno um dos ltimos da srie de 28 estudos.
        Quando perguntei por que eles me toleraram fumando durante os estudos, Cynthia
explicou:
         Ns estvamos felizes em sua companhia, e quando voc manifestou o desejo de
voltar, aps a primeira noite de estudos, Cyril e eu resolvemos que, mesmo que nossa vida
fosse encurtada uns dois anos por causa dos seus cigarros, no nos importaramos desde
que voc estudasse a Palavra de Deus e se tornasse um seguidor de Jesus.
        Voltemos, agora, ao quarto tema de estudo. A Palavra de Deus estava abrindo
realidades eternas diante de mim e, sentindo o desejo de receber mais e mais da mesma
coisa, perguntei qual era o tpico do estudo nmero quatro.
         Podemos estudar o nmero quatro agora? Da, deixarei vocs irem dormir.
        Uma expresso de grande surpresa tomou conta do rosto deles. Cyril respondeu:
         Que tal planejarmos mais uma noite nesta semana para estudarmos o nmero
quatro?
         Espero que voc me permita voltar amanh para o estudo nmero cinco. Isto ,
se eu ainda estiver vivo.
        De alguma forma, eu pressentia que os espritos demonacos poderiam me destruir.
No contei tudo o que eu realmente sentia, mas eles compreenderam meu apelo de
urgncia e concordaram em realizar o quarto estudo.
        Na primeira vez em que meu amigo Roland e eu visitamos a assim chamada "sala
de adorao aos deuses", o sacerdote nos fizera jurar sigilo com respeito a tudo que
tnhamos visto e ouvido. Ele falava e ns amos repetindo o encantamento aps ele, e

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selamos o pacto depositando um pouquinho de incenso sobre a chama de uma vela preta.
O sacerdote salientou que, ao sairmos, teramos de manter silncio total, com o fim de
evitar o grande desagrado dos espritos.
        Algum tempo depois, quando assistimos quilo que os adoradores de demnios
gostam de chamar de "sesso de louvor aos deuses", o sacerdote explicou o grande perigo
de despertar a ira dos espritos. Como exemplo, ele mencionou o caso de um indivduo
que foi desleal em algo que muitos poderiam considerar de pouca importncia. Apesar de
ele morar em um prdio considerado  prova de fogo, os espritos queimaram o edifcio
com tudo o que havia dentro dele, inclusive o traidor com sua esposa. George nos contou
que havia conhecido esse casal.
        Em outro caso, os espritos passaram uma hora inteira atormentando um membro
infiel em sua casa. Eles lanaram com grande fora todos os pertences da casa contra as
paredes, reduzindo grandes peas do mobilirio a pedaos. Hospitalizado em estado de
choque, depois que os vizinhos o encontraram em sua casa, o homem quase
enlouqueceu.
        Com essas experincias gravadas na mente, foi-me natural considerar as horas de
estudo como um bnus, e isso me levou a pressionar pelo quarto estudo. A ousadia com
que me aventurei a estudar a Bblia sob tais condies no foi o resultado do esforo
humano. Da maneira que vejo hoje, foi o resultado direto de ser alimentado, naquele dia,
pela Palavra de Deus  a "Palavra Operante". A Palavra de Deus  vida. Ela tem o poder de
motivar uma pessoa, a ponto de ousar desagradar o prncipe das trevas.
        Deus havia proposto que eu ouvisse as grandes verdades de Sua Santa Palavra, e
isso tornou-se em realidade. Os espritos de demnios no tiveram nenhuma maneira de
impedir que isso acontecesse.
        Quando terminamos o quarto estudo, marcamos um novo encontro para s 19
horas da noite seguinte. Antes de sair, sugeri que Cyril lesse uns dois versos das Escrituras
e fizesse uma pequena orao. Ele abriu a Bblia no livro dos Salmos: "Deus  o nosso
refgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulaes. Portanto, no temeremos ainda
que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as guas
tumultuem e espumejem, e na sua fria os montes se estremeam" (Salmos 46:1-3).
        Eu estava para sair, j com a mo na maaneta da porta, quando me ocorreu
perguntar quais os assuntos dos prximos temas. Um deles seria: "O estado dos mortos".
        Ao despedir-me, dizendo "Boa noite", a sensao que tive foi que mal poderia
esperar at o horrio combinado para o prximo estudo. Na realidade, minha principal
preocupao no era esperar o tempo passar. Eu estava no bonde, enquanto me dirigia
para casa, e me perguntava se ainda estaria vivo no dia seguinte, tera-feira, s 19 horas.
Realmente, acreditava que, naquela noite de segunda-feira, eu seria visitado pelos
espritos  e, contra os seus ataques, eu no tinha, em minha prpria fora, nenhum
mtodo de defesa. Mesmo assim, no temia a morte. Mesmo sendo to indigno, o Esprito
do Senhor estava abenoando minha vida pelo amor de Jesus.
        Quando me deitei, as palavras das Escrituras, que Cyril havia lido, voltavam
constantemente  minha mente, e a prxima coisa que percebi foi o toque do alarme do
meu despertador, na tera-feira de manh. Era hora de levantar e sair para o trabalho. At
hoje, as palavras do captulo 46 do livro de Salmos significam muito para mim, porque me
tm ajudado a olhar para cima, para Deus, o Manancial da vida, a Fonte de todo o poder.
Por mais sombrias e desesperadoras que sejam as perspectivas. Ele pode operar uma
maravilhosa mudana a fim de livrar os desemparados das mos do destruidor.


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                                CAPTULO 9
                      Estudando em Tempo Emprestado


       Tera-feira, s 19 horas em ponto, eu j estava na residncia do casal Gross. O
foco principal de nossa ateno seria a condio ou o estado dos mortos. Descobri que a
Bblia  muito clara sobre esse assunto e oferece respostas a algumas perguntas, tais
como: So os seres humanos possuidores de imortalidade? Podem os mortos louvar o
Senhor? Ser que a esfera condicional dos mortos se constitui uma fonte potencial de
conhecimento?
       A resposta  primeira pergunta veio em alto e claro som. Somente Deus tem a
imortalidade (I Timteo 6:15,16). Em outras palavras, o homem  mortal, pura e
simplesmente.
       O texto: "Os mortos no louvam o Senhor, nem os que descem  regio do silncio"
(Salmos 115:17) respondeu  segunda pergunta com a rapidez de um relmpago.
Quebrou em mil pedacinhos os ensinos religiosos de minha infncia.
       A resposta  terceira pergunta comeou a revelar-me o amor e a justia de Deus
em Seu trato com criaturas pobre e mortais como ns. Foi o que encontramos no livro de
J: "O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietao. Nasce como a
flor e murcha; foge como a sombra e no permanece... Os seus filhos recebem honras, e
ele o no sabe; so humilhados, e ele o no percebe" (J 14:1,2 e 21).
       Tive uma sensao de to grande alvio aps ler essa passagem, que disse ao
casal: " muito bom saber que os nossos queridos falecidos no esto nem no purgatrio
sofrendo, nem no Cu vendo as tribulaes de seus queridos na Terra, mas esto todos
dormindo na sepultura at  manh da ressurreio".
       Foi, ento, que o Esprito Santo me deu a compreenso de que a morte  o oposto
da vida, um estado de completa extino da vida, um estado de inexistncia. Agora, eu
compreendia o total equvoco do conceito de que o homem tem uma alma imortal,
especialmente depois de ler o registro da criao de Ado: "Ento, formou o SENHOR
Deus ao homem do p da terra e lhe soprou nas narinas o flego de vida, e o homem
passou a ser alma vivente" (Gnesis 2:7). Entendi claramente que o flego de vida  o
meio atravs do qual Ele vivifica e sustenta a nossa estrutura fsica.  atravs dele que o
corao bate, o sangue flui, os pulmes se expandem e os membros se movem. E quando
Deus remove esse meio, a vida cessa.
       Ao declarar nas Escrituras que o homem passou a "ser" alma vivente,  ao contrrio
da crena popular de que o homem recebeu uma alma  Deus neutraliza todas as
avenidas que Satans e seus espritos demonacos poderiam usar para desencaminhar-
nos, pretendendo ser e aparecendo como se fossem os espritos de entes queridos
falecidos que, supostamente, partiram para um mais elevado nvel de existncia.
       Ao chegarmos  concluso do estudo sobre o estado do homem na morte, abriu-se
diante de mim uma perspectiva completamente nova sobre o carter de Deus. Fiquei
profundamente impressionado diante do pensamento de que o mundo cristo tem
representado a Deus de uma forma grandemente m.
       Para entender e avaliar a minha experincia durante aquela semana, voc precisa
imaginar nunca ter possudo e nem estudado uma Bblia. A alegria da vida no  real
quando, to logo voc descobre alguma coisa boa para desfrutar, l vem o pensamento de
que amanh a morte poder colocar um ponto final em tudo. Voc sempre fica frente a


52
frente com a eternidade, mas "eternidade" de qu? Os outros no sabem nada a mais do
que voc. Um dia, ento, de uma maneira muito inesperada, voc encontra algum tendo
em mos um Livro, escrito pelo prprio Doador da vida. Todas as perguntas no
respondidas, que atormentaram a sua mente durante anos, recebem agora uma
explicao inteligente  e mais ainda.
        Descobri que, atravs da doutrina da ressurreio, a Bblia abre o caminho pelo
qual o homem pode obter a imortalidade. "Eis que vos digo um mistrio: nem todos
dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de
olhos, ao ressoar da ltima trombeta. A trombeta soar, os mortos ressuscitaro
incorruptveis, e ns seremos transformados. Porque  necessrio que este corpo
corruptvel se revista de incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista de
imortalidade. E, quando este corpo corruptvel se revestir de incorruptibilidade, e o que 
mortal se revestir de imortalidade, ento, se cumprir a palavra que est escrita: Tragada
foi a morte pela vitria. Onde est,  morte, a tua vitria? Onde est,  morte, o teu
aguilho?" (I Corntios 15:51-55).
        Jesus, o Prncipe da vida, quando vier na Sua segunda vinda, em companhia de
Seus anjos celestiais, conferir a imortalidade queles que fizeram dEle o seu Senhor. Ir
restaurar a vida daqueles que a perderam por amor a Ele. A ressurreio  o grande
evento contemplado pelos santos escritores como o objeto de sua esperana.
        Embora tivesse sofrido a perda de todas as coisas por amor a Cristo, o apstolo
Paulo ainda tinha essa alegria, colocando sua esperana na ressurreio dos mortos
(Filipenses 3:7,8,10,11). Ele dirigia seus pensamentos continuamente para o Cu: "Pois a
nossa ptria est nos Cus, de onde tambm aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus
Cristo, o qual transformar o nosso corpo de humilhao, para ser igual ao corpo da Sua
glria (Filipenses 3:20,21). Tambm achei interessante que, ao falar de suas tribulaes
na sia,  a ponto de desesperar-se da prpria vida  ele confiou em Deus, que h de
ressuscitar os mortos (II Corntios 1:8,9). Ele no comentou que esperava encontrar o
Senhor por ocasio de sua morte, como ensina a teologia moderna [esta baseada na m
compreenso de Filipenses 3:23], mas colocou sua esperana na ressurreio.
        Ao procurar nas Sagradas Escrituras o tempo designado para que os justos
recebam a sua recompensa e os mpios a sua condenao, descobri que estas no
ocorrem por ocasio da morte, mas por ocasio das duas ressurreies. Fiquei
maravilhado com as palavras de Jesus: "Ao dares um banquete, convida os pobres, os
aleijados, os coxos e os cegos; e sers bem-aventurado, pelo fato de no terem eles com
que recompensar-te; a tua recompensa, porm, tu a recebers na ressurreio dos justos"
(Lucas 14:13,14).
        Descobri que Paulo dirigia sua ateno para a segunda vinda de Cristo, quando
receberia pessoalmente de Jesus aquilo que ele chamou de "coroa da justia". J no fim
de sua vida, esse cansado mas valente soldado da cruz, carregava nas costas as marcas
das cinco quarentenas de aoites (II Corntios 11:24). Sustentava-o, porm, a esperana
que tinha na ressurreio. Embora compreendendo que em breve estaria diante da espada
do seu algoz, Paulo ergue a voz para dar uma mensagem que infundiria coragem a muitas
geraes do povo de Deus, definindo o tempo, ou o momento, em que todos recebero a
recompensa da vida eterna:
        "Quanto a mim, estou sendo j oferecido por libao, e o tempo da minha partida 
chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a f. J agora a coroa da
justia me esto guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dar naquele Dia; e no
somente a mim, mas tambm a todos quantos amam a Sua vinda" (II Timteo 4:6-8).

53
        Atravs de todo o estudo sobre a ressurreio do corpo, ainda latente no fundo de
minha mente estava o pensamento de que, se os escritores do Novo Testamento
acreditassem que o homem tem uma alma imortal que vai para o Cu por ocasio da
morte, eles certamente fariam meno de que Cristo traria essa alma de volta, por ocasio
de Sua vinda, para junt-la ao seu antigo corpo. No encontrei tal ideia em lugar nenhum,
mas encontrei muitos textos das Escrituras que provam exatamente o oposto. Por
exemplo, no dcimo quinto captulo de I Corntios, Paulo discorre bastante sobre os
mortos justos e a ressurreio, falando repetidas vezes que as pessoas que dormiram
sero despertadas quando Jesus voltar.
        O ltimo ponto de minha descoberta  por sinal, um dos mais impressionantes 
sobre o tema da ressurreio, aparece na Epstola aos Hebreus. O dcimo primeiro
captulo fala da f do povo de Deus atravs de vrias pocas, mencionando suas
tribulaes e dificuldades, sua coragem e sua esperana na ressurreio e na vida eterna,
e como foram sustentados pela f mesmo diante da prpria morte.
        "Alguns foram torturados, no aceitando seu resgate, para obterem superior
ressurreio; outros, por sua vez, passaram pela prova de escrnio e aoites, sim, at de
algemas e prises. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de
espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados,
afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo no era digno), errantes pelos
desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram
bom testemunho por sua f no obtiveram, contudo, a concretizao da promessa, por
haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem ns, no fossem
aperfeioados" (Hebreus 11:35-40).
        "Se eu to-somente pudesse ter essa linda esperana da ressurreio e da vida
eterna, e viver de acordo com ela"  pensei eu. Foi quando alguma coisa varreu todo
aquele entusiasmo que estava crescendo em minha mente. "Que tolice, a minha: pensar
que Deus me perdoaria o dio que eu havia alimentado contra Ele por tanto tempo. No,
Ele nunca me perdoaria. Era melhor tirar da cabea essa esperana de vida eterna. E
ainda havia a tal da minha associao com os espritos. Deus nunca me perdoaria.
Esquea isso, Morneau,  tarde demais".
        Aconteceu que Cynthia leu o texto final, que concluiria o estudo e que aconselha
todos os cristos a viverem "no presente sculo, sensata, justa e piedosamente,
aguardando a bendita esperana e a manifestao da glria do nosso grande Deus e
Salvador Cristo Jesus" (Tito 2:12,13).
        Essa passagem me levou a expressar ao casal Gross a minha apreciao pela
graciosa disposio deles em estudar a Bblia comigo. Tambm mencionei que gostaria de
poder viver com a esperana de ver a gloriosa manifestao do Senhor, mas que minha
vida tinha sido tal que tornava esse desejo impossvel.
         Ainda existe esperana  disse Cynthia.  Ns temos um grande Sumo Sacerdote,
Cristo, o Justo, que ministra em nosso favor no Santo dos Santos, no santurio celestial.
Ele veio e morreu na cruz do Calvrio para tornar-Se o nosso Sumo Sacerdote.  somente
atravs dEle que podemos encontrar a salvao.
        "Se ela soubesse do meu envolvimento com os espritos, ela no diria que ainda
existe esperana"  pensei.
         Existe esperana para voc  continuou ela.   claro que exiSt. Em Jesus existe
esperana para cada um de ns. Existe esperana enquanto estivermos vivos para pedir
ajuda de Jesus. Deixe-me mostrar para voc.
        Ento, ela abriu a Bblia e leu: "No temos Sumo Sacerdote que no possa

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compadecer-Se das nossas fraquezas; antes, foi Ele tentado em todas as coisas,  nossa
semelhana, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono
da graa, a fim de recebermos misericrdia e acharmos graa em ocasio oportuna"
(Hebreus 4:15,16).
        Tomei a Bblia das mos dela, e disse:
         Deixe-me ver isso.
        Creio que o que me levou a pegar a Bblia foi o fato de que o Esprito de Deus
estava enchendo a minha mente de esperana. Certa vez, no tempo em que servi na
Marinha Mercante do Canad, lancei uma corda a um homem que havia cado no mar. Ele
apanhou a corda e se agarrou firmemente a ela. Agora, sentindo-me igualmente perdido,
eu enxergava uma corda de esperana e rapidamente a agarrei.
        J estava ficando tarde e, por isso, sugeri que Cyril fizesse uma orao antes de me
despedir. Perguntei tambm se poderia voltar na noite seguinte e eles concordaram.
Ento, depois da orao, fui para casa.
        Enquanto me dirigia para casa, j dentro do bonde,  com suas rodas rangendo,
suas portas abrindo e fechando ruidosamente, passageiros entrando e saindo, e o
condutor anunciando os nomes das prximas ruas  eu olhava pela janela com os olhos
fixos no calamento. Meus pensamentos estavam totalmente concentrados naquilo que
Cynthia havia dito. Eu ainda podia ouvir o eco de suas palavras: "Existe esperana para
voc.  claro que exiSt. Em Jesus existe esperana para cada um de ns. Existe esperana
enquanto estivermos vivos para pedir ajuda de Jesus".
        Ento, uma voz pareceu sussurrar-me aos ouvidos, dizendo que existe esperana
para pessoas desesperadas e indignas  at mesmo para adoradores de espritos.
        Trinta e dois anos depois, o casal Gross, minha esposa e eu, nos encontramos na
cidade de Toronto, no Canad. Pouco aps a experincia de minha converso, eles haviam
se mudado para os EUA e, desde ento, nunca mais nos havamos visto. Ao evocar as
lembranas daquele outono de 1946, Cyril fez uma afirmao que me emocionou  porque
nela eu vi a misericordiosa operao do Esprito de Deus e de Seu amor para comigo.
Cyril declarou:
        "J estava casado fazia vrios meses quando comecei a receber estudos bblicos de
Warren Taylor, pastor da Igreja Adventista do Stimo Dia de Montreal. Eu no tinha
nenhum problema em crer no que ele dizia porque tudo o que ele fazia era ler textos da
Bblia. Certa noite, ento, ele me apresentou a lio sobre o sbado. Aquilo me fez
lembrar de um dia, em Halifax [Provncia de Nova Scotia, Canad], quando perguntei para
minha av qual era o dia correto de repouso. O estudo no me deixou totalmente
convencido. Naquela noite, sem dizer nada a ningum, orei a Deus, pedindo que Ele me
ajudasse a crer no sbado. Pedi que Ele me concedesse a capacidade de convencer
apenas uma pessoa sobre o sbado, e eu tomaria isso como sinal de que Ele queria que
eu o observasse.
        "Na segunda-feira seguinte, fui para o meu trabalho, como de costume. Entretanto,
eu estava inquieto e resolvi deixar o emprego. Tendo ouvido falar de uma nova fbrica que
precisava de novos empregados com o meu talento especfico, fui naquela tarde
apresentar-me para ser entrevistado e, para minha surpresa, consegui o emprego e um
salrio melhor. Ento voltei a meu antigo local de trabalho e dei o aviso prvio requerido
pela lei.
        "Finalmente, chegou o dia de iniciar meu novo emprego. Naquela manh de
segunda-feira, tomei meu lugar ao lado de um empregado que tinha dois hbitos
estranhos. Primeiro, ele fumava como uma locomotiva. Senti-me agradecido porque era

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permitido abrir as janelas. O outro hbito era que, toda vez que a mquina dele
emperrava, ele me surpreendia com profanidades incrveis. Eu me havia esquecido de orar
a Deus, mas Deus nunca esquece a orao de Seus filhos. Eu nem podia imaginar que
aquele jovem que trabalhava ao meu lado pediria  e at exigiria  que eu estudasse a
Bblia com ele, a comear naquela mesma noite. Eu no sabia dos srios problemas que
atormentavam a vida de Roger Morneau enquanto ele trabalhava com sua mquina
naquela manh, em Montreal, no Canad".
       Aquela noite, quase sem dormir, poucos dias antes de conhecer Cyril, e aquela
orao de apenas uma frase que fiz logo ao amanhecer, de antemo haviam sido vistas
pelo Doador da vida, e Ele j estava preparado para me dar a ajuda de que eu mais
necessitava.
       Quando Cyril orou a Deus, falando de sua necessidade de incentivo para guardar o
sbado, e de seu desejo de compartilh-lo com algum, o Todo-Poderoso respondeu com
estas palavras: "Eu tenho, exatamente, esta pessoa para voc". Ento, o Esprito Santo
colocou-Se em ao, fazendo com que Cyril mudasse de emprego.
       E quando minha mente estava sendo to fortemente pressionada para tomar a mais
importante deciso de minha vida, Deus estava ali para me ajudar. O Seu Santo Esprito j
havia elaborado perfeitamente todos os detalhes  estou pensando, especificamente, em
Harry, meu patro judeu, com sua obsesso de saber a que Igreja Cyril pertencia, e o
pedido que me fez para ajud-lo a descobrir.
       Os temas bblicos que estudamos naquela noite de tera-feira deram-me uma viso
panormica das realidades eternas. O Esprito de Deus me abenoou com uma certeza tal
que no foi necessrio entrar em investigaes teolgicas profundas  coisas que teriam
requerido muito mais tempo para assimilar. Por encontrar-me em situao de crise, o meu
tempo no era meu para que eu o usasse a meu bel-prazer. Eu sabia que, mais cedo ou
mais tarde, teria um confronto com os espritos. A sensao que eu tinha era de que
estava vivendo em tempo emprestado.




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                                  CAPTULO 10
                               O Dia das Promessas


       Voc se lembra de que eu havia prometido dar ao sacerdote satanista minha
resposta sobre o meu ingresso na sociedade secreta, at aquela quarta-feira. Os espritos
haviam se comprometido a beneficiar minha vida de um modo muito especial. Mas, em
apenas dois dias, fiquei conhecendo algumas das grandes promessas da Palavra de Deus.
       Assim foi que, naquela quarta-feira, dirigi-me para o trabalho pensando nas
promessas, e o que deveria fazer com todas elas. Foi um dia muito srio. Eu me pus a
pensar mais e falar menos, enquanto mil e um pensamentos cruzavam minha mente.
Terminado o expediente,  cinco da tarde, resolvi para casa a p em vez de tomar o
bonde. Estava muito tenso para saborear qualquer alimento, e resolvi ficar sem jantar. Eu
teria que fazer um desagradvel telefonema ao meu amigo Roland para informar que, por
razes que eu no poderia mencionar naquele momento, no poderia ir  costumeira
sesso de louvor aos deuses naquela quarta-feira  noite, e que ele, por favor, dissesse ao
sacerdote que eu faria contato com ele logo que fosse possvel.
       Enquanto andava sem pressa pela Rua Bleury, no sentido norte, passei em frente a
vrias lojas, sem lhes dar nenhuma ateno. Mas, por uma razo que no consigo explicar,
dei uma rpida olhada atravs de uma vitrine. Andei mais ou menos uns dez metros,
quando tive o lampejo de que havia visto uma Bblia. Voltei e olhei de novo. Ali estava, na
frente de todos os objetos usados  venda, uma Bblia nova.
       O nome da loja era algo parecido com "Penhoras e Pechinchas do Samuel". Por trs
da Bblia, havia um cartaz pintado  mo, que dizia: "Bblia em promoo especial, hoje.
Entre para uma verdadeira pechincha".
       Entrei e fui avanando devagar atravs da loja cheia de gente. Os objetos estavam
amontoados nos balces de ofertas e era difcil encontrar espao para andar entre eles.
Armrios com ternos para homens ocupavam grande parte da sala, enquanto guitarras e
todo tipo de instrumentos musicais pendiam no teto. Cartazes e mais cartazes promoviam
pechinchas e mais pechinchas.
       Um velho de pequena estatura se aproximou de mim e disse:
        Posso ajud-lo?
        Estou interessado na Bblia em promoo que est na vitrine. Quanto o senhor
quer por ela?
        Sim, a Bblia. J vou busc-la para voc.
        Senhor, no v busc-la. Eu s quero saber o preo, pois no tenho muito
dinheiro.
       Mas ele foi assim mesmo.
        Voc tem o suficiente para comprar esta Bblia, tenho certeza. Faz uma hora que
a coloquei na vitrine. Eu a coloquei em oferta especial.
       Ele no parava de falar, e eu me esforava para ser corts, devido  idade dele.
        Se voc quiser uma Bblia por um bom preo, nunca v a uma loja de Bblias.
Procure sempre um lugar como eSt.
       A esta altura, ele j havia ido e voltado, passando por todas as bugigangas sem
derrubar nenhuma. Ele deve ter sido um acrobata em sua juventude, pensei. Colocando-a
em minhas mos, ele disse:
         linda, no  mesmo?


57
         Quanto custa?  eu insisti.
         Voc no ter que pagar o preo normalmente elevado das lojas de Bblias. O
preo de uma Bblia dessa, provavelmente, seria quinze dlares, ou mais. Deixe-me
mostrar por qu.
        Ele abriu no Novo Testamento, e continuou:
         Eu no entendo muito de Bblias, mas sei que as que tm algumas partes
impressas em vermelho, como esta, so as melhores.
        Novamente, tentei perguntar quanto ele queria pelo livro, mas ele me venceu mais
uma vez.
         Eu j estava decidido a colocar um bom preo nesta Bblia, mas, quanto mais
converso com voc, mais baixo fica o preo.
         timo. Continue conversando at chegar a um dlar e cinquenta centavos, e eu
tirarei esse valor do meu bolso para pagar.
         Est vendida. D-me um dlar e cinquenta.
        Na realidade, no era essa a minha inteno, e comecei a explicar que eu no
queria me aproveitar dele e que ficaria contente em pagar o preo que ele achasse justo.
         No, eu no quero um centavo a mais. Quando coloco um preo, este  o preo.
        Enquanto eu lhe passava o dinheiro, ele disse:
          claro que no vou empacot-la para voc. Esse valor no pagaria nem o papel
do embrulho. Voc se importa de lev-la assim?
         Claro que no  respondi e fui saindo da loja.
        Ao sair, fechando a porta atrs de mim, parei, e entrei novamente. Um pensamento
estalou em minha mente.
         Algum problema?  perguntou o vendedor.
         Senhor, esse foi um dos negcios mais incomuns que eu j fiz. Diga-me a
verdade, por que o senhor me vendeu esta Bblia dessa maneira? Parecia que o senhor
queria se ver livre dela?
        Olhando diretamente para os meus olhos, ele respondeu:
         Filho, esta , sem dvida, uma Bblia roubada. Ela entrou aqui juntamente com
outros objetos que dois jovens me venderam. At aquele momento, eu estava tendo um
bom ms de vendas, mas, uma hora antes de voc entrar aqui, ocorreu-me que foi
exatamente depois de haver comprado esta Bblia que os negcios pioraram.
Imediatamente, a coloquei em promoo na vitrine. Leve-a, filho, v para casa, tenha uma
boa leitura e que Deus o abenoe.
        Nesse mesmo instante, lembrei-me da passagem de Hebreus 4:15 e 16, e dizendo
"Muito obrigado!", sa da loja. Que alegria senti no corao ao andar pela rua com minha
Bblia nova de baixo do brao. No me havia sentido assim desde o tempo em que era
mais jovem. Era como uma nuvem de tristeza que estivera a me cobrir e que, agora, era
levada embora pelo vento. Na realidade, eu me senti to bem que o apetite voltou. Ao
passar diante de uma lanchonete de judeus, resolvi comprar um sanduche para comer em
casa. No pouco tempo que ainda me restava antes de ir  casa de Cyril a fim de continuar
os estudos bblicos, eu aproveitaria, tambm, para ler a Bblia.
        Aconteceu, ento, alguma coisa que intensificou ainda mais o meu interesse pelo
livro de Hebreus.
        Quando entrei em meu apartamento, percebi que era mais tarde do que eu
imaginava. Rapidamente, coloquei a Bblia sobre a minha cadeira de balano e me virei
para levantar as persianas de uma janela. Ao fazer isso, empurrei a cadeira com o meu
cotovelo fazendo com que a Bblia casse. "Oh, no", exclamei, "minha Bblia nova no

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cho!"
        Ela caiu aberta, com o captulo sete de Hebreus virado para cima. "Este, no
entanto, porque continua para sempre, tem o Seu sacerdcio imutvel. Por isso, tambm
pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder
por eles" (Hebreus 7:24,25). Meus olhos se moveram um pouco, e li mais adiante: "Ora, o
essencial das coisas que temos dito  que possumos tal Sumo Sacerdote, que Se
assentou  destra do trono da Majestade nos Cus, como ministro do santurio e do
verdadeiro tabernculo que o Senhor erigiu, no o homem" (Hebreus 8:1,2).
        Atravs desses textos, eu ouvi Jesus declarar-Se um Redentor vivo, amoroso e
poderoso, capaz de salvar completamente aqueles que buscam a Deus atravs dEle. E isso
inclua Seu poder de controlar [restringir] os demnios.
        Enquanto me dirigia  casa do casal Gross, li a Epstola aos Hebreus inteira. E, ao
voltar para casa, eu a li novamente. Quando cheguei em casa, eu a li pela terceira vez.
        O livro de Hebreus me fascinou. Ele me mostrou que a intercesso de Cristo em
favor do homem, no santurio do Cu,  to essencial  salvao como o foi Sua morte
sobre a cruz. Isso causou uma profunda impresso sobre a minha mente.
        Eu vi Jesus como algum que ama os indignos de amor. Como algum que  capaz
de consertar tudo. Percebi que o Senhor da glria permitiu que os homens O pregasse
numa cruz "para que, por Sua morte, destrusse aquele que tem o poder da morte, a
saber, o diabo" (Hebreus 2:14). Agora, eu entendia que a minha nica esperana era
colocar minha confiana nos mritos do sangue dAquele que  poderoso para salvar todos
os que O buscam.
        Dos quatro temas estudados naquela quarta-feira  noite, na casa de Cyril, um
destaca-se acima dos outros. Seu ttulo: "O destino dos mpios".
        A esta altura, a Bblia j havia me revelado o Doador da vida como um Deus de
amor, que amou "ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unignito, para que todo
aquele que nEle cr no perea, mas tenha a vida eterna" (Joo 3:16). Esse fato foi
reforado por duas passagens bblicas adicionais, de uma maneira que eu nunca mais
esqueceria. Primeira: Deus no enviou o Seu Filho ao mundo para conden-lo, mas para
salv-lo (Joo 3:17). Segunda: Deus quer salvar todos os homens (I Timteo 2:4). Desta
maneira, descobri que  o amor que move Deus em todas as Suas relaes para com a
humanidade.
        Eu me perguntava: "Que faria Deus com aqueles que rejeitassem a Sua oferta?
Transformaria-Se no tipo oposto, isto , passaria a encontrar prazer em tortur-los
eternamente, como a maioria dos cristos parecia crer?" Eu estava curioso para ver o que
a Bblia tinha a dizer sobre isso.
        Nosso estudo se concentrou, primeiramente, na origem do mal, seu autor, e o que
Deus far com ele depois que o pecado chegar ao seu fim. No livro do profeta Isaas est
escrito: "Como caste do Cu,  estrela da manh [Lcifer], filho da alva" (Isaas 14:12).
Ezequiel descreve o elevado intelecto de Lcifer e a exaltada posio que ele teve no
governo de Deus: "Assim diz o Senhor Deus: Tu s o sinete da perfeio, cheio de
sabedoria e formosura. Estavas no den, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te
cobrias... Tu eras o querubim da guarda ungido, e te estabeleci... Perfeito eras nos teus
caminhos, desde o dia em que fostes criado at que se achou iniquidade em ti" (Ezequiel
28:12-15).
        Lcifer deixou de admirar a beleza do carter de Deus para admirar a si mesmo.
"Elevou-se o teu corao por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por
causa do resplendor" (Ezequiel 28:17). Ele multiplicou por muitas vezes os seus interesses

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prprios at que chegou o momento em que optou por um curso de ao que, na opinio
dele, o colocaria em condio de igualdade com Deus e superior a Cristo.
        Isaas complementa: "Tu dizias no teu corao: Eu subirei ao Cu; acima das
estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregao me assentarei, nas
extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao
Altssimo" (Isaas 14:13,14).
        Interessantes como possam ser as aluses bblicas  rebelio de Satans, o que
mais prendeu minha ateno foi o que Deus far com esse querubim e seus anjos cados
depois de eles haverem demonstrado o seu verdadeiro carter perante o Universo.
        Ezequiel declara: "Eu [Deus], pois, fiz sair do meio de ti um fogo que te consumiu,
e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os povos que te contemplam... vens
a ser objeto de espanto e nunca jamais subsistirs" (Ezequiel 28:18,19). O Doador da vida
dar fim ao autor do pecado e da morte. O diabo nunca mais existir.
        Aps ler essa passagem da Escritura pela primeira vez, pensei comigo mesmo e
depois disse ao casal: "Como podem alguns telogos cristos pregar que Satans ter vida
eterna em um lago de fogo, quando a Bblia ensina to claramente o contrrio?"
        A Senhora Gross explicou que eu no deveria ficar assim to surpreso. Um tero
dos anjos, seres de elevado intelecto, ficaram to confundidos no Cu que tomaram
posio ao lado de Lcifer, at sob risco de sua runa eterna (ver Apocalipse 12:4,9).
        Ento, vimos o que a Bblia tem a dizer sobre o destino eterno dos mpios. Salmos
37:20 declara que "os mpios... perecero, e os inimigos do Senhor sero como o vio das
pastagens; sero aniquilados e se desfaro em fumaa". Essa passagem indica,
claramente, a extenso da destruio daqueles que houverem rejeitado a misericrdia de
Deus e persistido em sua auto-destruio.
        Em minha mente, voltei aos dias de minha infncia. Era costume das pessoas que
moravam no campo, naquele tempo, fabricar sabo caseiro. Meu pai, geralmente, fazia
isso nos meses frios de inverno, quando era mais confortvel trabalhar com fogo. Era
preciso derreter grandes quantidades de gordura animal e ferv-las por muitas horas
sobre um fogo a lenha, no galpo.
        Meu irmo Edgar e eu nos divertamos lanando pedaos de gordura animal sobre o
fogo barulhento. Gostvamos de observar quanto tempo essa substncia levava para
queimar e desaparecer.
        Assim, tambm, a Bblia declara que,  semelhana da gordura no fogo, Deus
erradicar da face do nosso planeta todos os mpios e todos os vestgios do pecado.
        Finalmente, encerramos nosso estudo com a leitura e reflexo de uma passagem
que descreve a recompensa dos mpios: "Pois eis que vem o dia e arde como fornalha;
todos os soberbos e todos os que cometem perversidade sero como o restolho; o dia que
vem os abrasar, diz o Senhor dos Exrcitos, de sorte que no lhes deixar nem raiz nem
ramo... Pisareis os perversos, porque se faro cinzas debaixo das plantas de vossos ps,
naquele dia que preparei, diz o Senhor dos Exrcitos" (Malaquias 4:1-3).
        Cyril afirmou que o grande Monarca do Universo, embora seja um Deus de amor, 
um Deus de justia, ao mesmo tempo. No devemos esquecer que, enquanto o elemento
amor controla o Seu ser, aqueles que rejeitam o Seu amor e o Seu infinito sacrifcio
atravs da morte de Seu Filho no Calvrio, tero trazido condenao sobre si mesmos.
Carregaro sobre si a culpa de rejeitar o Esprito da graa.
         Vir o dia  continuou Cyril  quando Deus executar a sentena de morte que as
pessoas tero trazido sobre si mesmas. Ser morte eterna, "porque o salrio do pecado 
a morte" (Romanos 6:23).

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        Foi a que compreendi que a doutrina do tormento eterno, pregada em muitos
plpitos cristos, tem contribudo para que Deus seja expulso da mente e da vida de
centenas de milhares de pessoas. Nos anos de minha juventude, eu tambm cara vtima
desse sofisma.
        Compreendi tambm que, para se obter uma correta compreenso do estudo sobre
o destino dos mpios  luz da Palavra de Deus,  preciso comear com o fato de que a lei
do amor  prprio fundamento de Seu governo. Dessa premissa, se originam todas as
aes de Deus para com as pessoas que Ele criou. Portanto,  impossvel crer na doutrina
do tormento eterno. Esse estudo contribuiu especificamente para remover de meu corao
tudo o que me havia tornado amargurado com relao a Deus.
        Posteriormente, Cyril me explicou que os milhares de anos de sofrimento da
humanidade so o resultado direto das aes de Lcifer no Cu, quando iniciou a sua
grande rebelio. Pela exaltada posio que ele ocupava no governo de Deus, as
pretenses e reivindicaes por ele postuladas adquiriram grande fora e substncia.
Escondeu em mistrio os seus reais objetivos. Os habitantes do Cu no visualizaram os
resultados finais. A presena do pecado intrometeu-se em cada departamento do governo
divino. Lcifer cobiou a honra e o poder que cabiam somente a Deus.
        Os anjos do Cu e os habitantes do Universo no podiam compreender a natureza
do pecado e as suas consequncias finais. Para o bem de todos, Deus optou por deixar
que  com o passar do tempo suficiente  Lcifer e seus associados manifestassem
atravs de seus maus atos, a extrema gravidade do mal e a malignidade do pecado. Os
habitantes do Universo tm observado, com silencioso horror, as aflies da humanidade.
Os acontecimentos por eles observados tm gravado em suas mentes uma impresso
inaltervel.
        Encantado com a descrio de Cyril sobre o grande conflito espiritual, eu poderia
ouvi-lo por muitas horas, mas ele no quis dar-me uma "indigesto espiritual" (palavras
dele). Depois de um detalhe final, dirigiramos nossa ateno a outra coisa.
         Quando todos os vestgios do mal forem varridos da face deste pequeno planeta
 disse Cyril  e Cristo recri-lo com beleza superior  sua beleza original, ento, a vasta
criao de Deus vibrar com um s pulso de harmonia e felicidade. Que eternidade
maravilhosa no h de ser!
        O modo como Cyril e Cynthia descortinaram diante de mim a realidade do grande
conflito espiritual travado entre as foras do bem e do mal, me impressionaram com o fato
de que o Santo Esprito de Deus estava trabalhando  e vinha trabalhando de maneira
poderosa e maravilhosa atravs dos anos  para trazer-me precisamente quele lugar
onde eu estava, naquela noite.
        Lembro-me de ter dado uma olhada no meu relgio  j eram 9:20 da noite. Se
no fosse a interveno do Esprito de Deus em meu favor, eu estaria naquele momento
conversando com adoradores de demnios. Agora, porm, eu estava desfrutando o
bendito privilgio de segurar uma Bblia e havia tomado a firme deciso de romper com a
adorao aos demnios, com a ajuda de Deus. Naquele exato momento, s o pensar em
tudo isso fez subir um calafrio atravs de minha espinha dorsal e meus braos se
arrepiaram.
        Ao concluirmos o estudo sobre o destino dos mpios, mencionei ao casal Gross
que, no tempo em que estivera a memorizar os catecismos catlicos, eu havia encontrado
muitas expresses da Bblia Sagrada, usadas em alguns livros como apoio ao suposto
castigo eterno dos mpios. Eu podia lembrar de palavras como "fogo eterno", "castigo
eterno" e "a fumaa do seu tormento sobe pelos sculos dos sculos".

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        Os meus anfitries admitiram que a Bblia tem de fato frases semelhantes e que,
para examinar o seu correto significado, seria necessrio um estudo especfico sobre o
tema  que certamente seria longo, porm gratificante. Ocorreu que ns fizemos esse
interessante estudo trs dias depois, como relatarei logo adiante. Tal estudo foi conduzido
pelo Pastor L.W. Taylor.
        Quando fui dormir naquela noite, ao voltar dos estudos bblicos, percebi que os
espritos haviam visitado o meu apartamento. E na sexta-feira, ao chegar em casa, tive
consciente certeza de que os espritos estavam tentando dizer-me alguma coisa.




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                                  CAPTULO 11
                                 O Sbado Bblico


        Eu havia prometido ao meu patro que descobriria as razes por que Cyril guardava
o sbado bblico. Para poupar espao, vou omitir os estudos bblicos que tivemos na
quinta e sexta-feiras, exceto o estudo sobre o sbado.
        De incio, Cyril afirmou que as Escrituras Sagradas falam do sbado bblico como
sendo o stimo dia da semana.
         Na realidade, o quarto mandamento do Declogo, escrito pelo prprio Deus,
recomenda que nos lembremos de guardar o dia de sbado. O chamado a lembrar se
deve, provavelmente, ao fato de que os homens tm, talvez por causa de suas muitas
atividades dirias, a tendncia de esquecer at algumas das coisas mais importantes da
vida.
        Abrimos, ento, as nossas Bblias e juntos lemos o quarto mandamento: "Lembra-te
do dia de sbado para o santificar. Seis dias trabalhars e fars toda a tua obra. Mas o
stimo dia  o sbado do SENHOR, teu Deus; no fars nenhum trabalho, nem tu, nem o
teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o
forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os cus, a
terra, o mar e tudo o que neles h e, ao stimo dia, descansou; por isso, o SENHOR
abenoou o dia de sbado e o santificou" (xodo 20:8-11).
        Fiquei admirado ao descobrir que o mandamento que ordena observar o dia que
Deus abenoou era bem diferente daquele do catecismo catlico, com o qual eu estava
acostumado. Na verdade, imediatamente, eu disse ao casal Gross:
         Estes no so os mandamentos que eu memorizei quando pequeno.
        E continuei lendo, no mesmo captulo: "Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da
terra do Egito, da casa da servido. No ters outros deuses diante de Mim. No fars
para ti imagem de escultura, nem semelhana alguma do que h em cima nos cus, nem
embaixo na terra, nem nas guas debaixo da terra. No as adorars, nem lhes dars
culto; porque Eu sou o SENHOR, teu Deus..." (xodo 20:2-5).
         Na realidade, eu li todos os Dez Mandamentos e achei-os muito mais minuciosos
do que as verses dos catecismos que eu havia conhecido.
          difcil crer que estes so os mandamentos de Deus  deixei escapar.
        Cyril, usando de fineza e, ao mesmo tempo, sem lhes diminuir a solenidade, disse
que esses eram de fato os mandamentos que Deus havia dado aos hebreus atravs de
Moiss. Ele afirmou, ento, na forma de uma pergunta que abriu e escancarou a questo
diante da minha mente:
         Roger, no quero dar a impresso de um metido e convencido, mas seria possvel
que os mandamentos com os quais voc se familiarizou sejam mandamentos de algum
outro deus?
        Ento, como que por iluminao, minha mente visualizou a assim chamada "sala de
adorao aos deuses": o querubim cado, o deus dos demnios, havia em eras passadas
conspirado contra os mandamentos de Deus para desencaminhar a famlia humana.
Imaginei, ento, os habitantes do mundo inteiro sendo enredados pelo artista-mestre do
engano.
        Voltando ao estudo do sbado bblico, fiquei abalado com a grande nfase que o
Senhor colocou sobre o stimo dia da semana como o dia a ser honrado. "E, havendo


63
Deus terminado no dia stimo a Sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a Sua
obra que havia feito. E abenoou Deus o dia stimo e o santificou, porque nele descansou
de toda a obra que, como Criador, fizera" (Gnesis 2:2,3).
       Um ponto que, da maneira mais vvida, impressionou minha mente com a
solenidade e santidade que o Criador imprimiu ao sbado foi que, durante quarenta anos,
o Senhor alimentou diariamente os israelitas, exceto aos sbados. "Ento, disse o SENHOR
a Moiss: Eis que vos farei chover do cu po, e o povo sair e colher diariamente a
poro para cada dia, para que Eu ponha  prova se anda na Minha lei ou no. Dar-se-
que, ao sexto dia, prepararo o que colherem; e ser o dobro do que colhem cada dia...
Seis dias o colhereis, mas o stimo dia  o sbado; nele, no haver" (xodo 16:4,5,26).
       Foi interessante notar como o Senhor procurou impressionar os hebreus com a
santidade do Seu sbado. E, ao lermos o relato da experincia com o man, no pude
conter o riso ao constatar que alguns persistiram em suas dvidas sobre se Deus,
realmente, queria dizer o que havia dito. "Ao stimo dia, saram alguns do povo para o
colher, porm no o acharam" (xodo 16:27).
       Aps termos dado ateno ao que Moiss e os profetas tinham a dizer sobre a
questo do sbado, ns nos voltamos para o Novo Testamento para descobrir como Jesus
e Seus primeiros discpulos se relacionaram com o sbado. Falando de Jesus, o Evangelho
de Lucas afirma: "Indo para Nazar, onde fora criado, entrou, num sbado, na sinagoga,
segundo o Seu costume" (Lucas 4:16). Jesus declarou que ao povo judeu que Ele  o
Senhor do sbado (Marcos 2:28).
       O Senhor do sbado nunca teve a inteno de que a santa lei de Seu Pai fosse
jamais mudada. Por exemplo, no Seu sermo da montanha Ele no deixou nenhuma
incerteza sobre o slido fundamento em que se assenta a santa lei de Deus: "No penseis
que vim revogar a lei ou os profetas, no vim para revogar, vim para cumprir ["cumprir"
no original grego, vem da raiz "pleroos", que significa "dar o sentido completo"]. Porque
em verdade vos digo: at que o cu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais
passar da lei, at que tudo se cumpra" (Mateus 5:17,18).
       Consideramos tambm os relatos bblicos dos primeiros discpulos e sua
observncia do sbado. Depois de lermos muitos textos na Palavra de Deus sobre a
observncia do sbado da criao, perguntei a Cyril se ele sabia como os cristos vieram a
observar o primeiro dia da semana, o domingo, como o seu dia de repouso.
       Ele respondeu que a Igreja Catlica Romana afirmava ter efetuado a mudana, em
sculos passados, atravs do poder que Deus lhe concedeu.
        Na realidade, a Igreja Catlica no se importa que as pessoas saibam que ela
mudou os mandamentos de Deus.
       No domingo seguinte, me dirigi a Biblioteca Municipal de Montreal para fazer uma
pequena investigao no departamento de religio. No demorou muito, encontrei um
catecismo catlico datado de 1930. Nele estavam os seguintes comentrios, classificados
como o terceiro mandamento:

       Pergunta  Qual o terceiro mandamento?
       Resposta  O terceiro mandamento  "Lembra-te de guardar o santo dia do sbado".
       Pergunta  Que dia  o sbado?
       Resposta  O sbado  o sbado.
       Pergunta  Por que ns guardamos o domingo em vez do sbado?
       Resposta  Ns guardamos o domingo em vez do sbado porque a Igreja Catlica transferiu
a solenidade do sbado para o domingo.

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         Pergunta  Por que a Igreja Catlica substituiu o sbado pelo domingo?
         Resposta  A Igreja substituiu o sbado pelo domingo porque Cristo ressurgiu dentre os
mortos num domingo e o Esprito Santo desceu sobre os apstolos num domingo.
         Pergunta  Com que autoridade a Igreja substituiu o sbado pelo domingo?
         Resposta  A Igreja substituiu o sbado pelo domingo com a plenitude do poder divino que
lhe foi concedido por Jesus Cristo.
         Pergunta  O que nos ordena o terceiro mandamento?
         Resposta  O terceiro mandamento nos ordena santificar o domingo como o Dia do
Senhor".

       Impressionado com minhas descobertas, decorei a seo toda. No incio da dcada
de 1950, adquiri uma cpia desse mesmo catecismo e a conservo em grande estima.
       Minha primeira tarefa era trazer ao meu patro judeu uma explicao das
convices religiosas de Cyril, mas agora minha segunda tarefa era descobrir como e onde
os cristos se tornaram to envolvidos com o domingo. Isto eu investiguei nos meses
seguintes e obtive algumas descobertas surpreendentes.
       Alm do interesse de meu patro no sbado de Cyril e a minha recm-adquirida
curiosidade, houve outros que tambm foram despertados pelo assunto: os espritos
demonacos. Na noite do sbado seguinte, quando voltei para casa, eles procuraram
restabelecer contato comigo (ver o Captulo 1).
       Naquela sexta-feira  noite, ao concluirmos o estudo sobre o sbado, o casal
Gross me convidou para ir  igreja com eles no dia seguinte. Cyril explicou que ele seria,
ento, batizado por imerso e se tornaria um membro da Igreja Adventista do Stimo Dia.
Combinamos que eu viria at a residncia deles e dali iramos juntos  igreja.




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                                CAPTULO 12
                          Novo Amanhecer e Nova Vida


       Sbado de manh, ao chegar na residncia do casal Gross, descobri que seramos
acompanhados at  igreja por mais dois amigos. Aps ser apresentado a eles por Cyril e
Cynthia, conversamos um pouco e, como era meu costume, tirei do bolso minha carteira
de cigarros e os ofereci a eles, mas eles recusaram com cortesia.
       Ento, pensei que bem poderia ser que os adventistas no fumassem. Poucos
momentos depois, ao sairmos da casa, perguntei a Cyril sobre isso. Ele disse que os
adventistas so muito conscienciosos no que diz respeito  sade; no como um meio de
obter o favor de Deus, mas no prprio interesse da sade. As pessoas saudveis gozam
mais a vida. Ele mencionou tambm que um dos prximos estudos bblicos teria como
assunto o viver saudvel, no qual so apresentados os benefcios da abstinncia do fumo.
       Imediatamente, garanti a ele que eu no fumaria na presena dos membros da
igreja naquele dia. Ento, pensei comigo: "Em que me meti! Como vou fazer isso?" Senti-
me agradecido, ao mesmo tempo, porque o jovem casal no me disse, logo no incio, que
eu no deveria fumar. A minha dependncia, certamente, me haveria levado a recusar os
estudos com eles.
       Em uma data posterior, ao conversar com Cyril a respeito do fato de que o cigarro
de tal forma dominava a minha vida, e que eu, sem dvida, teria recusado os estudos se
eles tivessem trazido o problema  tona, ele disse que, depois que ele e sua esposa
oraram a respeito do assunto, eles se sentiram impressionados a tolerarem o meu vcio
com a inteno de me conduzir primeiro a Cristo.
       Naquele momento, eu no compreendia que Cyril e Cynthia estavam tentando
reconciliar Roger Morneau com o Doador da vida. O Esprito de Deus, porm, os estava
dirigindo.
       Por exemplo, quando prometi, naquela manh de sbado, que no fumaria na
presena dos membros da igreja, ele se alegrou por ver as oraes deles respondidas.
Antes de me convidarem para ir  igreja com eles, haviam pedido que o Senhor
abenoasse minha vida de um modo especial. Eles pediram dois milagres.
       Primeiro, que eu visse e apreciasse a santidade do sbado bblico. Se isto
acontecesse, ento eles me convidariam para ir  igreja junto com eles. Se eu aceitasse o
convite, eles o tomariam como sinal de que Deus estava operando um milagre de
redeno. E segundo, que Ele tirasse de mim a vontade de fumar.
       Como Deus respondeu maravilhosamente s oraes deles! O pensamento de
fumar no entrou em minha mente seno depois das sete horas daquela noite. Ento, por
duas horas, meu corpo experimentou uma agonia que eu nunca havia sentido antes,
levando-me  concluso de que eu necessitava mesmo de um Salvador  Algum que
realizasse um milagre de amor, removendo o Sr. Nicotina que havia se entronizado em
cada fibra de meu corpo.
       Foi uma linda manh de sbado, naquele dia de outubro de 1946, em Montreal,
Canad. A natureza se revestia de beleza e de vida, o ar estava fresco, e os lindos raios do
Sol, ao atravessarem as rvores, banhavam a terra com milhares de beijos de amor. A
cidade parecia estar mais feliz naquele dia e, por todos os lados, era visvel a evidncia de
um Deus amoroso a cuidar de tudo. Tendo na mente alguns versos bblicos, memorizados
recentemente, sobre o sbado da criao, senti que aquele dia tinha um novo significado


66
para mim.
        Eu, um esprita, indo com os guardadores do sbado a uma igreja adventista. Meus
amigos ainda no eram conhecedores do fato de que eu estava lentamente saindo das
fileiras do querubim cado, seu mais feroz inimigo. Fazia poucos dias que eu tivera meu
ltimo contato com os demnios.
        Ao nos aproximarmos da igreja, vi, para a minha surpresa, que quase todas as
pessoas nas caladas se dirigiam ao santurio. Algum, gentilmente, deu-me as boas-
vindas  Escola Sabatina e tambm uma cpia do boletim da igreja. Ali por perto vi um
estande contendo peridicos e folhetos. Aproximei-me e peguei um livreto. Entrando na
igreja, senti-me impressionado ao ver tantas pessoas.
        Depois de nos assentarmos, comecei a ler o livreto ao som de uma msica suave. O
impresso trazia muitas informaes detalhadas sobre as instituies da igreja local e suas
vrias reas de atividades.
        O programa da Escola Sabatina iniciou-se com amveis palavras de boas-vindas. Os
momentos que antecederam o estudo da Palavra de Deus foram especialmente ricos em
inspirao e informao para uma pessoa que estivesse visitando uma igreja adventista
pela primeira vez. O que vi foi um povo dedicado a ser uma bno aos seus semelhantes.
        Em quarenta minutos, foi feito o estudo da Bblia. O Pastor L.W. Taylor dirigiu a
lio na classe das visitas. A lio do dia focalizava a vida de Cristo. O tema central
envolvia o conceito de que Jesus de Nazar, ao viver sobre a Terra, pautou Sua vida pelos
princpios da Palavra de Deus, deixando-nos um exemplo digno de imitao. O Pastor
Taylor fez uma declarao da qual me lembro at hoje: "Se seguirmos o exemplo de nosso
Senhor, teremos paz, contentamento e sabedoria, que o mundo no pode nem dar e nem
tirar".
        Essas palavras no poderiam ter vindo em ocasio melhor. Os estudos bblicos dos
poucos dias anteriores, culminando com o do sbado bblico, haviam me levado a desejar
entregar minha vida a Cristo e a observar o sbado.
        O servio de adorao das 11 horas foi uma inspirao e culminou com uma
cerimnia batismal. Um deles, a ser batizado, era o meu novo amigo Cyril.
        Quando ele voltou, eu disse que  se Deus quisesse  eu estaria de novo na igreja,
no sbado seguinte. Disse tambm que gostaria de falar com o Pastor Taylor, se houvesse
uma oportunidade.
        Ao sairmos da igreja, no pude seno agradecer ao casal Gross por sua amvel
ateno. Naquele momento, eles no podiam entender exatamente quantas bnos
haviam trazido  minha vida. O Esprito de Deus os havia utilizado como Seus
instrumentos para trazer-me a um osis espiritual, onde Cristo  o mesmo que chamou 
existncia toda a beleza que eu contemplara nas mltiplas cores das folhas daquele lindo
dia de outono  haveria de me regenerar.
        s 2:30 daquela tarde, o Pastor Taylor chegou e, passado algum tempo, nossa
conversa se voltou para questes religiosas. Mencionei que havia estado a estudar a Bblia
durante aquela ltima semana. Ele perguntou quantos e quais temas havamos estudado.
        Aps enumerar alguns dos tpicos, comentei que havamos feito vinte ou mais
estudos bblicos. Lembro-me daquele momento como se fosse ontem. Os olhos do pastor
se arregalaram de surpresa, e ele perguntou se havia ouvido corretamente.
        Quando viu que ouvira bem, ele disse: "Importa-se em me contar o que o levou a
estudar tanto?"
        No momento, no consigo trazer  lembrana a exata razo que eu dei. Lembro-me
de ter ficado surpreso com o espanto dele ao ouvir quantos assuntos havamos estudado.

67
Eu pensava que qualquer um, ao se encontrar com a verdade bblica, como eu fizera,
estudaria as Escrituras de maneira semelhante.
       Naquela noite, antes de voltar para casa, o casal Gross esclareceu algumas coisas
para mim. Fazia algum tempo que alguns membros da igreja haviam manifestado
interesse em aprender como compartilhar suas convices religiosas com pessoas de
outras crenas. Eles pediram que o pastor lhes desse algumas aulas de treinamento.
       O Pastor Taylor lhes havia aconselhado a usarem moderao ao estudarem com
pessoas no familiarizadas previamente com a Bblia. Ele afirmara que o ideal seria
estudar a Bblia uma ou duas vezes por semana, para que o novo estudante tivesse tempo
para avaliar o que havia estudado. O pastor estava certo ao sugerir uma abordagem
cuidadosamente planejada, mas meu caso era uma exceo, e o Esprito de Deus havia
levado o casal Gross a fazer o que era mais apropriado para mim.
       Mencionei ao Pastor Taylor a profunda impresso gravada em minha mente por
minha visita  igreja naquela manh. Ento, perguntei por que as outras Igrejas
protestantes no observam o sbado bblico, j que Deus prescreveu a sua observncia
como um meio de obter uma bno especial que Ele no colocou sobre nenhum outro
dia da semana.
       O Pastor Taylor comeou sua resposta dizendo que a Igreja Adventista do Stimo
Dia , na realidade, uma Igreja prevista profeticamente. Assim como Deus chamou Joo
Batista para falar ao povo de seus dias que o Redentor da humanidade estava entre eles
(este povo havia perdido de vista as profecias messinicas), assim tambm Ele levantou a
Igreja Adventista para ser uma moderna voz a clamar no deserto.
       Com relao a muitas Igrejas protestantes no observarem o sbado bblico, Taylor
explicou que Deus no fora seus caminhos para as pessoas. Pelo contrrio, Ele deseja de
todos um servio de amor, uma homenagem que brote de uma inteligente apreciao de
Seu divino carter. Ele no tem prazer em uma lealdade forada e, por essas razes,
concede liberdade de escolha a todos, para que todos possam responder voluntariamente.
       Depois de conversarmos um pouco mais, percebi que me seria impossvel continuar
guardando em segredo a minha experincia com a adorao aos espritos. Diante do meu
profundo interesse em questes espirituais, era bvio para o Pastor Taylor que algum
poderoso fator de motivao estava por trs de tudo. Mesmo estando relutante em falar
sobre a minha associao com os demnios, achei que, tendo decidido romper com aquele
poder maligno, o pastor poderia dar-me uma preciosa orientao.
       Aps revelar minhas atividades como esprita, o Pastor Taylor dirigiu minha ateno
para Jesus Cristo, a Fonte de toda a vida e de todo o poder. Ele afirmou que "nEle habita,
corporalmente, toda a plenitude da Divindade. Tambm, nEle, estais aperfeioados. Ele 
o cabea de todo principado e potestade" (Colossenses 2:9,10). E citou vrios textos
bblicos que demonstram o poder do Redentor sobre Satans e os demnios.
       Senti-me encorajado ao descobrir que todas as foras, incluindo o querubim cado e
seus associados, devem a sua prpria existncia a Cristo, e isso me foi de grande ajuda
naquela mesma noite, num encontro que tive com os espritos.
       Agora, eu procurava uma oportunidade para pedir que ele explicasse algumas
expresses bblicas usadas pelos pregadores da imortalidade do homem. No foi preciso
esperar muito. Quando ele perguntou se eu tinha mais dvida, mencionei, rapidamente,
algumas descobertas ao estudar a Palavra de Deus naquela semana. Disse que o nosso
estudo havia me revelado a condio completamente mortal do homem, ao contrrio da
crena popular de que, ao morrer, sua alma imortal entra em sua recompensa ou em seu
castigo. A Bblia declara que somente Deus tem a imortalidade. Havamos lido muitas

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passagens bblicas que ensinam que o Senhor dar a imortalidade aos redimidos por
ocasio da ressurreio dos justos. Os mpios (lembrando que eles no possuem a
imortalidade) deixaro de existir, uma vez executada a sentena de sua punio. Em que
pese o fato de a Palavra de Deus afirmar claramente que os mpios perecero totalmente,
algumas passagens das Escrituras parecem indicar o oposto.
        Ao memorizar os catecismos catlicos, quando era menino, eu encontrava
expresses que davam suposto apoio ao castigo infindvel dos mpios. Ainda me lembro
de alguns trechos como "fogo eterno", "castigo eterno", "o fogo do seu tormento sobe
para todo o sempre". Eu gostaria, Pastor Taylor, que o senhor esclarecesse essa aparente
contradio.
       Senti uma profunda satisfao quando ele afirmou que no havia contradio, mas
uma falta de compreenso por parte daqueles que acariciam a doutrina da alma imortal.
Ele explicou que muitas pessoas compreendem mal o significado da palavra castigo. Elas o
definem como um sofrimento consciente, e creem que, quando os rgos dos sentidos
no percebem mais nenhuma aflio, deixa de ser castigo. Mas, se examinarmos as
penalidades humanas, veremos que avaliamos o castigo pelas perdas envolvidas, e no
apenas pela intensidade da dor infligida. Disse o pastor:
        Por exemplo, por que se considera a pena de morte como o maior castigo? No 
porque a dor envolvida seja a mais intensa, pois as formas de tortura, tais como os
aoites, produzem mais dor do que a decapitao ou o enforcamento. Ns, porm, a
consideramos o maior castigo por ter efeitos mais permanentes. A vtima fica destituda,
de uma s vez, de todos os vnculos e bnos da vida, e a extenso da pena  estimada
pela existncia que a pessoa teria usufrudo. Assim acontece quando a penalidade da
morte, da qual no h escape,  aplicada, isto , no h ressurreio. A segunda morte
priva o pecador dos brilhantes e infindveis anos da eternidade. Assim como a vida dos
redimidos  eterna, assim tambm  a perda, ou o castigo, dos mpios.
        Pastor,  disse eu  estou gostando de sua maneira de tratar do assunto. No
quero fazer nenhuma imposio sobre a sua bondade, mas poderia, por favor, explicar-me
um pouco mais? Isso tem me incomodado por muito tempo.
       Ento, ele continuou:
        Nas Escrituras, a expresso "para sempre" e a palavra "eterna", por estarem
associadas com "fogo" e "castigo", simplesmente indicam os resultados produzidos pelo
fogo ou punio. No indicam o perodo de tempo do processo de queimar ou punir.
       Atentamente, assentei-me na beira da poltrona. Agitado, eu esperava para ouvir o
pastor fazer evaporar mais um dos meus temores de infncia.
        Alguma coisa errada?  perguntou o pastor, subitamente.
        Nada, no se preocupe. Eu estava apenas mudando minha posio. Por favor,
continue.
        Vou dar trs breves exemplos  disse o pastor, voltando ao tema.  Em Hebreus
5:9 encontramos a expresso "salvao eterna", isto , uma salvao que  eterna ou que
tem resultados eternos, e no um processo sempre em andamento que nunca chega ao
fim. Hebreus 6:2 fala de "juzo eterno". Novamente, no se trata de um juzo eternamente
em andamento, mas de um processo que, tendo passado a sentena sobre todos os
homens,  irreversvel em sua deciso e eterno em seus efeitos. E, por ltimo, Hebreus
9:12 fala de "eterna redeno" No uma redeno atravs da qual estamos eternamente
nos aproximando de um estado redimido que nunca alcanamos, mas uma redeno que
nos livra por toda a eternidade do poder do pecado e da morte.
       Taylor disse que quando a Bblia menciona "fogo eterno", refere-se a um fogo que

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produz resultados eternos, para sempre.
        Somos informados em Judas, verso 7, que as cidades de Sodoma e Gomorra
sofrem a vingana do "fogo eterno". O apstolo Pedro diz que Deus, "reduzindo a cinzas
as cidades de Sodoma e Gomorra... tendo-as posto como exemplo a quantos venham a
viver impiamente" (II Pedro 2:6).
       A maneira como a Bblia se explica a si mesma me deleitava. Eu nunca havia ouvido
algum discutir o assunto com tanta fluncia e conhecimento. Para cada palavra, o Pastor
Taylor apresentava claras referncias bblicas, no deixando nenhuma dvida quanto ao
amor e  bondade de Deus para com aqueles que Ele criou  Sua imagem.
       No entanto, no fundo de minha mente permanecia uma expresso profundamente
enraizada, plantada pela instruo religiosa de minha infncia. Por um momento, relutei
em traz-la  tona. Imaginei que ele no poderia dar uma explicao. De sbito, pensei
que, se ele me desse uma explicao, ficaria para sempre estabelecido em minha mente
que o Senhor , no mais completo sentido do termo, um Deus de amor.
        Pastor, o que a Escritura quer dizer com "a fumaa do seu tormento sobe pelos
sculos dos sculos"? (Apocalipse 14:11)
       Eu me acomodei mais confortavelmente naquele sof da sala de visitas, enquanto
esperava com ansiedade pela resposta.
       O Pastor Taylor, ento, explicou que as Sagradas Escrituras aplicam os termos "para
sempre" e "para todo o sempre" a coisas que duram por um longo tempo ou por por um
perodo indefinido de tempo. Por exemplo, a Bblia utiliza estes termos em referncia ao
sacerdcio dos judeus, s ordenanas de Moiss,  possesso da terra de Cana, aos
montes e as montanhas,  terra, e ao tempo de servio a ser prestado por um escravo.
        Qualquer um dos termos denota durao ou continuao de tempo, sendo sua
extenso determinada pela natureza dos objetos aos quais se refere. Quando se refere a
coisas que sabemos, por outros textos das Escrituras, no terem fim, significa a
eternidade de ser. Mas quando se aplica a algo que h de cessar, seu significado se torna
correspondentemente limitado.
       Ele ilustrou esse ponto com alguns versos das Escrituras. xodo 21:2-6 afirma que,
naquele tempo, quando um hebreu comprava um servo, este servo sairia livre no stimo
ano de sua escravido. Mas, no caso de o servo no querer deixar o seu senhor, ele
poderia renunciar aos seus direitos de liberdade atravs de um ritual especfico. O senhor
traria seu servo perante os juzes da comunidade e o faria chegar  porta na presena
deles, e lhe furaria a orelha com uma sovela. Ento, o servo o serviria "para sempre"
(xodo 21:6). Nesse caso, o termo "para sempre" poderia significar um perodo de tempo
de um dia ou muitos anos, a depender de quanto tempo o servo vivesse.
       O Pastor Taylor citou mais um exemplo interessante do termo "para sempre",
encontrado em Salmos 21:1-4. Sentindo-se agradecido a Deus pelas muitas vezes que o
Senhor lhe poupara a vida, o rei Davi exclamou: "Na Tua fora, Senhor, o rei se alegra! E
como exulta com a Tua salvao! Satisfizeste-lhe o desejo do corao e no lhe negaste
as splicas dos seus lbios... Ele Te pediu vida, e Tu lha deste; sim, longevidade para todo
o sempre". E Davi viveu at ficar velho e, assim, a expresso "para todo o sempre", usada
aqui, significa um perodo de muitos anos de durao.
       Aps dar esses exemplos bblicos para mostrar quo limitada pode ser a expresso
"para sempre", quando aplicada a alguma coisa transitria, o Pastor Taylor passou a
algumas referncias bblicas em que a expresso significa "eternidade de ser".
       O segunda captulo de Daniel descreve a interpretao que o profeta deu ao sonho
da grande esttua de Nabucodonosor. O verso 44 anuncia que "nos dias destes reis, o

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Deus do Cu suscitar um reino que no ser jamais destrudo; este reino... subsistir
para sempre". O captulo 7 declara que "os santos... recebero o reino e o possuiro para
todo o sempre, de eternidade em eternidade" (Daniel 7:18).
       Assim como a Escritura nos assegura claramente que o reino de Cristo, uma vez
estabelecido sobre a Terra, ser um reino eterno, e que a existncia dos justos ser eterna
ou no ter fim, assim tambm a Bblia nos ensina que a existncia dos mpios cessar por
ocasio da segunda morte, a ocorrer dentro do lago de fogo (Apocalipse 21:8).
       Foi nesse estudo bblico, que vi ruir e desvanecer uma montanha de escurido e
erro. Vi os ditos mistrios, que embaraaram a mente de meus pais catlicos em seus
esforos de associar o carter de um Deus de amor com a doutrina do tormento eterno,
derreterem do mesmo modo que o gelo o faz sob a luz do Sol tropical. Obtive a segurana
de que a Palavra de Deus no se contradiz.
       De repente, por volta das 19 horas, senti um intenso desejo de fumar um cigarro.
Para meu espanto, percebi que no havia fumado nada durante o dia todo, nem mesmo
havia pensado sobre isso. Pensei que isso poderia ser explicado pelo fato de minha mente
ter estado preocupada com as experincias religiosas do dia. Diante deste fato, cheguei a
concluso de que eu poderia lanar o cigarro para longe de minha mente, e de meus
pulmes, se to-somente ficasse ocupado com coisas boas.
       E assim continuou nossa discusso sobre coisas espirituais. Levantei perguntas que,
por muito tempo, haviam me confundido. Eu estava muito impressionado com o fato de o
pastor ter uma resposta bblica para cada questo.
       Mas meu problema se tornou mais intenso. A vontade de fumar era grande demais.
A saliva engrossou na minha boca, a ponto de ter dificuldade para falar. As narinas
comearam a arder,  semelhana do que eu sentia quando tinha um resfriado. Aps
alguns momentos, tornei-me inquieto e mudava a posio com frequncia. Finalmente,
passei a sentir dor de cabea, e isso raramente acontecia comigo. A dor descia at o dorso
do pescoo.
       Por insistncia minha, o Pastor Taylor discutiu tpicos religiosos conosco at as 21
horas. Depois que ele partiu, a primeira coisa que fiz foi acender um cigarro, e fumei sem
parar at durante uma hora. Para minha surpresa, desapareceram todos os sintomas do
meu mal-estar.
       Ainda naquela noite, antes de sair, o casal Gross deu-me um estudo bblico sobre
o viver saudvel, incluindo o assunto do fumo. Tornei-me consciente de que estava
escravizado por um hbito destruidor da sade. Imediatamente, determinei-me a
abandon-lo, compreendendo que teria de atravessar uma tremenda luta para faz-lo  a
menos que o Senhor do sbado, o mesmo qoue havia retirado o meu desejo de fumar por
tantas horas naquele dia, Se dispusesse a me libertar do cigarro de uma forma
permanente.
       Momentos depois, agradeci aos meus amigos, e parti rumo  minha casa. No
bonde, recordei em minha mente os eventos daquele dia, especialmente o meu episdio
com o fumo, e compreendi que eu tinha mais do que um poderoso inimigo. Idealizei um
plano que, certamente, acabaria com o meu problema com o cigarro.
       O Pastor Taylor havia salientado o grande poder redentor dos mritos do sangue de
Jesus, derramado no Calvrio. De fato, ele me levou a ver e compreender que ns
podemos vencer o querubim cado com seus anjos associados somente atravs desse
poder, como  afirmado no ltimo livro da Bblia: "Eles, pois, o venceram por causa do
sangue do Cordeiro" (Apocalipse 12:11).
       Naquela noite, cheguei em casa s onze e meia. Na minha porta havia um recado

71
para que eu telefonasse ao meu amigo Roland, sem importar com o horrio. Ele vai ter
que esperar um pouco, pensei. Quando entrei, deu para perceber que os espritos haviam
estado inquietos. Quase tudo no apartamento estava fora do lugar. Eu j estava
acostumado a lidar com coisas incomuns e, por isso, no me perturbei.
       Primeiramente, peguei os trs pacotes de cigarros que eu tinha no guarda-roupas e
os coloquei sobre a mesa. Ento, abri minha Bblia em Mateus 27, e li os versos de 24 a
27, que fala sobre a crucificao de Jesus. Coloquei a Bblia aberta em cima dos pacotes
de cigarros, ajoelhei-me diante da mesa e comecei a conversar com meu grande Sumo
Sacerdote sobre os meus problemas. Dando graas pelas bnos que Ele havia me dado,
mesmo quando eu era um declarado inimigo dEle e blasfemava o Seu nome, confessei
meus pecados e reconheci o mal do meu corao.
       O Pastor Taylor havia me ensinado que Jesus Cristo ministra no santurio celestial
em favor dos aflitos, e que Ele  especialista em casos sem esperana. Compreendendo
que eu era um verdadeiro caso sem esperana para ser trabalhado por Ele, agarrei-me 
esperana inerente nas palavras de Taylor. Minha luta era contra inimigos muito astutos e
poderosos.
       Agradecendo ao Senhor o encorajamento que me deu, reconheci o fato de que o
poder do Seu amor havia restringido os espritos demonacos. E, por causa disso, eu
queria entregar-Lhe minha vida e servi-Lo como Ele achasse melhor. Ento, eu me
deleitaria em me lembrar do Seu dia, o sbado. E, apontando para os pacotes de cigarros,
eu disse: "Senhor Jesus, liberta-me, por favor, desse poderoso inimigo. Quebra o poder
que ele tem sobre mim, assim como hoje j manifestasse a Tua capacidade de fazer isso.
Remova esse desejo insacivel".
       Aps falar mais um pouco com o Senhor, agradeci o fato de Ele ter me ouvido e
uma vez mais ter abenoado minha vida. Ento, levantei-me, levei os cigarros ao
banheiro, abri cada pacote, rasguei tudo em pequenos pedacinhos, lancei-os dentro do
vaso sanitrio e puxei a descarga. Desde ento, nunca mais toquei em cigarros, e nunca
mais tive o desejo de fumar. De uma maneira maravilhosa, Jesus operou um milagre em
minha vida.
       (Veja o primeiro captulo para saber os detalhes dos acontecimentos que tiveram
lugar na noite daquele sbado).




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                                  CAPTULO 13
                                Episdio de Morte


        Domingo de manh, acordei e me levantei para um novo estilo de vida. Em vez de
estender a mo  procura de um mao de cigarros sobre o criado-mudo  um hbito
profundamente arraigado  percebi que no tinha aquela vontade compulsria de fumar.
        Uma onda de felicidade me inundou, com o pensamento de que eu tinha um novo e
poderoso Amigo, na pessoa de Jesus Cristo. Lembrei-me do modo tremendo com que o
Esprito de Deus me abenoara a mente e me sustentara durante o meu episdio com os
espritos, algumas horas antes.
        Compreendendo minha fragilidade humana, pedi que o Senhor me concedesse
foras para o conflito que estava adiante. No passado, pela influncia de outras pessoas,
eu fora levado a tomar decises insensatas. Muitas vezes, me entregara s sugestes de
meu amigo Roland. De maneira gradual, ele me havia induzido  adorao dos espritos.
        Durante os minutos seguintes, orei sem pronunciar nenhuma palavra. Tendo
aprendido que os demnios no podem interceptar uma orao silenciosa, eu queria estar
um passo  frente de meus inimigos. Sentia uma grande satisfao em deix-los curiosos.
E sentia-me honrado pelo fato de que eu, um ser humano indigno, podia conversar com o
mais poderoso Ser do Universo sem a interferncia ou bisbilhotice dos demnios.
        Eu disse ao Senhor que no sabia por onde comear para falar ao meu amigo
Roland sobre as realidades eternas. Talvez, ele no estivesse disposto a ouvir para no
ofender os espritos. E, acima de tudo, como deveria eu enfrentar as presses que viriam
certamente?
        Fiz uma pausa de alguns segundos em minha mente e, ao fazer isso, ocorreu-me
uma passagem do primeiro captulo do Evangelho de Joo: "Veio para o que era Seu, e os
Seus no O receberam. Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus, aos que creem no Seu nome" (Joo 1:11,12). Senti, ento, que o
Esprito de Deus me susteria atravs de minhas dificuldades vitoriosamente.
        Sobre o meu criado-mudo estava a minha Bblia. Estendendo a mo, comecei a
folhe-la sem prestar ateno. Naquelas duas pginas da Escrituras aberta, estava o poder
que salvaria literalmente a minha vida.
        Poucos momentos depois, resolvi levantar-me. Tomando a Bblia, comecei a ler, do
mesmo lugar em que estava aberta, o trigsimo stimo captulo de Isaas. Falava de um
rei chamado Ezequias, que havia recebido uma carta cheia de desafios de um tirano
invasor  Senaqueribe, que era muito convencido. Impressionado pela maneira com que o
Senhor dirigiu a situao, obtive confiana adicional de que no precisava ficar
preocupado com o que estava pela frente. Eu no conseguia ficar sem pensar, mas no
precisava ficar preocupado.
        No horrio combinado, Roland chegou.
         Voc parece exausto, homem. Est doente?  perguntei, quando o vi.
         Morneau, voc quase sufocou a minha vida e a do George. Ns no podemos
nem acreditar que voc poderia ser to insensvel a tudo que o George tem feito para nos
beneficiar, e que voc poderia voltar-se para insultar o mestre, recusando a riqueza que
ele preparou para voc.
         Quando foi que voc ficou sabendo disso?
         s 5:30 desta manh. George me telefonou, depois que soube da sua estpida


73
deciso, atravs de um conselheiro-chefe. Ele pediu que eu colocasse um pouco de bom
senso na sua cabea, antes que voc a perca.
         Vejo que devo ter deixado aquele conselheiro-chefe muito aborrecido, lanando-o
fora, como o fiz.
         O qu? Ser que ouvi voc dizer que lanou fora um conselheiro-chefe? No
consigo entender.
         Voc ouviu corretamente. Por volta das quatro horas desta manh, tive uma
conversa com um conselheiro-chefe e, quando ele se tornou indecoroso, pedi que o
Esprito de Deus o lanasse fora. Ele deixou sua marca na parede quando bateu a porta
com muita fora.
        Ento, mostrei a marca deixada na parede pela maaneta.
         Voc? Voc, Roger Morneau, teve uma conversa com um conselheiro-chefe? Voc
sabia que alguns dos nossos membros tm estado a adorar e a invocar espritos por
muitos anos e ainda no tiveram o privilgio de conversar com um conselheiro-chefe? E
voc, que tem se envolvido com espritos por to pouco tempo, j recebeu to grande
honra. Isso mostra o quanto o mestre pensa em voc.
        A face de Roland brilhou de entusiasmo, ao exclamar:
         Um futuro fantstico aguarda a voc e a mim. Agora esquea esse breve
momento de cristianismo, e vamos juntos ver o sumo sacerdote. Ele reintegrar voc ao
favor dos espritos e tudo ficar bem. O sacerdote compreende  ele no tem nada contra
voc se interessar por saber mais sobre religio. Na verdade, ele gosta de voc e o
compreende. Ele disse que voc  um aventureiro por natureza. O sacerdote reconhece
que  natural a sua procura por um melhor caminho por si mesmo. A nica coisa que ele
acha ruim em tudo isso  que, se voc ia estudar religio, por que no procurou alguma
outra denominao, em vez desse povo sabatista  exatamente o povo que o mestre mais
odeia sobre a face da Terra? Homem, voc no entende o quanto voc ofendeu os deuses.
Mas eu tenho a garantia do sumo sacerdote de que tudo ficar bem se voc vier comigo
agora para o vermos em seu escritrio. Ele est esperando por ns. Que tal irmos agora
mesmo, meu velho companheiro?
        Quando ele puxou seu mao de cigarros e me ofereceu um, recusei, dizendo que
no fumava mais. Surpreso, Roland comentou:
         Morneau, voc est mudado. Compreendi isso logo que entrei aqui. Para ser
honesto, me sinto desconfortvel em sua presena. Pode at parecer tolice o que vou
dizer, talvez uma asneira, mas eu me sinto fora de lugar e gostaria de estar em algum
outro lugar.
         Enquanto ele falava, eu percebia que Cristo estava cumprindo em minha vida as
palavras do apstolo Joo. "Veio para o que era Seu, e os Seus no O receberam. Mas, a
todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que
creem no Seu nome". Percebi que a gloriosa majestade do Senhor Jesus, refletindo sobre
mim, criara uma invisvel atmosfera de poder e resplendor que foi sentida pelo meu
amigo, levando-o a reagir dessa forma.
         O que voc esto sentindo em minha presena resulta do fato de que o Esprito
que est comigo  mais poderoso do que o esprito que est com voc. E quanto 
afirmao que voc fez, dizendo que eu estou mudado, voc est certo. Nunca mais serei
o Roger Morneau que voc conheceu anteriormente. Em uma breve semana adquiri
conhecimento que vale mais do que todo o ouro e toda a prata que a Terra contm.  por
isso que no posso aceitar as riquezas que os espritos tm me oferecido. Se eu as
aceitasse, estaria enganando-me a mim mesmo. No me interprete mal, percebo que a

74
oferta feita pelos espritos  generosa, mas carece do mais importante elemento que
deveria acompanh-la: Vida. Vida em medida suficiente para fazer valer a pena possu-la.
Recebi uma oferta melhor. Todo o ouro que eu quiser e vida ilimitada.
        Ento, comecei a apresentar-lhe as glrias da realidade eterna. Embora me faltasse
a capacidade de document-las com passagens bblicas, como o casal Gross fazia, o
Esprito de Deus manteve meu amigo fascinado durante 45 minutos.
        Durante esse tempo, dei cobertura aos pontos que eu considerava vitais. A certa
altura, quando fiz uma pausa para captar alguma forma de resposta, tudo o que ele disse
foi: "Agora eu compreendo". Mas ele no fez nenhuma pergunta, nem qualquer
comentrio. Assim, eu continuei:
         Posso ver que voc no tem nenhuma inteno de vir comigo para vermos o
sumo sacerdote  disse ele, finalmente.  Mas temos que ir. Voc precisa enfrentar a
realidade outra vez. Todas as coisas maravilhosas que voc mencionou no so nem para
voc nem para mim, por isso vamos esquec-las. Primeiro, eu no quero esperar pela boa
vida, eu a quero agora. Quanto a voc, Morneau, voc no tem escolha. Voc, talvez,
pensa que tem, mas no tem. Voc est se enganando. Convenhamos, Morneau, voc no
 o seu prprio mestre. Eu gostaria que voc fosse, mas no . Os espritos o possuem
totalmente, e quanto mais depressa voc admitir, melhor ser.
        Extremamente agitado, ele projetava um ar de fatalidade iminente. Comeou a
andar para l e para c, contorcendo as mos.
         Tenho a mais difcil incumbncia. O que vou dizer-lhe preferiria dizer a um inimigo
a ter que dizer a um velho amigo.
        A essa altura, ele transpirava muito, embora no estivesse fazendo muito calor.
         Morneau, os seus dias esto contados, bem como os dias daquele casal
responsvel por induzi-lo a afastar-se do mestre. Preciso dizer, no entanto, que voc pode
deter o plano de destruio j iniciado pelos espritos, vindo comigo para ver o sumo
sacerdote agora. Ele restaurar voc ao favor deles, e tudo estar bem. Dessa forma,
ningum sair machucado.
        Ele teve que fazer uma pausa por alguns segundos para usar o seu leno. O suor
escorria por sua face.
         H um detalhe que o sumo sacerdote quer que voc entenda. Ningum conseguiu
sair vivo de nossa sociedade secreta, nunca. Os espritos nos trouxeram a esta sociedade,
e ns temos que nos sujeitar a eles, e no eles a ns. Permita-me explicar. At agora,
voc e eu, vnhamos assumindo que nosso encontro com George e seu convite para irmos
quele restaurante fora apenas casual. Errado. Na noite anterior, um esprito apareceu a
ele durante a hora sagrada e ordenou que ele fosse juntamente com a esposa quela
sesso em particular. O esprito disse que ele devia encontrar-nos, que ns havamos
servido na Marinha Mercante, etc. Explicou em detalhes o que George deveria dizer e
fazer. Os espritos j haviam tramado tudo, a ponto de envolverem a esposa de George em
conversa com o mdium esprita para que ela deixasse George ir para casa sozinho, e para
que a famlia Belanger levassem-na para casa mais tarde. Ento, amigo, vamos logo. O
tempo est acabando.
        Ele j estava com a mo na maaneta da porta, esperando que eu o
acompanhasse. Apontando para uma cadeira, sugeri que ele se assentasse por alguns
minutos, enquanto eu explicaria por que no iria ver o sumo sacerdote. Ele recusou,
dizendo que no poderia suportar mais a atmosfera daquele lugar. Uma atmosfera
sobrenatural, estranha para ele, tornava impossvel que ele se assentasse e relaxasse.
        Eu disse que a presena do Esprito Santo estava me dando assistncia, em

75
resposta a meu pedido por ajuda, mais cedo, naquela manh. Insistindo para que meu
amigo abandonasse os demnios e se associasse com o poder superior de Deus, lhe
assegurei que ele poderia fazer essa transio com segurana. Senti-me, ento,
impressionado a dar mais um passo e convidar todo o grupo dos amigos adoradores de
demnios para me acompanharem. Outra vez, garanti que no haveria nenhum perigo
para qualquer um deles.
         Vocs, companheiros, gostam de ateno e respeito  disse eu.  Vou contar o
que vou fazer: vou chamar meu pastor para fazer a reserva dos lugares em nossa igreja,
nos servios religiosos do prximo sbado. Lugares escolhidos, em ambos os lados do
corredor central. Farei a reserva de cem lugares, suficientes para todos estejam bem
assentados.
         No se preocupe com isso  respondeu Roland.  J estou satisfeito como o lugar
onde estou agora.
        Outra vez ele fez uma pausa para enxugar o suor que lhe corria pela face, e
continuou:
         E sei que os outros companheiros pensam da mesma forma que eu.
         Bem, meu desejo era oferecer a todos vocs os benefcios da vida eterna, para
que nenhum ficasse de fora.
        Ento, mudei de assunto, e voltei ao seu ultimato.
         Voc disse que 'meus dias esto contados', bem como os dos meus novos
amigos, e que os espritos demonacos tm a inteno de executar essa sentena. Tenho,
porm, algumas novidades para voc, para o sacerdote, e para qualquer um que esteja
planejando quaisquer maus intentos para comigo ou meus amigos. Como j disse quele
esprito conselheiro, na noite passada, coloquei meus amigos e a mim mesmo nas mos
do Doador da vida, o Cristo do Calvrio. E estou preparado para andar sob a sombra da
morte enquanto Cristo me acompanhar atravs da presena do Seu Esprito.
        Chocado, em estado de terror, meu amigo Roland no conseguiu falar nada durante
um minuto. Seu rosto ficou plido, seus olhos fixos, e eu pensei que ele iria desmaiar.
         Voc est bem?
        Ele no respondeu.
         Roland, qual  o problema?
        E continuou sem responder nada. Em silncio, eu implorei:"Querido Jesus, ajude-
me, por favor!" Meneando a cabea, afinal, ele disse:
         Eu no sei o que aconteceu, mas parece que perdi a conscincia por um
momento. Morneau, eu sei que o esprito que o acompanha  grande e poderoso. Por
favor, nunca mais mencione esse assunto. Ele me causa terror.
        Quando ele pareceu ter voltado ao normal, pedi que ele levasse meu recado ao
sumo sacerdote. Ento, ele disse:
         No fui completamente claro com respeito ao ultimato, Morneau. A ameaa sobre
a sua vida vai alm daquilo que os espritos podem fazer a voc. A comisso diretiva
definiu que a sua desero de nossas fileiras pode resultar em vazamento de informaes
secretas, prejudicando a causa do mestre. Falou-se at em colocar um prmio por sua
cabea. Uma pessoa ofereceu at dez mil dlares para ter algum contratado para acabar
com voc. Mas essa sugesto no nos pareceu sbia, e ns a descartamos. No entanto,
chegamos a uma deciso. Se um esprito nos informar que voc falou com qualquer
pessoa de fora sobre a atividade de nossa sociedade secreta, trs pessoas j se
ofereceram para atirar em voc no momento mais conveniente. A comisso diretiva achou
que essa seria uma posio mais sbia, visto que ficaria restrita  nossa sociedade, e

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assim evitaramos a possibilidade de envolvimento com a lei. Ns trouxemos o plano
perante um esprito conselheiro e recebemos plena aprovao, juntamente com o dom de
clarividncia para os voluntrios, para que eles saibam o tempo todo onde voc est. Eu
esperava no precisar revelar isso a voc, mas a sua recusa em conformar-se com os
desejos do sumo sacerdote no me deixa nenhuma outra opo. Sinto muito.
        Ento, eu respondi:
         Diga ao sacerdote que eu sou ousado, mas no estpido. No tenho nada a
ganhar em revelar informaes sobre essa sociedade secreta a quem quer que seja. Posso
conviver com a minha boca calada. Mas fazer minha sobrevivncia depender da palavra de
um esprito mentiroso, isso eu no posso admitir. Diga ao sacerdote que eu tenho um
novo Amigo, na pessoa de Jesus Cristo. Ele  Todo-Poderoso e impe respeito. Tanto 
que  meno de Seu Nome os demnios tremem. E, quando comandados atravs desse
grande Nome, at os espritos conselheiros fogem, como pude testemunhar na noite
passada.
        No sei se o que senti poderia ser chamado de 'ira santa', mas a ameaa de Roland
despertou em mim a determinao de faz-lo enfrentar o poder e a justia de Deus por
todos os dias de sua vida.
         O sacerdote parece ter um bom conhecimento da Bblia. Faa-o ler Colossenses,
captulo 2, versos 9 e 10. Ali est, preto no branco, o que eu tenho estado a dizer a
respeito do Senhor da glria.
        Rapidamente, anotei a referncia desse texto bblico num pedao de papel, para
que meu amigo no esquecesse. E acrescentei:
         E, enquanto ele estiver com a Bblia na mo, tenho algo mais para que ele
considere. J faz muitos sculos, quando um poderoso rei saiu a conquistar e subjugar
naes e povos. Mas, um dia, ele insultou a pessoa errada. Ele atacou algum que fazia
de Deus seu amigo ntimo. Como resultado, ele perdeu 185 mil soldados. Somente uns
poucos oficiais de Senaqueribe sobreviveram para testemunhar os resultados da
arrogncia do rei. E, quando ele chegou  sua cidade, Nnive, dois de seus filhos o feriram
 espada (ver Isaas, captulo 37). Roland, informe ao sacerdote para que ele pense bem
antes de acabar com Roger Morneau, para no acontecer que os pretensos destruidores
se tornem os destrudos. Agora, vou traar as regras do 'jogo da extino'. E vou fazer
isso com o total apoio de meu novo Amigo que, hoje de manh, revelou-me como Ele
pretende resolver o meu problema.
        Os olhos de Roland se arregalaram, e eu obtive sua completa ateno. Depois de
me dirigir at  mesa onde estava a minha Bblia, aberta no captulo 37 de Isaas, eu o
chamei para ver alguma coisa. Eu havia sublinhado em vermelho os versos que eu queria
memorizar (Isaas 37:14-20; 33-38). Mostrando-lhe de forma escrita a histria que eu
acabara de narrar, expliquei como o Esprito Santo me abenoara mais cedo naquela
manh, fazendo com que eu abrisse a Bblia e me desse conta de quo facilmente Deus
poderia resolver minhas dificuldades. Ento, li alguns versos para ele.
         Posso ver onde algo parecido poderia acontecer conosco  respondeu Roland,
obviamente preocupado.
        Ento, eu disse:
         Sim, e a responsabilidade repousa sobre o sumo sacerdote. Diga a ele que no dia
em que ele e seus jovens considerarem seriamente a ideia de "apagar" o Morneau, o
Doador da vida desligar a chave de todos os seus membros, adoradores de demnios,
deixando somente a ele com vida para cuidar dos funerais deles. Isso bem poderia
acontecer durante uma de suas sesses de louvor aos seus falsos deuses. Um silncio

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mortal e repentino h de encher a sala de adorao.
        Agora, Roland j estava sentado, e acendeu um cigarro. Comeou a tremer, e no
conseguia sequer coloc-lo sobre o cinzeiro. Tive que me aproximar e fazer isso por ele.
         Morneau, eu tenho que ir. Meu medo  que tudo o que voc acabou de dizer
possa mesmo acontecer, a no ser que ningum, seno o sacerdote, saiba. Por isso, vou
telefonar ao George logo que eu sair daqui para dizer que a nossa vida est em perigo, a
menos que consigamos deter os trs executores voluntrios. Se as notcias chegarem a
todos os membros antes que o sacerdote tenha a oportunidade de me fazer prestar
juramento ao segredo, existe a chance de que a presso exercida sobre ele, para cancelar
a tentativa de assassinato, seja suficientemente grande para garantir a voc uma vida
longa.
        Ao apertar a sua mo pela ltima vez, ele disse que no queria desagradar os
espritos e, por isso, deveramos evitar encontrar-nos de novo. Se, por acaso, nos
encontrssemos em algum lugar, deveramos ignorar a presena um do outro. Eu
concordei que assim seria.
        Dessa maneira, terminou uma tensa viagem atravs do sobrenatural, e tambm a
perda de um amigo chegado. Mas muitos tm sido os benefcios que conquistei por
romper com o sobrenatural. O fato de eu ainda estar vivo hoje testifica da bondade, do
amor e do poder do Senhor Jesus para salvar.
        Nunca mais encontrei Roland, mas o vi a curta distncia, quando ele saa de uma
loja, na Rua St. Catherine West. Entrando em seu 'Cadillac', estacionado ilegalmente, ele
usava um chapu branco e trajava um terno que parecia ser de seda. Sua aparncia
impressionava, mas eu no tive inveja dele.
        Ao andar pela rua naquele lindo dia de junho, para pegar o bonde, grande era a
minha alegria no Senhor. Elevando meu corao para o Santo dos Santos, no santurio
celestial, conversei com Ele e, verdadeiramente, considerei a experincia como sendo a
plenitude da vida.
        Embora eu tenha virado as costas aos espritos e a tudo que eles tinham para me
oferecer, eles continuaram tentando restabelecer contato comigo. As batidas aconteciam
quase todas as noites, e continuaram por muitos meses. Um dia, Cyril veio para observar.
Depois de ouvir a atividade deles, ele exclamou: "Vamos dar o fora daqui. Como voc
consegue ficar num lugar desses? Por que no se muda?"
        De alguma forma, eu no queria dar aos espritos a satisfao de pensarem que eu
tinha medo deles. Eu achava que se comeasse a correr deles, teria que correr para
sempre. Portanto, confiei no Senhor Jesus para que Ele me desse sempre, onde quer que
eu estivesse, a ajuda e a proteo de que tanto necessitava.




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                                  CAPTULO 14
                           Contando as Minhas Bnos


       Naquele primeiro sbado, ao sair do templo da Igreja Adventista, pedi ao Senhor
que fizesse com que eu pudesse estar ali outra vez, na semana seguinte. E, quando voltei,
elevei meu corao em gratido pelo que Ele fez em meu favor nos poucos dias passados.
Na realidade, o dia inteiro foi dedicado a contar as minhas benos e de regozijar-me no
Senhor.
       Foi ento que descobri por experincia prpria o grande benefcio que algum pode
obter quando relembra ou conta as suas benos. Percebi que o mandamento: "Lembra-te
do dia de sbado para o santificar" foi dado para tornar possvel ao homem uma forma de
escapar das constantes demandas das ocupaes dirias da vida e ter, assim, tempo para
contar suas benos  e, dessa maneira, ser conduzido para mais perto do Criador, para
receber o refrigrio fsico e espiritual.
       Aps meu confronto com os espritos, e aps minha vida ter voltado ao normal,
imediatamente me pus a investigar, na histria eclesistica e na secular, acerca de como a
Igreja Crist se envolveu com a observncia do domingo, abandou o sbado bblico e
adotou as doutrinas da imortalidade da alma e do tormento eterno. Durante uns cinco
meses, gastei todo o meu tempo de lazer na Biblioteca Municipal de Montreal. Li, com
grande interesse, os escritos da Igreja Catlica Romana,  luz das profecias bblicas.
Estudei as biografias de certos "santos", considerados pilares da Igreja Catlica primitiva, e
examinei a influncia deles sobre o cristianismo. A histria dos papas revestiu-se de um
novo significado. Fascinou-me, especialmente, Orgenes, de Alexandria, um dos pais da
Igreja grega primitiva, que viveu entre os anos de 185 e 254 depois de Cristo, pois ele
teve sucesso em unir algumas filosofias das escolas eclticas dos neoplatnicos com as
doutrinas do cristianismo. Esse perodo de investigao e estudo, contribuiu para solidificar
a minha crena na Bblia.
       Num lindo dia de sbado, em abril de 1947, tive a bendita experincia de ser
batizado por imerso e de tornar-me membro da Igreja Adventista do Stimo Dia. Naquele
mesmo dia, encontrei uma jovem chamada Hilda Mousseau.
       Ao sairmos da igreja, aps a reunio daquela noite, o Pastor Taylor disse que quem
fosse na direo leste, poderia pegar uma carona de uns dois quarteires com ele, at o
lugar onde deixaria o carro estacionado naquela noite. Quatro de ns aceitamos a oferta
e, depois de chegarmos ao destino do pastor, fomos em direo  parada de bondes mais
prxima.
       Assim foi que Hilda e eu nos conhecemos e, algumas vezes depois disso, andamos
juntos at a parada do bonde. No demorou muito para descobrirmos que tnhamos em
comum alguns interesses, preferncias e averses. Depois de algum tempo, nosso namoro
estava firme.
       Certo dia, pensei que seria uma boa ideia tentar convenc-la a tornar-se minha
esposa. Naquele tempo, pedir uma jovem em casamento era um projeto complicado. O
moo tinha que levar em considerao qual o melhor momento e lugar. Aps rever meu
plano de ao vrias vezes, uma noite de domingo pareceu-me a melhor opo.
       A importante questo teria que vir  tona sob condies de descontrao. O
momento ideal para pedir seria o intervalo, enquanto espervamos que o guarda noturno
viesse abrir a porta. Era necessrio tocar a campainha duas ou trs vezes at que ele


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chegasse, e isto levava, s vezes, dez minutos  dependendo do ponto em que ele se
encontrava no prdio.
        Nessa ocasio, Hilda trabalhava como enfermeira no "Hospital dos Convalescentes
de Montreal" e morava no dormitrio das enfermeiras, um dos anexos ao hospital. Todas
as enfermeiras residentes tinham que chegar at s onze horas da noite. Quanto mais
prximo desse horrio algum chegasse, por menos tempo teria de esperar. Por isso,
imaginei que o momento ideal seria s dez e meia.
        Era um lindo dia do ms de junho. Como planejado, estivemos juntos durante a
tarde e a noite daquele agradvel domingo e, para culminar, fizemos um 'tour' de bonde
pela cidade de Montreal.
        Aps cada parada, enquanto o bonde ganhava mais velocidade, os cabelos longos e
loiros de Hilda se levantavam sob a ao do vento, e seus olhos azuis brilhavam ao refletir
a luz dos muitos anncios de neon ao longo da rua. Quanto mais eu olhava o rosto dela,
mais me convencia de que o nome dela deveria ser "Hilda Geraldine Morneau".
        Por volta das 22:30 daquela noite, ns nos aproximamos da porta do dormitrio das
enfermeiras e, do modo como j fizera muitas vezes, Hilda apertou o boto da campainha
e encostou o ombro  porta na expectativa de ter que esperar por muito tempo.
Imediatamente, perguntei se ela concordava em casar-se comigo. Eu mal havia falado e o
guarda apareceu. Destrancando a porta, ele deu uns dez passos para trs, cruzou os
braos, e fixou os olhos em mim como se estivesse a dizer: "Eu o desafio a dar um beijo
de despedida nela, na minha presena".
        Hilda foi apanhada de surpresa diante de minha pergunta e a rpida chegada do
guarda  que costumava demorar. Ela afirmou que j havia pensado sobre o assunto, mas
esperava que isso fosse acontecer num futuro distante. Eu lhe garanti que tudo o que
queria naquele momento era um "sim", e que ns poderamos entrar em maiores detalhes
em uma outra ocasio mais conveniente para ela.
        Eu mal acabara de dizer isso, quando o guarda berrou:
         A 'mademoiselle' [senhorita, em francs] vai entrar, ou quer ficar do lado de fora?
Tenho mais o que fazer e se a senhorita no entrar, vou ter que fechar a porta com a
senhorita do lado de fora.
        Ela me deu um rpido "sim", um ligeiro beijo, e entrou quase em prantos.
         Vou ensinar a vocs, moas, que quando eu abro a porta  hora de entrar 
vociferou o guarda.
         No  toda noite que aparece um cavalheiro para pedir uma moa em casamento
 disse ela.
        O guarda olhou, assustado.
         Sinto muito  disse ele.  Por que no me falou antes que era to importante
assim? Eu lhe teria dado mais tempo.
        Naquele momento, ali mesmo, Hilda resolveu que iria se mudar. A me dela tinha
um apartamento na Estrada Queen Mary, e Hilda decidiu morar com ela, mesmo que
tivesse de viajar uma distncia maior para chegar ao trabalho.
        Naquele mesmo momento, eu me dirigia para casa sentindo-me tolo por no ter
administrado melhor a estratgia do tempo.
        To logo, Hilda encontrou um telefone e fez uma ligao  sua me para lhe falar
de seus planos.
         Mame, tenho algo maravilhoso para lhe dizer.
          mesmo? O que ?
         Vou me casar.

80
         Voc perdeu o juzo? Voc tem apenas 21 anos. Alm disso, com quem voc se
casaria?
         Vou me casar com o Roger, aquele rapaz da igreja, com quem tenho sado
algumas vezes. A senhora o conhece, j o cumprimentou umas duas vezes.
         Sim, mas vocs se conheceram h to pouco tempo. Voc no acha que est
sendo um pouco precipitada?
        Ento, de acordo com Hilda, ela mesma rompeu-se em lgrimas e comeou a abrir
o corao. A conversa terminou com a me dela afirmando que no havia necessidade de
chorar e que conversariam mais quando ambas se encontrassem.
        Quando telefonei a Hilda, na noite seguinte, ela me informou da opinio de sua
me. Sugeri que fssemos juntos visitar a me dela no domingo seguinte e, ento, eu
pediria a mo de Hilda em casamento. Discutiramos esse importante assunto com ela at
chegarmos a uma concluso satisfatria.
        Aconteceu que a me dela mostrou-se muito compreensiva com relao s nossas
intenes e escolhemos a noite do dia 20 de setembro para o casamento.
        No demorou muito e o vero deu lugar ao outono, e este, por sua vez, procurou
sobrepujar o seu predecessor em calor, beleza e encanto. Levantei-me cedo, na manh de
sbado, dia do nosso casamento, para descobrir que toda a natureza estava cheia de vida.
Quando samos da igreja, aps o culto da manh, o termmetro indicava 30 graus.
Algumas folhas secas j eram espalhadas pela suave brisa.
        Nossos amigos, Ruth e Arthur Cheeseman, nos cederam sua residncia para a
cerimnia do casamento. Nosso plano era ter momentos tranquilos na presena de uns
poucos amigos ntimos. Entre os convidados, estavam dois pastores com as suas esposas
 Andr Rochat, pastor da igreja de lngua francesa, e L.W. Taylor, pastor da igreja de
lngua inglesa, os quais oficiaram a cerimnia [o ingls e o francs so os dois idiomas
oficiais do Canad].
        A Sra. Cheeseman, a Sra. Mousseau [me de Hilda] e outras damas haviam dado
quela residncia a mais linda ornamentao, apropriada para a ocasio. Enquanto minha
noiva e eu repetamos os nossos votos matrimoniais perante o pastor, eu me mantinha em
postura e confiante. No para impressionar nenhum de meus amigos presentes, mas por
causa dos muitos seres invisveis que estavam assistindo: anjos que haviam vindo da
presena do Todo-Poderoso, para se alegrarem conosco, e demnios, comandados a
assistirem  como eu acreditava  pelo seu impiedoso lder, o qual havia visto os seus
diligentes esforos transformarem-se em fracasso, quando pela graa do Senhor Jesus eu
me afastara de suas fileiras.
        Alm disso, eu estava vestido com o meu melhor terno  aquele feito sob medida,
que eu havia comprado com o dinheiro que ganhara nas apostas das corridas de cavalos
com a ajuda dos demnios.




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                                       EPLOGO


        Mais de cinquenta anos j se passaram desde o meu envolvimento com o mundo
sobrenatural dos espritos maus. Minha idade est avanada.
        Creio que o fato de ainda estar vivo, devo-o ao cuidado do Doador da vida, Cristo, o
Senhor da glria. Tomar minha deciso por Cristo, aos 21 anos de idade, quando os
espritos me ofereciam riqueza, fama e poder, foi a escolha mais sbia que j fiz. E manter
um slido relacionamento com Cristo, e como o apstolo Paulo "ser achado nEle, no
tendo justia prpria... seno a que  mediante a f em Cristo, a justia que procede de
Deus, baseada na f; para O conhecer, e o poder da Sua ressurreio" (Filipenses 3:9-10)
 tudo isto tem trazido  minha vida uma riqueza de paz, contentamento, e alegria no
Senhor, que nenhuma quantia de dinheiro jamais poderia comprar.
        Como narrei no meu livro "More Incredible Answers to Prayer" [Respostas Incrveis
 Orao  Casa Publicadora Brasileira], no fora pelo poder do Seu amor, o cncer j me
houvera levado  sepultura em 1989. Em acrscimo, Deus tem abenoado o ministrio de
orao ao qual Ele me conduziu. O Esprito de Deus tem estado a transformar vidas, a
remediar situaes aparentemente impossveis, a providenciar solues e vitrias para os
desesperanados. Vou mencionar apenas um exemplo.
        Uma amiga escreveu a Hilda e a mim pedindo que orssemos pelo esposo dela, que
deveria submeter-se a uma operao para remover um de seus rins. Devido  idade dele,
e ao fato de ter sofrido um derrame seis meses antes, os mdicos temiam que ele no
sobrevivesse  cirurgia. Por outro lado, eles no podiam deixar que o rim canceroso
permanecesse no organismo do paciente.
        Como em muitas outras vezes, o Esprito de Deus sustentou a minha f no poder da
ressurreio de Cristo, e pedi ao meu Senhor, se fosse para a glria da Trindade, que Ele,
por favor, fizesse com que o "Esprito da Vida, em Cristo Jesus" (Romanos 8:2) penetrasse
no corpo de nosso amigo e expelisse os mortferos elementos que estavam destruindo o
seu rim.
        Quando o homem acordou, um dia antes da cirurgia, ele se sentiu to bem que
pensou em voz alta se aquela operao seria realmente necessria. Depois de uma bateria
de exames, o mdico descobriu, com grande espanto, que o rim no mostrava nenhum
sinal de doena, e que o tumor ligado ao rim havia desaparecido. No dia seguinte, ele
recebeu alta hospitalar.
        Ter as oraes respondidas vale muito mais do que qualquer coisa que os espritos
poderiam ter me oferecido. Tudo o que ainda posso dizer :

      Glria a Deus nas maiores alturas!




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                         VIAGEM AO SOBRENATURAL
                       MATERIAL EXTRA  VERSO DIGITAL


                                   FONTES DAS IMAGENS

                                 Capas original e brasileira
                                              Divulgao


                                       Roger J. Morneau
                           Arquivo do editor  imagem extrada da entrevista




          'ENTREVISTA-TESTEMUNHO' DE ROGER MORNEAU EM VDEO

      Nesta entrevista, Roger conta tudo o que est relatado no livro, incluindo outros
detalhes. At o fechamento deste livro em PDF, no havia vdeo disponvel com legendas
em portugus da entrevista completa.

                                  Entrevista completa
                            (udio em ingls, sem legendas)

             Captulo 21 da srie "A Chegada" do canal Spirit TV do Youtube.
       (veja os trs minutos iniciais; udio em ingls com legendas em portugus)

                             Importante trecho da entrevista
                      (udio em ingls com legendas em espanhol)



                                      ARTIGO EM PDF

              Artigo completo em formato PDF, com informaes adicionais
                                     (em ingls)



                                            OUTROS

                              Roger morneau na Wikipedia
                             (biografia resumida em ingls)

                                   Blog - Roger Morneau
                                 (vrios vdeos em ingls)




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                                       INFORMAES ADICIONAIS

       Para concluir, apresento abaixo alguns detalhes importantes que foram relatados
por Roger Morneau em sua entrevista pessoal, e que no foram includos na edio
impressa deste livro pela Casa Publicadora Brasileira. So revelaes do sacerdote
satanista. Estas informaes foram extradas e traduzidas do artigo em PDF mencionado
na pgina anterior.

                                                  O Plano Principal

          O sumo sacerdote continuou: "Vai ser feito de uma forma sem igual, este plano principal. As pessoas iro
'engolir a coisa'. Espritos de demnios iro se declarar como 'habitantes de planetas de galxias distantes', e que esto
esto vindo para advertir os habitantes da Terra sobre a destruio iminente do planeta, a menos que algo seriamente
seja feito para evitar isto".
          "Eles [os demnios] iro alegar ter experincias fora do corpo"  faculdade na qual algumas pessoas,
supostamente, so capazes de ir em lugares diferentes, voltar e escrever tudo sobre o que viram; elas acreditam que a
alma imortal delas pode fazer isso. "Assim, devido ao fato de que milhes de pessoas acreditam que tm uma alma
imortal, isto  aceito prontamente, quando os espritos, atravs um trans-mdium, conversaro com pessoas
influentes". Um trans-mdium  conhecido hoje como um 'canal'.
          Voc ouviu falar da experincia de Shirley MacLaine com espritos e com os supostos habitantes de planetas
de galxias distantes? Eu a gravei falando sobre isto. Esse foi um cumprimento do que este sacerdote tinha dito h 45
anos!
          Ele disse ainda que os espritos prometero que, se as recomendaes deles forem seguidas cuidadosamente,
elas conduziro o planeta em uma gloriosa 'nova era de paz e prosperidade' e no haver mais guerras; no haver
mais escassez; no haver mais pessoas infelizes com as outras; vizinho amar o vizinho; os conflitos sociais no
acontecero mais; haver felicidade perfeita durante mil anos; isso  o que os espritos vo prometer.
          Agora, muito pregadores pregam a 'nova era' gloriosa de vitria. Vitria sobre a guerra; vitria sobre os
conflitos sociais, vitria sobre a escassez; e vitria sobre todos os tipos de coisas. Seria uma "nova era gloriosa", o
sacerdote disse. Isto  exatamente o que o movimento est [a proclamar] em toda parte hoje.



                                              Santidade do domingo

          Ele disse [o sacerdote] que, como a vida neste planeta ficar mais difcil, calamidades golpearo o planeta
cada vez mais. Os espritos iro, naquele momento, pr todos os seus esforos para impressionar os lderes religiosos
em trazer diante da populao da Terra a santidade do domingo. Eles ensinaro a santidade do domingo. Com os
lderes religiosos esperando mil anos de paz na Terra, eles investiro todos os seus esforos nisso.
          Algumas pessoas perguntaram [na sesso]: "O que vai acontecer com as pessoas que no acreditarem nas
recomendaes dos espritos?" O sacerdote disse: "Isso no ser problema. Leis sero aprovadas e os governos
foraro as pessoas a aceitarem isso, embora elas no acreditem. E os oficiais de execuo de lei explicaro a pessoas,
claramente, que tal lei  necessria para assegurar o bem de todas as pessoas. As leis sero aprovadas sem esforo
nenhum".
          O sumo sacerdote tambm mencionou o fato de que, enquanto Lcifer escolheu o domingo como seu dia
santo, o Criador havia escolhido o stimo dia da semana. Lcifer foi quem influenciou isto, considerando o primeiro dia
da semana como dele, o dia sagrado de adorao do Sol, o "domingo."
          Ele explicou que "o 'Dia Venervel do Sol' sempre foi uma irritao terrvel ao Criador"... Ele fez uma
declarao que eu nunca esquecerei: "Pela observncia do dia, no qual o mestre, Satans, colocou a uno de sua
autoridade e poder, ele recebe homenagem (honra e respeito), indiferentemente de quem as pessoas pensem estar
adorando".




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